Folha Letras - Mário de Andrade em Campos
* Arthur Soffiati - Atualizado em 06/05/2026 07:40
Mário de Andrade
Mário de Andrade / Reprodução
Em 1992, publiquei o livro “Mário de Andrade e(m) Campos dos Goytacazes” pela Editora da UFF. Além de meio rebuscado, o título é mais longo. O livro só continha as cartas de Mário a Alberto Frederico de Morais Lamego, o Lamego pai, porque Mário lacrou todas as cartas que recebeu e determinou que o lacre só fosse rompido 50 anos depois da sua morte, em 1945. Assim, só em 1995 eu teria a acesso a elas. Demorou bastante para que toda a correspondência passiva fosse organizada e disponibilizada. Hoje, tenho as cartas de Lamego e a intenção de publicar uma nova edição do livro com a correspondência recíproca dos dois intelectuais.
A viagem de Mário a Campos estendeu-se de 29 de outubro a 7 de novembro de 1935. Ele já era diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Devia estar muito atarefado com a organização de uma instituição pioneira no Brasil e que ganhou dimensão nacional. Não se sabe muito bem por que Affonso D’Escragnolle Taunay escolheu Mário para concretizar a compra do acervo de Lamego para a recém-criada Universidade de São Paulo, pertencente ao estado. Tomar 10 dias de uma agenda apertada para vir a Campos, revela o impressionante interesse de Mário pela cultura.
Ele chegou a Campos com uma breve e ilustrativa carta de recomendação: “O portador desta é o meu distinto e prezado amigo Dr. Mário de Moraes Andrade. Nem se tornaria necessário a apresentação que ele me pede para o Snr., pois seu nome simplesmente Mário de Andrade é a melhor das apresentações. Em todo o caso como seja pessoa cheia de descabida modéstia, faço-lhe a vontade e assim tenho o grande prazer de aproximar dois amigos eminentes levando a presença de Alberto Lamego Mário de Andrade” (17-X-35).
Alberto Lamego, pai
Alberto Lamego, pai / Reprodução
No dia 29 de outubro, Mário saiu de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro, às 20 horas, no trem expresso. Foi acompanhado de um auxiliar. Hospedou-se no Rio Palace Hotel e viajou para Campos no trem noturno. Chegou no dia 31 de outubro. Hospedou-se no Hotel Gaspar. Comprou 14 caixotes para transportar o acervo de Alberto Lamego, já vendido à USP. Fez compras na Casa Machado Viana. Fez sete viagens de automóvel à fazenda dos Airises. Embalou os documentos vendidos por Lamego e despachou os caixotes, com seguro, pela Leopoldina.
Mário enviou telegramas e fez uma ligação para o Rio de Janeiro, observando em suas anotações que se tratava de necessidades do serviço. Imagina-se que ele tenha andado pela cidade. Pelo menos, pelo centro. Pela Praça do SS Salvador, pela Beira Rio. Que tivesse entrado na igreja matriz ou de N.S. Mãe dos Homens, já que era católico. Contudo, não se conhece uma linha dele sobre Campos. Entre 1935 e 1938, ele e Lamego mantiveram correspondência. Foram cartas curtas. Mário escreveu um artigo sobre a coleção Lamego, publicada n’”O Estado de São Paulo” em 22 de dezembro de 1935. Fez pesquisa nela a pedido de Rodrigo Mello Franco de Andrade. Em algumas ocasiões, falou mal de Lamego a amigos. Lamego falou bem de Mário publicamente. Mário convidou Lamego para o 1° Congresso da Língua Nacional Cantada. Lamego não foi.
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Por fim, Lamego convidou Mário a passar uns dias no Solar dos Airises, logo depois que Mário foi afastado do Departamento Municipal de Cultura por razões políticas, em 1938. Na última carta de Mário, redigida em 20 de junho de 1938, ele agradece o convite e relembra os momentos que passou nos Airises, a beleza da paisagem. Na primeira carta a Lamego, datada de 8 de novembro de 1935, Mário escreve: “Trago dos Airises uma recordação iluminada. A forma tradicional do seu solar, tão bem equilibrado de linhas e volumes, tão bem colocado numa paisagem esplêndida, os quadros, as pratas, os marfins, as gravuras, as porcelanas, tudo se gravou em mim numa recordação suavíssima, iluminando de luz desconhecida antes para mim, o autor dessa preciosíssima coleção.”
Mário sugeriu ao Ministro Gustavo Capanema o nome de Alberto Lamego para integrar a Comissão de Tombamento do SPHAN para o estado do Rio de Janeiro.
Essa viagem cheia de encantos de Mário a Campos bem merecia uma exposição.

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