Reconstrução facial forense poderia ajudar a descobrir face do indígena Goitacá
Dora Paula Paes - Atualizado em 25/04/2026 08:25
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O nome da cidade de Campos dos Goytacazes veio de uma nação indígena exterminada. Sem rosto. O que se tem sobre o Goitacá são relatos de religiosos, de viajantes e de cronistas. Nesse “Abril Indígena”, período dedicado à conscientização, valorização e fortalecimento das lutas dos povos originários no Brasil, enquanto a ciência não trabalhar para mudar essa realidade, seja com DNA ou reconstrução facial forense, a imagem real do Goitacá será sempre um mistério. Contudo, a grande preocupação da historiadora Sylvia Paes é que depois do Sítio Arqueológico do Caju, uma descoberta de quase 50 anos, Campos, que soma cerca de 800 condomínios, não tenha sinais de novos sítios.
No dia 19 de abril, outras duas historiadoras de Campos, altamente conhecedoras da história da terra que nasceram, usaram suas redes sociais para lembrar a data. Deixaram para a IA, modismo da atualidade, mostrar o que poderia ser a imagem do Goitacá. Se as imagens criadas não representam o que seria a face do Goytacá, para a historiadora Sylvia Paes, a iniciativa teve valor por abrir debate e chamar atenção para outras pautas.
Inclusive, na postagem da Folha 1 a pauta realmente chamou atenção de alguém com muito direito de fala, o influenciador Manoel Tananpy (Matses/Mayuruna), do Vale do Javari. Ele não concordou com a imagem. Além de que informaque sobre o Goitacá há relatos de que usava cabelos mais próximos de povoscomo os Kayapó. No mais, reclama: “Por isso eu sempre digo: precisamos de mais indígenas produzindo conteúdo, mais vozes indígenas sendo ouvidas e respeitadas”, chegou a escrever na postagem.
Sobre a face do Goitacá, a historiadora Graziela Escocard, por exemplo, reforça que enquanto a ciência não trabalhar para mudar essa realidade, seja com DNA ou uma reconstrução facial, a imagem real do Goitacá será sempre um mistério, nem mesmo a Inteligência Artificial ainda será capaz de retratá-lo. Segundo ela, não se abalou com as críticas, o importante foi lembrar o povo originário que aqui pisou e tentar retratar o que poderia ser o mais próximo do Goitacá. “Me incomoda as imagens errôneas do Goitacá, com adereços que eles não usavam”, disse, ressaltando descrições de Simão de Vasconcelos, Gabriel Soares, Príncipe Maximilian de Wied-Neuwied, entre outros.
Na sua postagem, outra historiadora tão respeitada na cidade quanto Graziela, Rafaela Machado, diz que é estranho viver em uma cidade que tem a referência ao Goitacá no nome, mas não fala sobre sua aparência. Para Rafaela a falta de uma representação é porque esses indígenas não foram desenhados. “No geral, eles eram descritos como tendo a pele mais clara do que a maioria dos indígenasbrasileiros e também mais altos e fortes. Possuíam cabelos bem compridos, mas raspados na parte da frente. Andavam nus e usavam jenipapo para a pintura dos corpos”, conta, entre outros detalhes, como grandes nadadores e corredores, além da prática da antropofagia.
“O mais que a gente possa imaginar, vai ficar na imaginação. Nós não temos um retrato falado desse indígena Goytacá, seja o indígena desenhado por João de Oliveira (artista plástico de Campos, falecido em 2021, que levou seus quadros até o Louvre, em Paris), ou mesmo as homenagens divulgadas por Rafaela e Graziela. Só não pode cair na esparrela; isso me dói quando vejo meus netos chegando da escola vestidos ao modo dos indígenas norte-americanos (Apache e Coyote). Que fique como lição aos professores locais: coloquem essas crianças como Tupi, mas jamais como um indígena norte-americano. Isso me dói e minhas filhas já mandam fotos pra mim dando risada”, salienta Sylvia.
Além de relatos, a presença do Goytacá na região, entre o século XVI e XIX, se fez real com a descoberta doSítio Arqueológico do Caju, registrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pelas equipes do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), sob a sigla RJ-MP-08, na margem direita do Paraíba do Sul, próximo ao Cemitério do Caju. Campos também tinha uma escultura, que fazia referência ao indégena na chegada da cidade, porém, retirada e abandonada. 
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Onde estão os sítios arqueológicos de Campos?

No sítio do Caju foram encontrados vasto material- fala-se em 5 toneladas. São cacos de cerâmicas, dois enterramentos (primário e secundário) em urnas. “Desses enterramentos primário é possível fazer a reconstituição. Mas uma reconstituição facial, aos moldes de práticas floresce, é cara, com artistas, arqueólogos e cientistas. Eu não sei se no Brasil já faz esse tipo de reconstituição facial. Também é possível, através das ossadas retirar DNA. Inclusive, a Uenf já teria mandando fazer esse trabalho, que não é tão caro e é mais rápido”, disse Sylvia; uma sugestão também defendida por Graziela.
Do DNA não será possível, entretanto, conhecer a face do povo originário de Campos. Para Sylvia, “a imagem desse indígena Goitacá está perdida para todos nós, até uma reconstituição facial”. Porém, ela explica que o DNA pode nos dar o caminho que esse povo percorreu: se entrou pelo Estreito de Bering (área marítima que separa a Ásia da América do Norte) ou pelo Pacífico, a partir das ilhas, que são as duas entradas do homem nas Américas.
Sobre possíveis imagens do Goitacá que circulam na Internet, Sylvia cita que existem dosCoroados e Puri. Do Goitacá existe uma prancha de um indígena atirando um arco e flechas com pés e mãos. “Tem também outra imagem que não tem nada haver com a descrição dos viajantes que é um indígena mais para Botocudo, porque está com enfeites nos lábios e orelhas e a cabeça raspada, porém, não faz jus a descrição da maioria dos viajantes e cronistas”, disse.
O Goitacáé descrito como alto e mais forte do que os Tupi que estavam no Rio de Janeiro e no EspíritoSanto. “O nosso indigena é de tradição cultural Macro-Jê, que falam uma língua diferente do Tupi”, completa Sylvia.
Ela ainda reforça: “O mais importante é nós sabermos hoje, que só temos material a partir do Caju. Precisamos ter outros sítios arqueológicos na nossa região de Campos, São João da Barra, São Francisco de Itabapoana e Macaé, região onde esse indígena ocupou, para poder comparar com outros indígenaspróximos na região - entre o Rio Macaé e Itabapoana e o mar e a serra do Mar - e, posteriormente, ocupadapelos Puri, Coropós e Coroado.”
De acordo com Sylvia, se Campos hoje tem 800 condomínios, segundo matéria da Folha da Manhã, lembra a historiadora, isso a deixa estarrecida. “Por que até hoje (quase 50 anos) não se soube de nenhum outro sítio arqueológico que tenha sido encontrado com abertura desses condomínios? A gente não escuta dizer nada.Ninguém achou nada? Ninguém achou um caquinho de cerâmica? Ninguém encontrou osso? Ninguém encontrou uma pedra, nada. Não é possível. Eu fico imaginando a quantidade de material arqueológico que está sendo destruído”, manifesta.
A historiadora ainda reforça que a destruição de sítio arqueológico é crime inafiançável. “Uma possível destruição de sítios arqueológicosme deixa aterrorizada, porque nós estamos perdendo uma quantidade de material capaz de nos dar possíveis saberes a mais sobre esses povos que ocuparam a nossa região”, conclui.
A Folha encaminhou uma demanda ao Instituto de Arqueologia Brasileira para saber se há alguma pesquisa em andamento em relação ao material levado de Campos. Até o final desta edição, sem resposta.

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