Felipe Fernandes - Morte em família
*Felipe Fernandes - Atualizado em 22/07/2026 07:47
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Filme: "A morte do demônio: Em chamas" - Lançado em 1981, Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio é um dos grandes expoentes do cinema de terror da década de 1980. Um filme independente que revelou o então desconhecido Sam Raimi na direção de uma obra muito violenta, claustrofóbica e exagerada, capaz de misturar horror com um humor involuntário e uma direção criativa que a tornou cult. Seis anos depois, Raimi lançou uma continuação estruturada de forma a funcionar como um remake com mais orçamento e um humor certeiro e caótico, elementos que transformaram o filme em um clássico do horror e em uma referência do terror inventivo.

Em 2013, a franquia foi revivida com um novo longa, dirigido pelo cineasta uruguaio Fede Álvarez, que mantém muitos dos elementos da trilogia original, mas adota um tom mais sombrio e realista. O humor é abandonado, enquanto o gore e a violência retornam ainda mais intensos, em uma história sobre traumas e vícios que moderniza a franquia. Trata-se de um terror de possessão repleto de efeitos práticos, extremamente violento, que consegue se conectar narrativamente aos filmes anteriores, embora sem a inventividade dos originais.

Eis que chega aos cinemas A Morte do Demônio: Em Chamas, terceiro filme dessa nova fase da franquia que, na contramão da tendência do cinema contemporâneo de conectar todas as produções, aposta em histórias independentes, mas com características semelhantes.

Dirigido pelo francês Sébastien Vanicek (escolhido por Raimi após o sucesso de Infestação), o filme flerta com o horror francês contemporâneo, que utiliza a violência física para provocar desconforto e frequentemente faz da família o palco dessa violência por meio dos traumas. Assim como os filmes originais, a história se passa quase inteiramente em uma casa e transforma objetos do cotidiano em armas potenciais. A tensa cena do carro talvez seja a que melhor sintetize essa proposta.

O roteiro busca conectar o patriarca da família principal aos acontecimentos do passado da franquia, mas esse elemento é tão mal explorado que acaba soando gratuito. A novidade está na forma como a invocação acontece. Não é um humano desavisado ou inconsequente que desperta o mal, mas um demônio que invoca outro. Uma ideia que amplia as possibilidades da franquia, embora também pareça deslocada diante de tudo o que se estabeleceu anteriormente.

O filme concentra seu olhar no núcleo familiar, explorando traumas e desavenças que atravessam gerações e alimentam um ciclo de violência. A protagonista, Alice, vive um casamento conturbado com um homem violento, que exige dela um filho como forma de perpetuar a família e recorre à agressão para mantê-la sob controle. Sua morte torna-se a porta de entrada para o demônio, e o funeral reúne a protagonista à sua conturbada família, cujos conflitos e relações abusivas funcionam como catalisadores do mal. O verdadeiro horror nasce da ruptura dos laços familiares.

Esse deveria ser um forte elemento dramático. Os personagens temem não apenas a morte, mas também a tortura de ver seus entes queridos transformados em instrumentos do mal. No entanto, essas relações são tão mal exploradas que o espectador nunca sente o peso dessa transformação. A família já surge como uma ameaça em potencial, sem que exista um contraste capaz de fortalecer essa mudança.

O roteiro ainda apresenta uma personagem idosa que sofre de Alzheimer e funciona, em vários momentos, como um inusitado alívio cômico. As piadas sobre sua condição não divertem e chegam a causar constrangimento, sobretudo quando comparadas às da trilogia original, que encontrava humor justamente em seus exageros.

Se o aspecto narrativo é irregular, ao menos a parte visual mantém a qualidade da franquia. Com cenas extremamente gráficas, planos um pouco mais longos, mudanças de perspectiva, cortes inusitados e uma forte construção atmosférica, o filme provoca desconforto por meio de sequências brutais, potencializadas pelo uso predominante de efeitos práticos, uma das tradições da série.

A Morte do Demônio: Em Chamas é mais um capítulo de uma franquia que surgiu da criatividade estimulada pela falta de orçamento, cresceu, atualizou-se e parece ter estagnado. Embora eu goste de todos os filmes da série, esses novos capítulos são muito parecidos entre si. Continuam divertidos, mas a sensação de repetição começa a incomodar. O próximo longa já foi definido como um prelúdio, uma decisão típica de Hollywood para expandir franquias quando já não parece haver um caminho claro a seguir.

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