Em Campos, uma "afronta política" que atravessa mais de um século
Dora Paula Paes - Atualizado em 16/09/2026 07:41

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A historiadora Rafaela Machado trouxe à tona uma das maiores “afrontas políticas” da história de Campos. “Convenhamos, na terra de Nilo Peçanha, um dos maiores campistas de todos os tempos e presidente da República, dar o nome de seu principal rival político a uma das principais avenidas parece, no mínimo, uma afronta à nossa história”, destaca Rafaela, referindo-se à Avenida Arthur Bernardes.
Ela, inclusive, abre uma campanha: “Eu voto pela mudança”, e instiga a população, a par dessa histórica contenda política, a marcar os vereadores de Campos na tentativa de corrigir essa “afronta”.
Agora, a provocação da historiadora, em sua rede social, reabre uma discussão que mistura memória, história e política. Mais de um século depois de uma das disputas presidenciais mais acirradas da Primeira República, deve a principal via perimetral de Campos carregar justamente o nome do político que derrotou — e foi adversário histórico — do campista Nilo Peçanha?
A resposta, como propõe Rafaela, pode começar nas urnas — desta vez, nas urnas simbólicas da opinião pública e no próprio Legislativo de Campos.
Nos arquivos do Senado Federal é possível resgatar essa disputa política que ocorreu há mais de 100 anos, quando os brasileiros assistiram a uma das corridas presidenciais mais conturbadas da história da República — uma eleição que foi marcada por ataques, fake news, forte polarização e pelo envolvimento dos militares.
A disputa ocorreu no contexto da Primeira República, período também conhecido como República Velha, e da chamada política do Café com Leite, em que as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais exerciam forte influência sobre a sucessão presidencial. A candidatura de Arthur Bernardes representava, naquele momento, a continuidade desse arranjo político. Já Nilo Peçanha foi lançado pela Reação Republicana, uma frente de oposição formada por forças políticas de outros estados e que também contou com importante apoio de setores militares. História, inclusive, que faz parte dos livros didáticos.
No pleito, o vencedor foi o mineiro Arthur Bernardes e, na outra ponta, estava o campista Nilo Peçanha.
Nos meses que antecederam a eleição de 1922, o clima era tenso. Os adversários de Bernardes espalharam informações falsas e insuflaram o Exército contra o candidato. No fim, a vitória foi questionada e houve tentativa de impedir sua posse.
Os ataques começaram cinco meses antes da votação. Em outubro de 1921, o jornal carioca Correio da Manhã, opositor da candidatura de Bernardes, publicou duas cartas bombásticas atribuídas ao presidenciável.
Na primeira, o candidato teria chamado os militares de “essa canalha” e o marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente da República, de “sargentão sem compostura”. Hermes acabou não concorrendo. Em seu lugar na disputa entrou o senador Nilo Peçanha (RJ), também ex-presidente do Brasil, imediatamente transformado no candidato dos militares.
Na segunda carta, Bernardes teria se referido a Nilo como “moleque capaz de tudo” e escrito que não tinha medo das classes armadas.
Arthur Bernardes logo denunciou que as cartas haviam sido escritas por um falsário, o que seria posteriormente confirmado por exames grafotécnicos. Mesmo assim, conforme mostram documentos de 1921 e 1922 guardados hoje no Arquivo do Senado, em Brasília, as cartas repercutiram no meio político e chacoalharam a campanha presidencial.
O episódio ficou conhecido como “as cartas falsas” e teve consequências que ultrapassaram a disputa eleitoral. A falsificação ajudou a aprofundar a oposição dos militares a Bernardes e contribuiu para o ambiente de tensão que marcaria seu governo e o surgimento do movimento tenentista, um dos fatores que desembocariam na crise política que levaria à Revolução de 1930.
As cartas foram tão impactantes que até hoje são consideradas um dos episódios mais emblemáticos de desinformação política da Primeira República. Um documento posteriormente atribuído ao próprio falsificador, Oldemar Lacerda, registra que as cartas teriam sido produzidas com o objetivo de inviabilizar a candidatura de Bernardes e fortalecer a de Hermes da Fonseca.
Os brasileiros foram às urnas em março de 1922. Bernardes foi eleito presidente da República com cerca de 467 mil votos, contra 318 mil de Nilo Peçanha. Foi uma das eleições mais apertadas da Primeira República. O grupo de Nilo não aceitou o resultado e alegou fraude — algo que fazia parte de um sistema eleitoral ainda sem Justiça Eleitoral, que só seria criada dez anos depois.
Mais de 90 anos depois da eleição que colocou os dois políticos em lados opostos, o nome de Arthur Bernardes voltaria a ocupar um espaço de destaque justamente na terra de seu adversário histórico.
Rodrigo Silveira
Em Campos - A Avenida Arthur Bernardes foi inaugurada em 24 de setembro de 2014, durante o governo da então prefeita Rosinha Garotinho, mas, avenida foi batizada muito antes. Ainda na década de 70, segundo acredita a historiadora. 
A obra foi executada por etapas e marcou a conclusão da primeira via perimetral de Campos, um projeto considerado antigo sonho de várias gerações. A prefeitura informou, na época, que a avenida teria quase oito quilômetros, ligando a BR-101 à BR-356 e contribuindo para a mobilidade entre diferentes bairros.
Com cerca de sete quilômetros de extensão, a avenida se tornou uma das principais vias de Campos, cortando diferentes bairros e estabelecendo uma importante ligação viária no município. No trecho final, foram construídas pontes gêmeas sobre o Canal Coqueiros.
A avenida também remete a um antigo projeto de planejamento urbano. A ideia de uma via perimetral aparece relacionada ao processo de expansão e reorganização da cidade e às propostas urbanísticas desenvolvidas ao longo do século XX. Em 1944, durante a administração do prefeito e engenheiro Salo Brand, foi elaborado um plano urbanístico pela empresa Coimbra Bueno, com o objetivo de orientar a expansão de Campos e integrar áreas que ficavam fora do núcleo central.

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