A esquerda identitária quer catequizar o Cacique de Ramos, que desde 1961 aglutina e representa a cultura popular e suburbana no carnaval carioca. Acusam a entidade de cometer o pecado politicamente incorreto de usar fantasias de índio (apropriação cultural).
A turminha problematizadora ataca a cultura popular e suburbana no Carnaval e não problematiza sua performance ridícula e danosa.
Muita coisa ja se escreveu sobre a relação entre carnaval, política e sociedade. Uma das constatações que o senso comum popular é capaz de compreender e valorizar é que o carnaval possui uma lógica própria, produzindo significados que não deviram automaticamente do ambiente social que o circunda. A transgressão de papéis sociais é a face mais evidente desta lógica: no carnaval, você representa ser o que você não é.
A politização do carnaval quase sempre ignora que o carnaval, por mais que tenha afinidades com visões de mundo politicamente relevantes, não é política. É um fenômeno social sui generis, assim como a religião e o futebol.
Ainda que seja inegável que o carnaval tem ou pode ter influência na política, esta influência depende da lógica e das tecnicas específicas do carnaval. Quem acha que a Mangueira levou o caneco de 2019 apenas por sua mensagem política, ignora o mundo específico do carnaval.
Identitários, com suas cruzadas sobre quem pode usar que tipo de fantasia, operam na mesma frequência que os bolsominions: ambos querem asfixar o carnaval com uma lógica moral que não lhe cabe. Quando digo que ambos estão no mesmo patamar, algumas pessoas acham exagero. Já fui acusado de ser excludente por não gostar de conviver com pregadores identitários.
Lembro, no entanto, que, na nossa esfera privada, ao contrário da esfera pública ou profissional, podemos fazer essas escolhas. Não vale se irritar com o moralismo de direita e "passar pano" para os identitários.
Mas no caso, eu defendo sim que partidos de esquerda, se quiserem se reconectar com o povo, excluam estes moralistas identitários. Seu neopuritanismo é um dos principais problemas da esquerda para combater o moralismo de direita. Eles só trazem problemas e por isso devem ser excluídos.
Todo moralismo é um totalitarismo moral, uma visão moral estreita que ignora a variabilidade e a complexidade da vida moral realmente existente e possível. De direita ou de esquerda, ele representa sempre um ameaça à política democrática e ao carnaval.