Arthur Soffiati - Rediscutindo o conceito de história
Noto que os livros didáticos de história continuam ensinando conceitos do meu tempo de estudante, na década de 1960. A história continua sendo dividida em dois grandes segmentos: pré-história e história. O marco divisório é a escrita. A pré-história é dividida em paleolítico e neolítico. Menos mau. Já no século XX, ela era dividida em selvageria e barbárie. Marxistas, como Engels e Childe, consagraram essa divisão. Embora com críticas, esses autores colocavam a civilização como um estágio superior.
Entrando na fase da história, tem-se a impressão de que algum deus escolheu certos grupos humanos para presenteá-los com um sistema de escrita. Isso não está dito, mas é a impressão que se tem. Continuando, a história é dividida em antiguidade, idade média, idade moderna e idade contemporânea.
Para começar a expor minha visão, não vejo separação em pré-história e história. Desde que começou a criar cultura imaterial e material, há cerca de um milhão de anos, a humanidade pré-sapiens e sapiens vem construindo sua história sociocultural. Podemos, nesse longo trajeto, reconhecer formas de organização social. Paleolítico é um conceito que ainda se sustenta, no meu entendimento. Trata-se de uma forma de organização social em que seus membros viviam da coleta, da pesca e da caça.
Portanto, seu modo de vida era nômade. Aqueles grupos paleolíticos que alcançaram, por esforço próprio ou por empréstimo, a domesticação de algumas plantas e de alguns animais puderam se fixar por algum tempo em algum espaço. Podemos continuar com o conceito de neolítico. O conhecimento da domesticação de plantas e de animais passou a grupos paleolíticos nômades, que também se sedentarizaram. A sedentarização permitiu o desenvolvimento de artes manufaturadas, como a cestaria, a cerâmica, a tecelagem, a metalurgia etc.
No entanto, é preciso lembrar que os conceitos de paleolítico e neolítico nasceram no hemisfério norte: na Europa e no Oriente Médio. Para o mundo tropical, eles só podem ser aplicados com restrições. Na África e na América do Sul, encontraremos grupos que viviam exclusivamente da coleta, da pesca e da caça com um modo de vida sedentário. Encontraremos grupos com um modo de vida sedentário sem depender da agricultura e praticando a cerâmica.
Mesmo na Europa e na Ásia, encontramos a civilização das estepes tendo uma vida nômade. Aqui, entra outra questão quase sagrada para os historiadores: a escrita. Os sistemas de escrita nascem da complexidade de uma sociedade. A constituição de camadas da sociedade se especializando na agricultura e no pastoreio, ou sendo obrigadas a realizar tais atividades para sustentar guerreiros, nobres e clero; a expansão de sociedades no plano territorial, o comércio com sociedades vizinhas ultrapassaram a capacidade do cérebro em armazenar informações. A escrita nasce dessa complexidade, dessa necessidade. A civilização andina, chamada popularmente de inca, desenvolveu apenas um sistema de contabilidade.
Continuando a examinar os livros didáticos de história. Neles, uma diversidade grande de civilizações do Oriente Médio e da Europa meridional é comprimida no compartimento Antiguidade. Nele, jogamos as civilizações mesopotâmica, egípcia, hitita, fenícia, cretense, grega e romana, além de outras como se elas formassem uma linha contínua. Por mais contatos culturais que elas mantivessem, o núcleo de cada uma pode ser claramente identificado e estudado separadamente. Assim, efetua-se a operação de jogar no mesmo saco o que tem identidade própria.
Continuando com a concepção de história como uma linha contínua, ligamos esse conceito artificial de antiguidade à civilização europeia. Como vivemos nela ou a aceitamos por imposição, cabe dividi-la em medieval, moderna e contemporânea. Assim, juntamos o que é separado no saco “Antiguidade” ou “História antiga” e separamos o que tem continuidade em três compartimentos.
Da minha parte, separo as civilizações consideradas antigas, reconhecendo o núcleo duro de cada uma e me voltando ainda para as civilizações que estão fora desse saco, como a índica, a indiana, a khmeriana, a chinesa, a japonesa, a polinésica, a mexicana, a maia, a andina e outras mais que não menciono por questão de espaço.
Por outro lado, tomo a ocidental cristã não como uma continuação da grego-romana ou helênica, mas como uma civilização filiada à helênica e marcada pelo cristianismo. Considero a chamada Idade Média, como o período de formação da civilização ocidental. A Idade Moderna seria seu momento de consolidação e de expansão. A Idade Contemporânea seria sua fase de dominação de outras civilizações, configurando o que entedemos por globalização. Tal concepção da história facilita meu entendimento.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.