O Efeito Orloff de Campos
Hamilton Garcia 07/10/2026 09:31 - Atualizado em 07/10/2026 12:15
Efeito Orllof
Efeito Orllof / andradejrjor.blogspot.com

Há 20 anos, em 2006, Campos realizou uma eleição suplementar para eleger seu Prefeito depois que a eleição de 2004 foi anulada por abuso do poder político e econômico, envolvendo compra direta de votos, cadastramento anômalo de beneficiários de programas sociais, distribuição seletiva de benefícios e serviços públicos, além de promessa e contratação dirigida de pessoal para o serviço público.
As práticas corruptoras das coalizões políticas da cidade e do Estado, liderada pelo Prefeito Arnaldo Vianna (PDT) e pela Governadora Rosina e Anthony Garotinho (PMDB), produziu uma crise política inédita, mas não a partir de protestos sociais e sim da decisão da Juíza Denise Apolinário, da 76ª Zona Eleitoral, que cassou a chapa vencedora do pleito, penalizando também a perdedora e seus apoiadores.
O caso me veio à memória não por conta da intervenção judicial propriamente dita – outrora baseada na lei e no espírito republicano –, mas por conta do uso aberto e abusivo das máquinas públicas em benefício de seus titulares, e da reação do eleitorado a isso.
Na Campos de 2006, e até hoje, a polarização se fixou entre o grupo pró-garotinho e o anti-garotinho, e as armas usadas na disputa pelo poder passaram a ser a da cooptação eleitoral turbinada pelas receitas da Lei do Petróleo (1997). O efeito disso não foi um festival de abusos vistos a olho nu nas ruas, mas também a institucionalização da gincana eleitoral com os candidatos oferecendo "tudo a um real”. O mesmo festival de bondades, à custa do pagador de impostos, se generalizou entre os ocupantes dos palácios de Brasília.
Como observador externo, vindo da capital, estas cenas campistas me impactaram pela equivalência de armas com a máquina eleitoral do chaguismo dos anos 1970-1980, onde também saltava aos olhos a utilização da máquina pública e dos recursos financeiros da ex-Guanabara. Hoje, o cenário nacional me causa o mesmo espanto.
A reação do eleitorado acerca deste modus operandi não pode ser menosprezado. Na eleição suplementar de 2006, as forças políticas juridicamente punidas nos escândalos foram não só recolocadas no centro do palco pelo distinto público votante, como ainda foram empoderadas com ainda mais votos. Dos 150.555 votos obtidos no 1º turno de 2004, os partidos corruptores (PMDB e PDT) saltaram para 192.630 no 1º turno de 2006; numa eleição solteira onde havia candidatos respeitáveis e propositivos não envolvidos em escândalos, como Makhoul Moussalem (PT) e Paulo Feijó (PSDB).
O recado não poderia ser pior: a maioria do eleitorado, por diversas razões, não só chancelava as práticas ilegais que solapavam a estrutura administrativa e financeira da municipalidade, como considerava mais racional disputar um lugar neste butim ao invés de buscar alternativas.
A mesma impotência política e resignação observamos hoje no comportamento eleitoral dos brasileiros, embora sendo esta baseada em narrativas ideológicas que eludem o fator “fisiológico”, escondido sob o manto sagrado da “política pública”. O brasileiro de hoje guarda uma semelhança inquietante com o campista de 2006, com a maioria esmagadora do eleitorado (82%, Carta Capital) optando por consagrar os dois candidatos implicados em escândalos e ilegalidades como os do Master e do INSS (roubo dos aposentados). Num contexto eleitoral onde não faltam ofertas de candidatos respeitáveis, inclusive uma novidade radical antissistema, do tipo "nem Democrata, nem trumpista” – para situarmos dois marcadores polarizantes nas elites.
Isto nos revela uma inquietante interação entrópica entre a impotência/resignação dos eleitores e a disfuncionalidade/torpeza institucional do Estado brasileiro – de caráter tributário claramente regressivo. Em Campos, estes fatores seriam facilmente explicados pela atrofia histórica da sociedade civil e pelo domínio das oligarquias familiares sobre as instituições locais/regionais. Mas isto se encaixa apenas em parte numa explicação sobre o Brasil – e também sobre a Guanabara. A banalização instrumentalista da disputa pelo poder, por meios ilegais, corruptos e anti-republicanos, saiu da anacronia do tradicionalismo patrimonial para o plano nacional dos partidos de "esquerda" e de "direita". Eis o efeito Orllof, com vinte anos de carência e devidamente adaptado aos novos tempos.
Olhando para o país, o efeito Orllof pode ser explicado pela lenta, mas contínua, deterioração das práticas políticas, oriundas, por sua vez, da estagnação do desenvolvimento nacional e seu corolário de esvaziamento das classes médias e trabalhadoras estáveis – sobretudo a operária –, pilares sociais, como nos mostrou Seymour Lipset, da organização política moderna. Assim como a desindustrialização norteamericana parece estar “abrasileirando" a política dos EUA, podemos dizer que o mesmo fenômeno está “acampistando" a política brasileira.
Os sintomas se veem a olho nu, com o familismo do bolsonarismo, o assistencialismo (instrumental) do lulopetismo, a provincianização do Parlamento (orçamento paralelo) pelo centrão, o aparelhamento dos organismos policiais (PF e PRF) pelos governos de plantão, e a instrumentalização inédita da Justiça por todas as forças em luta – que em Campos, outrora, desempenhou papel positivo.
A projeção desta convergência entre a cultura local (patrimonial) e a nacional – acentuando os aspectos neopatrimoniais da última –, não obstante as diferenças de proporção, estrutura e superestrutura, nos coloca diante da seguinte questão: uma resposta por baixo (democrática) é possível mas tem sido frustrante em ambos os níveis. Na eleição campista de 2016, a população reagiu sagrando a oposição republicana no primeiro turno, mas esta não soube governar sob as condições adversas dadas, frustrando a expectativa popular e trazendo de volta o patrimonialismo. Analogamente, na eleição nacional de 2018, a mesma incompetência e frustração se verificou, só que sob os auspícios do bolsonarismo, canoa sob falsa bandeira republicana na qual o eleitorado brasileiro embarcou.
O resultado desta dinâmica em Campos, vinte anos depois, foi que a cidade cresceu embalada pelas rendas petrolíferas sem superar seus problemas estruturais. No caso brasileiro, a quase estagnação já se arrasta por 40 anos e o quadro que se avizinha, associando crise interna (gastos excessivos e investimentos deprimidos) com crise externa (oneração/paralisação do comércio por guerras em rotas comerciais), tem potencial para fazer da crise fiscal de Campos em 2014 – ocasionada pela depressão nas rendas petrolíferas – uma chuva de verão.
Hoje, a vitória de qualquer uma das duas coalizões neste segundo turno para a Presidência da República, infelizmente, parece nos preparar um futuro igual, quer por falta de propostas programáticas consistentes ou de atributos político-intelectuais – ou ambas as coisas – para o enfrentamento de tal crise. Sendo assim, numa perspectiva otimista, o Brasil pode acabar como Campos.

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    Sobre o autor

    Hamilton Garcia

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    Formado em Sociologia&Política pela PUC/RJ, fez Mestrado em Ciência Política na Unicamp e Doutorado em História Contemporânea na UFF, se dedicando ao estudo dos partidos de esquerda. Atualmente leciona na UENF disciplinas de Política voltadas para a compreensão dos processos políticos e sua evolução, dos pensamentos que os inspiram, e seus múltiplos desenvolvimentos, levando em conta tanto fatores genéticos (formação histórico-social) como mutacionais (transformações econômico-sociais), além de colaborar com o Blog Opiniões do Grupo Folha da Manhã , o sítio Gramsci e o Brasil , a Fundação Astrojildo Pereira e, a partir de março, o sítio Latinoamérica 21 . Neste blog, pretendo discutir e analisar os fenômenos políticos atuais, ajudando o leitor a, antes de tudo, entendê-los para depois enfrentá-los.