O filme se repete
13/02/2022 15:58 - Atualizado em 13/02/2022 16:24
O Palmeiras perdeu ontem a final do Mundial de Clubes para o Chelsea, por 2x1, com o gol decisivo marcado na prorrogação, em um dos pênaltis modernos no qual o zagueiro teria que ser maneta para que não acontecesse.
Vi apenas o finalzinho do tempo regulamentar e a prorrogação. Tenho cada vez menos interesse em assistir partidas de futebol. Os poucos jogos que vejo são feios, amarrados e cheios de erros técnicos e faltas. A parte que vi, apesar de reunir o campeão da América do Sul e o da Europa, não foi muito diferente.
Assisti um Palmeiras retrancado, sem conseguir organizar contra-ataques, e um Chelsea com um domínio de posse de bola pouco produtivo. Li depois em alguns críticos que o Palmeiras até as substituições jogou relativamente bem, dentro de sua proposta, sendo ligeiramente superior em parte da jogo.
Igual para Igual - Assim como o Grêmio em 2017 e o Flamengo em 2019, o Palmeiras de 2022 foi mais um a dar esperanças, especialmente para sua torcida, de derrubar a imensa supremacia européia recente, mas sucumbir com a derrota e o vice-campeonato mundial.
O filme se repete. A torcida se dirá orgulhosa do time, que ganhou a Libertadores e ao menos chegou à final do Mundial, após passar por uma semifinal sem sustos. Dirá que jogou de "igual pra igual". Mas no fundo, no fundo, estará decepcionada como os garotos palmeirenses chorando no estádio repleto de torcedores brasileiros das classes mais altas.
No futebol atual, cada vez mais global, mais capitalista e mais desigual, se confundindo com o próprio capitalismo, é cada vez mais improvável um clube sul-americano vencer o Mundial de Clubes. A desigualdade econômica em relação à Europa é abissal, se traduzindo em desigualdade técnica.
Comprando tradição - No site TransferMarkt, que avalia os elencos dos clubes a nível mundial e faz um ranking atualizado, o Chelsea é o 4º time mais valioso do mundo. O valor de mercado do seu elenco é de € 883 milhões, aproximadamente R$ 5,3 bilhões de reais. Haja dinheiro russo.
À frente do Chelsea estão Manchester City (€ 991 milhões - o mais valioso do mundo), PSG (€ 909 milhões) e Liverpool (€ 889 milhões). Depois dele estão Bayern de Munique (€ 816 milhões), Manchester United (€ 790 milhões), Real Madrid (€ 780 milhões) e Barcelona (€ 650 milhões).
Chelsea e Manchester City eram times de pouca tradição histórica no futebol europeu e até no futebol inglês. Após serem comprados por bilionários, em processo que, guardadas todas as proporções, lembra o da SAF recém implantada no Brasil, viraram potêncicas mundiais, com elencos estelares e, consequentemente, com conquistas antes inimagináveis. Tradição se compra com dinheiro. O PSG está na fase de tentativas ainda.
No futebol atual, cada vez mais as receitas de um clube independem de torcida e tradição. Com dinheiro, monta-se um bom elenco, compra-se jovens revelações para serem revendidas em alta, conquista-se boas colocações nas competições e com isso o faturamento vem, seja com premiações de campeonatos, vendas de jogadores e/ou da TV, que hoje guarda pouca proporção ao tamanho da torcida.
América na Série C - O elenco do Palmeiras, pelo site TransferMarkt, vale € 180 milhões. É o clube de elenco mais valioso na América, mas a nível mundial ocupa a 59ª posição. Houvesse uma Liga Mundial, pelo valor do elenco estaria no Z4 da Série C.
Na América do Sul, participam ainda do ranking o Flamengo (€ 144 milhões em 69º - Série D) e River Plate (€ 140 milhões em 72º - Série D). O único outro clube sul-americano listado é o Atlético/MG/ (€ 111 milhões em 86º - Série E). Os demais clubes brasileiros não teriam série em uma hipotética Liga Mundial.
Novo rico - Fora da lista dos 100 clubes de elenco mais valioso do mundo, considerando apenas o Brasil, o 4º clube brasileiro é o RB Bragantino, com elenco avaliado em € 80 milhões. Clube sem grande tradição, fez um brilhareco no início da década de 90, esteve várias vezes em divisões inferiores no Paulista e Brasileirão, até receber investimento pesado da Red Bull desde 2019, tendo ascenção meteórica.
No Rio, o Fluminense tem elenco avaliado em € 60 milhões (11º brasileiro), Vasco em € 23 milhões (13º) e Botafogo € 20 milhões (15º). Tudo leva a crer que o clube cruzmaltino e o alvinegro reverterão drasticamente este quadro com as SAFs e o dinheiro pesado dos novos investidores.
Davi contra Golias - Voltando à final do Mundial de Clubes, como exigir que o 59º elenco mais valioso do mundo faça frente ao 4º, que vale 5 vezes mais? Como exigir que um time de elenco de Série C ganha de um da A? Como exigir que o Palmeiras, que não tem nenhum jogador que tenha lugar no time titular do Chelsea, faça frente a ele?
E olha que o Chelsea é um dos campeões europeus de futebol mais fraco dos últimos anos. Talvez só comparável ao Chelsea de 2012. Longe de ser um time arrasador como o Real Madri de Zidane e Cristiano Ronaldo, o Barcelona de Guardiola e Messi, o Bayern dos jogadores base da seleção alemã campeã do mundo ou o Liverpool de Klopp.
No embate entre o campeão sul-americano e o europeu, o primeiro é o time pequeno e o segundo é o grande. Jogarem 15 vezes, o europeu vai vencer 14. O sul-americano 1 vez, muito provavelmente jogando como pequeno, criando menos chance de gol, sendo dominado e com seu goleiro fechando o gol. Disputarem 10 campeonatos de pontos corridos, o sul-americano vai chegar atrás em 10.
Longe, muito longe, dos tempos do Santos de Pelé, do Flamengo de Zico e do São Paulo de Telê, quando os times brasileiros eram parelhos e até superiores aos europeus. De lá para cá várias mudanças. Aumento do limite de jogadores estrangeiros nos clubes europeus, declínio das economias da América do Sul, câmbio local bem mais desvalorizado, globalização e aumento das desigualdades.
Em contrapartida, a disparidade econômica e técnica dos clubes brasileiros para os demais sul-americanos também se acentuou demais, pró Brasil. Nunca foi tão fácil ganhar a Libertadores. Brasileiros ganharam 4 das últimas 5 Libertadores, sendo que dois clubes do país, longe de fazer um futebol de encantar como o Fla de 2019, fizeram a final nos últimos dois anos.
Já no Mundial, tudo indica que os brasileiros continuarão criando expectativa e se decepcionando, dada a disparidade técnica e econômica. E devem dar graças aos céus pela Fifa não reunir os melhores clubes do Mundo de verdade na competição. Se houvesse mais vagas para europeus, muito provalvelmente nem à final um brasileiro chegaria.

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    Christiano Abreu Barbosa

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