Arthur Soffiati - Sonho recorrente
Não é de hoje que sonhos me perseguem. Depois de aposentado, sonhei por muito tempo que entrava em sala de aula sem camisa ou descalço. Que alunos não permitiam que eu falasse. Sonhei muito com rios. Num desses sonhos, apareceu um pequeno rio em São Francisco de Itabapoana que me intrigou. Um psicanalista explicou que o rio era uma metáfora. Que era a terceira margem da minha vida, como no conto de Guimarães Rosa. Um espírita disse que se tratava de uma recordação de outra vida. Fui até o local do sonho e o rio estava lá. Acontece que o rio era uma vala aberta no início dos anos 90, quando eu já era adulto nesta encarnação.
Agora, novamente sonho com um rio. Ele corre paralelamente ao rio Paraíba do Sul. Seu curso muda. No geral, não sei onde fica sua nascente. Sei apenas que desemboca numa lagoa que tem contato com o mar. Parece que se trata do rio Ururaí. Mas sabe-se que este rio nasce na lagoa de Cima e desemboca na lagoa Feia. Até aí, o sonho faz sentido. Acontece que a lagoa Feia tem contato com o mar pelo canal das Flechas, aberto entre 1942 e 1947.
Antes do canal, a lagoa Feia tinha contato com o mar de forma intermitente pela barra do Furado. Antes ainda, pelo pequeno rio Iguaçu, bem mais conhecido no passado do que hoje. Mas não é assim que se configura meu sonho. O rio que me persegue é paralelo ao rio Paraíba do Sul, desembocando pouco abaixo deste depois de entrar numa lagoa. Nos sucessivos sonhos, o rio chega a passar pelo jardim do Liceu. Sofro muito ao tentar decifrar este enigma enquanto durmo.
Quando acordo, procuro reconstituir meu sonho e dar-lhe o mínimo de lógica, de sentido. O rio Ururaí é mais novo que o Paraíba do Sul, embora o trecho final do segundo também seja novo, com menos de cinco mil anos. O Paraíba do Sul liga-se ao Ururaí pelo lençol freático e pela superfície, através do canal natural de Cacumanga. Hoje, este canal está alterado por obras. Mas esta geografia não serve para meus sonhos, que já assumem contornos de pesadelo. Sofro nos sonhos.
Quando acordado, busco sentido para este sonho recorrente. Seria possível um rio com nascente não sei onde que corresse paralelamente ao rio Paraíba do Sul, bem perto do seu curso? Que desembocasse numa lagoa em contato com o mar? Creio que não. A força do Paraíba do Sul absorveria outra corrente próxima dele. O rio Iguaçu corria paralelamente a ele, mas a uma distância considerável. E a lagoa em que ele desemboca nos meus sonhos? Quanta dificuldade encontrei para alcançá-la! Essa lagoa é um mistério. Até mesmo maior que o rio.
Quando penso que a alcancei, percebo que ela foge de mim. Nos meus sonhos, já fiz várias excursões para conhecê-la. Não consigo. Ao me aproximar dela, percebo que existem vários braços em direção ao mar. Contudo, nunca cheguei nesses braços em forma de foz. Nunca vejo o mar.
Em tudo e por tudo, trata-se de um rio impossível. Mas ele me atormenta. Ora é um largo curso de água fluente. Ora, reduz-se a um filete de água que corre ao lado de uma casa. Pergunto a pessoas sobre ele. Quero saber por onde passa. Penso no extinto córrego do Cula como forma de dar sentido a meus sonhos. Esse córrego era um defluente do Paraíba do Sul que nascia onde hoje fica o cemitério municipal, corria no ponto onde hoje ficam a Igreja do Saco e o shopping, formava a lagoa do Saco, passava em frente à usina do Queimado e descia para a baixada até entrar no rio Iguaçu. Em alguns trechos, era navegável.
Contudo, não é o fantasma desse córrego que me persegue nos sonhos. É um misterioso rio que acabará se tornando realidade de tanto que sonho com ele. É um rio sem nascente e com foz difusa. É um rio que muda de curso com frequência. É um rio que atormenta meu sono. É um rio que sei não existir, sei que nunca existiu, sei que nunca existirá, embora a engenharia civil tenha concebido um rio paralelo ao Paraíba do Sul pela margem esquerda a partir do rio Muriaé até o mar. A finalidade era evitar enchentes na baixada. Ele seria até navegável.
O rio dos meus sonhos corre na margem direita, em plena planície, sem contato com o Paraíba do Sul. Corre plácido num curso que muda a cada sonho e desemboca numa estranha lagoa indecifrável ou que muda de feição a cada sonho (ou pesadelo?). Não sei se meus sonhos decorrem dos meus estudos ou das minhas preocupações com a rede hídrica do Norte-Fluminense.
Assim como deixei de sonhar comigo descalço e sem camisa em sala-de-aula; assim como deixei de sonhar com alunos me agredindo enquanto eu ministrava aulas (de vez em quando, esses sonhos voltam), espero ter sonhos mais tranquilos na minha velhice. Amo rios e lagoas, mas não quero ter pesadelos com eles.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.