O dono do mercadinho do bairro morreu. Quem não é de bairro, de um bairro qualquer, de um bairro porventura ainda existente que seja de fato bairro, não entenderá a importância disso. E isso não é difícil acontecer, porque os bairros e os fatos estão desaparecendo, assim como países inteiros. Mas, enfim, o dono do mercadinho do bairro morreu, e tenha você a certeza de que isso merece atenção.
Porque o dono do mercadinho de um bairro é o mais bem sucedido entre os malsucedidos. É o não rico que não é pobre. É detestado e querido por todos por ser um sovina e por ser quem socorre nos apertos. Por ser um explorador miserável de alguns parcos empregados e por ser dos poucos que ainda conseguem manter alguns parcos empregos miseráveis. É inculto, de espírito prático, mas apoia a escola de samba da comunidade, desde que a sua filha seja a madrinha da bateria. E que sobrevive do tráfico mesmo sem estar envolvido com ele.
E aconteceu, como terrivelmente de costume, dele morrer.
E não foi latrocínio, não foi vingança. Não foi encomenda de máfia ou do jogo do bicho. Não foi policial descontente com a falta de propina. Não foi milícia. Não foi bombardeio norte-americano. Não foi sequer acidente de trânsito ou afogamento. Também não foi de amor ou de heroísmo. Nada que provocasse algum brilho biográfico, uma notinha que fosse no periódico local. Foi de um ataque cardíaco prosaico, súbito e inaudito em meio ao expediente, no corredor entre a seção de biscoitos gordurosos e a de massas industrializadas. Estatelou-se às 15h51 de uma terça-feira ensolarada em toda a cercania, menos no seu mercadinho sombrio de luzes apagadas.
Os funcionários mais próximos cuidaram dos socorros e do aviso aos familiares no andar de cima. Mas quanto à vida não havia muito o que fazer. Depois da confirmação vinda no final da tarde do hospital, o jeito foi cuidar dos ritos de passagem. E foi o genro que teve a ideia de procurar no escritório, que fica aos fundos, em um mezanino, algum dinheiro para fazer o velório — o que de fato encontrou em uma gaveta, em maços carnudos presos por atilhos puídos, acumulados em típica contabilidade paralela. Daria com sobra.
O inusitado é que também encontrou um caderninho com contas rabiscadas e anotações aleatórias, entre elas uma certa “lembrar de colocar no meu testamento: quero ser velado no meu mercadinho, em horário de funcionamento, com os clientes podendo comprar normalmente e com todo mundo trabalhando”. O genro evidentemente pensou no transtorno que seria, além de ser de mau agouro. Lançaria sobre o estabelecimento um estigma eterno. Provavelmente o negócio fecharia. Quem compraria no mercadinho depois daquela cena macabra? Era melhor não contar para ninguém o que havia descoberto. Colocou o caderninho na bolsa tipo carteiro que costumava usar, onde também guardou o dinheiro para o funeral e o sepultamento, deixou a sala e começou a descer a escada de ferro, em formato caracol.
A convicção de não contar o desejo do sogro se esvaiu a poucos metros, quando encontrou com a esposa. Não conseguia esconder nada dela. Perspicaz, ela percebeu em seus olhos a aflição do homem em desconforto com a informação que, no fundo, sabia que não era correto ocultar. E ele contou. E ela, para sua surpresa ou nem tanta, apenas disse, com o espírito prático herdado do pai e de futura matriarca dona de mercadinho de bairro:
- Então assim será feito.
O cronograma dos acontecimentos impôs uma logística ainda mais exigente. Porque era preciso liberar o corpo no hospital ainda naquela noite, para que os clientes entrassem para as compras na manhã seguinte e encontrassem o caixão posicionado em lugar de destaque e reverência. Também era necessário acordar mais funcionários para colocar um pouco de ordem no lugar, retirar caixas fechadas dos corredores, afastar prateleiras, varrer restos de grãos, ocultar fiações, desengordurar vidros, deixar o ambiente um pouco mais digno, como nunca o fora mesmo quando das fiscalizações subornadas da vigilância sanitária.
Depois de tomadas as providências de liberação do corpo e translado, de colocação do ataúde no corredor central e de posicionamento de velas e coroas de flores, a decisão foi de manter velório apenas para familiares e poucos funcionários durante a noite e madrugada, preservando momento mais íntimo. E naquelas horas, em meio aos estalos da câmara frigorífica e aos ratos que cruzavam o salão que lhes pertencia naquele turno, iniciou-se pouco a pouco a falta de sentido, o vazio familiar noite adentro, a fuga, a recusa em enfrentar um momento de verdade, de confrontação com uma vida de algum conforto material, mas de nulidade existencial, em atmosfera que se materializou em forma de saída, um a um, começando pela filha acompanhada da viúva, depois do genro e todos os demais, até que o corpo ficasse sozinho, para ser assim encontrado na abertura da loja.
E foi o que se deu. O gerente costumeiro abriu a portinhola pouco antes das 8h como sempre fazia, e estalou disjuntores como sempre fazia, e ergueu o restante da porta de aço como sempre fazia, e tocou para dentro, feito gado, os primeiros empregados que aguardavam na calçada. Todos assumiram seus postos e não demorou para que os clientes matinais chegassem. E todos circularam sem assombro ou desassossego pelos corredores. E não houve o estranhamento temido pelo genro. Nem ele próprio voltou a aparecer. Tinha um outro compromisso e esquecera do velório. A filha e a viúva ainda circundaram por alguns instantes o caixão, mas também saíram para outras ocupações. E a rotina dos dias fez com que todos se esquecessem, transformando em ausência simbólica aquela presença física deixada lá, apenas deixada, invisibilizada. E não houve mais velório ou sepultamento. Nenhum vestígio da beleza dos velhos funerais, nenhuma comoção. O corpo pútrido permaneceu ao centro do mercadinho. Sua existência nefanda não foi diferente dos dias nefandos, e seu odor não foi estranho aos demais odores do bairro e do país subjugado pelas leis do mercado e do mercadinho.
As vendas seguiram bem, nos dias normais da América Latina.
*Membro da Academia Campista de Letras ocupando a cadeira número 22.