Arthur Soffiati - Planície norte fluminense: esforço de interpretação
* Arthur Soffiati - Atualizado em 24/01/2026 08:21
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Desde 1978, empenho-me em compreender e explicar a planície do norte fluminense nas suas dimensões naturais, econômicas e culturais. De lá aos dias de hoje, é natural que eu mudasse de opinião, pois aprendo diariamente. Hoje, esse é meu entendimento:
1- A planície se estende do rio Guaxindiba ao rio Macaé, sendo recente sua formação, como nas demais planícies costeiras. A do norte fluminense é constituída por duas unidades geológicas. A primeira, do rio Macaé a Barra do Furado, corresponde a uma restinga com idade estimada de 120 mil anos formada junto aos tabuleiros. A segunda se constitui por uma planície aluvial e por uma grande restinga entre o rio Guaxindiba e o atual canal da Flecha. Essa planície se formou a menos de 5.100 anos, colando-se aos tabuleiros e à zona serrana.
2- O rio Paraíba do Sul e o mar foram as grandes forças naturais que formaram essa planície. No centro dela, corre o rio Paraíba do Sul, que lança águas à esquerda e à direita. Pela margem esquerda, pouco mais alta que o nível médio do rio, as águas de cheia avançam, ficam parcialmente retidas em lagoas e voltam ao rio quando seu nível baixa. Pela margem direita, as águas de transbordamento não voltam mais, por ser ela ligeiramente mais baixa que o nível médio do rio. Por tal razão, a umidade é bem maior na margem direita que na esquerda.
3- O acúmulo de águas de transbordamento e de chuvas na margem direita formou muitas lagoas, sendo a Feia a maior de todas. O escoamento para o mar efetuava-se, antes do século XVII, pelos rios Paraíba do Sul (principal), Iguaçu e Guaxindiba. O Iguaçu tinha uma foz apertada, motivo pelo qual formou-se, junto ao cabo de São Tomé, um extenso banhado.
4- O volume de águas acumulado na baixada e de difícil escoamento para o mar inibiu o desenvolvimento de vegetação florestal. Estas só eram encontradas nos tabuleiros e na zona serrana e eram fundamentais na retenção de água no continente e na sua distribuição para a planície. A fauna aquática era pródiga, permitindo aos povos nativos uma economia extrativista abundante.
5- A primeira tentativa de colonização europeia do futuro norte-fluminense, no século XVI, implicou numa pequena intervenção no rio Itabapoana, que não corre na planície. A segunda foi a abertura da Vala do Furado, em 1688. Ela escoava o excedente hídrico, no verão, e voltava a se fechar. Essa vala abreviava o escoamento pelo rio Iguaçu quando aberta. Reduzida a pressão hídrica, as águas da lagoa Feia voltavam a alcançar o mar pelo intricando rio Iguaçu.
6- Ao lado do Paraíba do Sul, destaca-se a lagoa Feia, o maior reservatório natural de água doce do norte fluminense. Ela recolhe água do rio Paraíba do Sul pelo lençol freático e por alguns defluentes superficiais, além de coletar águas da Serra do Mar por pequenos rios que afluem para o rio Imbé, que, juntamente com o pequenino rio Urubu, desemboca na lagoa de Cima. Esta escoa para a lagoa Feia pelo rio Ururaí, de formação recente. Recebe ainda a contribuição dos rios Macabu e de outros pequenos.
7- A partir do século XIX, o rio Paraíba do Sul e seus principais afluentes sofreram pesadas intervenções humanas visando a economia e a sociedade. Várias barragens foram construídas nos leitos para regularização e geração de energia. A urbanização de suas margens concorreu para a poluição. A transposição de 2/3 do volume do Paraíba do Sul para o Guandu, a fim de abastecer o grande Rio de Janeiro, concorreu para o estiolamento do grande rio, que não se recupera depois da transposição. Mas lembremos do grande desmatamento de toda a bacia e da eliminação dos reservatórios naturais às suas margens. Aconteceu o mesmo na planície do rio Macaé. Lembremos ainda da mineração.
8- A população de cultura europeia ao longo da bacia do Paraíba do Sul concorreu para as mudanças climáticas com o desmatamento indiscriminado e com a drenagem excessiva da planície. Agora, sofre as consequências com a falta de chuvas.
9- Os cientistas Édson Avelar Guimarães, Björn Kjerfve, Paula Debiase e Maurcío Mussi Molisani veem a planície norte-fluminense, estendendo-se da margem direita do Paraíba do Sul à margem esquerda do rio Macaé, como uma grande área úmida que deve ser protegida em toda a sua extensão. Lidando com a realidade das transformações provocadas pela economia a partir do século XVII, creio que seria inviável a proteção integral da planície. Para tanto, seria necessário retirar cidades costeiras, como Macaé, Quissamã e São João da Barra. Também Campos, que fica mais interiorizada. Toda a atividade econômica secularmente praticada teria de ser suprimida, assim como as grandes obras costeiras, a exemplo do canal da Flecha e do complexo industrial-portuário do Açu.
Da minha parte, entendo que não deve mais haver drenagem das áreas úmidas restantes, com a proteção das lagoas do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, da lagoa Feia, do Banhado da Boa Vista e da lagoa do Campelo. O reflorestamento com espécies nativas em áreas críticas também deve ser promovido. É a minha visão do problema de seca progressiva de uma região que já foi superúmida.

*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras

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