Filme: Obsessão - Em seu filme de estreia, Curry Baker usa aquele tipo de história manjada, do cuidado com o que você deseja, e transforma em um terror sobre controle e relacionamentos possessivos, sobre homens que objetificam e anulam mulheres através de relacionamentos doentios. Mas aqui, com uma pegada sobrenatural.
O protagonista Bear é aquele sujeito tímido, boa-praça, apaixonado, um estereótipo do qual aprendemos a gostar com facilidade. Porém, é um sujeito irresponsável e irritantemente passivo, que, através dessas características, mostra seu pior lado. O roteiro de Baker é inteligente ao trazer esse estereótipo e construir um momento em que ele tem toda a possibilidade de revelar seus sentimentos e, mesmo assim, não o faz.
O terror do filme não é tão eficaz, demonstra mais o baixo orçamento do que assusta. O filme funciona melhor quando busca provocar incômodo. Nesse sentido, as cenas de Nikki na penumbra e, principalmente, a cena em que ela fica em suspenso, aguardando o retorno de Bear no seu dia de folga, constroem a real dimensão do que ela vive.
O fato de ela ter lapsos de consciência prova que está ali como uma espécie de prisioneira senciente, tal qual uma mulher realmente presa em um relacionamento abusivo, que não consegue fugir daquela violência. O verdadeiro horror da obra reside aí.
É curioso que Bear fique com uma versão de Nikki que simplesmente é o oposto do que ela de fato é. Em seu pouco tempo normal, conhecemos uma mulher independente, divertida, cheia de personalidade e sonhos. Uma mulher que deixa de existir após a possessão, mas nem por isso Bear deixa de ficar com ela.
Esse é outro ponto relevante. Bear não ama Nikki de fato, ele ama ser o namorado dela, ter o corpo dela e sua devoção. A Nikki possuída funciona como uma espécie de espelho monstruoso de Bear, mas com uma diferença fundamental, ela não escolhe ser aquilo. A Nikki possuída é, portanto, o desejo de Bear devolvido a ele em forma de horror, através do corpo e da liberdade dela. Muito do sucesso do filme se deve à atuação da novata Inde Navarrette, que consegue transmitir carisma, horror e desconforto com intensidades impressionantes.
Obsessão é uma fábula de horror sobre a transformação do amor em posse, que se prova uma metáfora poderosa sobre relacionamentos tóxicos, controle emocional e violência afetiva. A maldição apenas torna visível aquilo que, em um relacionamento abusivo real, costuma acontecer de maneira psicológica, gradual e sem nenhuma influência do desconhecido.