Arthur Soffiati - O último Ozu
* Arthur Soffiati - Atualizado em 23/09/2026 11:30
Reprodução



Um homem que lutou na marinha japonesa durante a Segunda Guerra Mundial, depois do seu fim, passa a trabalhar num escritório a convite de amigos. Ele tem dois filhos e uma filha. É viúvo. Um filho é casado. A filha é solteira. Os amigos do homem acham que ela não se casa para cuidar do pai. Diriam os roteiristas que o tema é fraco para um filme. Para Yasugiro Ozu, não é. Aliás, com variações, ele filmou esse roteiro desde a década de 1930.
A vida desse viúvo está contada em “A rotina tem seu encanto”, de 1962,
último filme de Ozu. Um ano depois, ele morreria. Na verdade, ele enfocou a rotina
em quase todos os seus filmes. É o filho que se dedica à mãe idosa. É a filha que
renuncia ao casamento por conta do pai. Mas também é a filha que se casa e deixa
a família. Em “A rotina tem seu encanto”, a filha do viúvo é estimulada por ele a se
casar e partir. Uma das cenas mais tocantes é a do fim do filme, mostrando a
solidão do viúvo, embora ele tenha ficado com a companhia do filho mais novo.
Mas não apenas. Ozu prezava muito a amizade e a bebida. Ele era alcoólatra. O filme mostra as frequentes reuniões de amigos para conversar e beber saquê, whisky e cerveja. Mostra a cena tocante do professor aposentado e também alcoólatra que se reúne com seus antigos discípulos. Esse professor tem um pequeno restaurante e uma filha que abdicou do casamento para cuidar dele. Para o viúvo, é um exemplo do que não se deve fazer. Ele até encontra uma garçonete que se parece com sua falecida mulher. Leva o filho para conhecê-la, mas nada acontece. Nos filmes de Ozu, nada acontece de extraordinário. Ele enfatiza a alegria de viver, a tristeza, a solidão.
Mas, cabem outras observações. O Japão de Ozu está dividido entre o passado tradicional e o presente ocidentalizado. Do lado de fora das casas, a vida é
ocidental, com seus trens (todo filme de Ozu mostra trens), automóveis, escritórios,
lojas etc. Do lado de dentro da casa, o Japão tradicional ainda reina. As pessoas
tiram os sapatos na entrada. As mulheres vestem trajes tradicionais. Os homens
usam quimonos. Em “A rotina tem seu encanto”, o ocidente começa a entrar nas
casas. Os sapatos não necessariamente são tirados. As mulheres usam meias. O
mundo feminino não é mais tão submisso aos homens. Mas, para se considerar
completa, uma mulher jovem deve se casar. Os cumprimentos ainda são
tradicionais. Nada de abraços e beijos.
Por fim, a estética de Ozu. Sua câmara não se move. Ela fica em plano baixo, focando o objeto em diagonal, de baixo para cima. É o famoso plano tatame, consagrado pelo cineasta japonês. Ozu gosta de geomertrizar os cenários. Não que ele crie cenários, mas busca planos geométricos. A câmara é colocada no chão de uma rua estreita voltada para uma esquina e mostra pessoas e automóveis que aparecem e desaparecem. O mesmo com relação a corredores, mostrando pessoas que entram e saem. A câmara fixa mostra movimento e também o que é imóvel, como prédios, por exemplo.
Em tudo e por tudo, assistir a “A rotina tem seu encanto” é prestar homenagem a um dos maiores cineastas do mundo e se deleitar com um filme que nos toca por mostrar a vida comum de uma família japonesa.


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