Arthur Soffiati - A ocidentalização da restinga de Paraíba do Sul
Os terrenos de restinga são propícios a uma economia extrativista, como a praticada pela nação goitacá. Tanto na planície aluvial quanto na restinga de Paraíba do Sul, havia frutos, moluscos, artrópodes, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos que serviam como alimento e dispensavam parcialmente a agricultura.
Para o modo de vida ocidental que começou a se instalar nas terras do futuro Brasil, porém, era preciso promover adaptações profundas. Num primeiro momento, a restinga foi preterida por ser menos difícil colonizar a parte aluvial da planície. A restinga era lugar do extrativismo, do futuro muxuango, tão discriminado por longo tempo. Alberto Ribeiro Lamego que o diga.
Os terrenos de restinga são propícios a uma economia extrativista, como a praticada pela nação goitacá. Tanto na planície aluvial quanto na restinga de Paraíba do Sul, havia frutos, moluscos, artrópodes, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos que serviam como alimento e dispensavam parcialmente a agricultura.
Para o modo de vida ocidental que começou a se instalar nas terras do futuro Brasil, porém, era preciso promover adaptações profundas. Num primeiro momento, a restinga foi preterida por ser menos difícil colonizar a parte aluvial da planície. A restinga era lugar do extrativismo, do futuro muxuango, tão discriminado por longo tempo. Alberto Ribeiro Lamego que o diga.
Mas pessoas de posse, no período colonial, podiam se contentar apenas com terras para ganhar mais poder. Assim, as áreas de restinga tinham donos, mesmo que nada produzissem.
Na restinga de Paraíba do Sul, ergueram-se a vila de São João da Barra, no século XVII, e alguns núcleos urbanos, como Atafona e Gargaú. No mais, tratava-se de uma grande área despovoada, mesmo considerando que foi pela restinga que começou um povoamento europeu mestiço por pescadores provenientes de Cabo Frio e um povoamento europeu mais sangue puro pelos Sete Capitães, Jesuítas e Beneditinos, no século XVII. A restinga começava a se inserir na economia global construída para o bem ou para o mal.
No século XVIII, o rio Paraíba do Sul figurou como um ponto de vital importância para a ocidentalização da restinga. O forte projetado pelo Sargento-Mor Manuel Vieira Leão na foz do principal rio da ecorregião demonstra essa importância. O grande perigo eram os holandeses. André Martins da Palma havia feito esta proposta à Coroa Portuguesa em 1657. Mas nenhuma obra foi executada.
Com todas as dificuldades que a foz do rio apresentava à navegação, havia ali um grande movimento de navios que aportavam no mar e transferiam sua carga para embarcações menores que entravam no rio e ancoravam no porto de São João da Barra. Esse porto permitiu o intercâmbio Salvador – Rio de Janeiro – Salvador, de onde partiam para e chegavam cargas de Lisboa. Pesquisa por fazer refere-se a um possível comércio entre as colônias portuguesas na Ásia e o norte fluminense.
Mais ainda, esse porto se inseria num próspero comércio de cabotagem que envolvia os portos de Vitória, Itapemirim, Itabapoana, Campos e Macaé. São João da Barra se beneficiava desse comércio. No final do século XIX, a importância do porto na foz do Paraíba do Sul mereceu o projeto de uma obra que tornasse a navegação mais segura. Ele foi proposto pelo engenheiro inglês John Hawkshaw em 1875. Na busca de um porto seguro para a região, o engenheiro examinou a enseada de Manguinhos e a foz do Paraíba do Sul, optando pela segunda. Propôs então a construção de dois guias-corrente, um em cada margem do rio, prolongando-o mar adentro. Certamente, ele causaria problemas de assoreamento da foz.
Também esse projeto não foi executado. As ferrovias e as rodovias acabaram facilitando o transporte da produção agrícola e industrial do Norte Fluminense para os portos do Rio de Janeiro e de Vitória. Alberto Ribeiro Lamego ainda voltou a propor um porto na foz do Paraíba do Sul como redenção da restinga.
Mas essa grande porção arenosa repleta de lagoas entrará na economia da planície, do estado do Rio de Janeiro, do Brasil e do mundo com as obras de drenagem executadas a partir de 1940 pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS).
Mas essa grande porção arenosa repleta de lagoas entrará na economia da planície, do estado do Rio de Janeiro, do Brasil e do mundo com as obras de drenagem executadas a partir de 1940 pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS).
A remoção da vegetação nativa e o uso de insumos químicos permitiram a conquista da grande restinga pela agricultura e pela pecuária. Hoje, a restinga de Paraíba do Sul nas margens direita e esquerda do rio Paraíba do Sul integra a economia-mundo criada pelo ocidente, sobretudo com rodovias e pontes. Ela está ligada ao Brasil pelas Br-356, RJ-194, RJ-196, RJ-240 e várias vias municipais.
Acima de tudo com a exploração de petróleo na plataforma continental e com a instalação de um mega empreendimento portuário no Açu. Esse empreendimento causa muito impacto socioambiental à restinga. A abertura de um grande canal no interior da faixa arenosa e a construção de espigões de pedra no mar não cabiam numa restinga nova, plana, rasa, ventosa, salina como a de Paraíba do Sul. E o grande empreendimento tem ambições colossais que implicam em expansão dentro da restinga. Além do mais, outros projetos na restinga são anunciados. Para o bem ou para o mal, a restinga de Paraíba do Sul integra-se numa economia-mundo.