"Desejo de Matar" entra em cartaz
- Atualizado em 09/05/2018 18:22
Entra em cartaz nesta quinta-feira (10) nos cinemas de Campos dos Goytacazes o filme “Desejo de Matar”, que está dividindo a crítica.
Divulgação
Polêmicas sempre tiveram aspectos positivos, tanto que o chamariz que proporcionam é tiro certo para ampliar ainda mais a visibilidade de uma obra. Seja um filme de imenso valor artístico ou um classificado apenas como experimento caça-níquel, o fato é que a controvérsia sempre traz consigo algum benefício, o que varia é somente a proporção dele. Rotulado de fascista desde a exibição de seu trailer, “Desejo de Matar”, de Eli Roth (“O Albergue”, 2005), apropria-se do falatório para projetar a sua narrativa através do choque, responsável por evidenciar os artefatos dormentes desse cinema de ação.
Contudo, chocante mesmo é perceber o investimento numa trama que trata a vingança sem sincronizá-la às questões sociais de nossos tempos, trazendo consigo um aspecto obsolescente, posto que esse filme é um remake do original protagonizado por Charles Bronson, em 1974. Uma invasão domiciliar com terríveis consequências serve de estopim para a busca desenfreada de Paul Kersey (Bruce Willis), cirurgião que tem como propósito a punição imediata, que parte das próprias mãos, mediante o seu julgamento, único e incontestável.
A família do protagonista, aquela típica de comercial de margarina, não tarda a assinalar a faceta grã-fina de Kersey, indivíduo que por desfrutar de boa posição social, acha que pode lograr permissão de liquidar os criminosos que interceptaram e fizeram mal à sua mulher Lucy (Elisabeth Shue) e à sua filha Jordan (Camila Morrone). Para muitos, isso seria justificativa suficiente, mas a satisfação do ato de aniquilar personagens que transitam por espaços que não se relacionam à sua tragédia pessoal já desperta ranço pela brutalidade gratuita impregnada na película, que faz questão de exaltar o cirurgião, que em determinado momento é tido como o Anjo da Morte de Chicago, tornando-se uma espécie de justiceiro.
Como se não bastasse, as cenas explicitam uma selvageria indissolúvel causada pela assimilação prematura da bestialidade discursiva ali presente, uma vez que tiros a esmo, miolos esmagados são só preliminares diante das torturas sofridas pelos criminosos, incluindo a adição de fluído de freio numa ferida aberta causada por Kersey, num enredo em que o protagonista reverencia a sua própria sina, resumida na atração pelo sangue a jorrar.
Claro que ações violentas pedem resoluções, mas a forma drástica como as sequências são exploradas desencadeiam num alvoroço imagético, interessado exclusivamente no assombro de sua agressividade, sem sequer vislumbrar uma redenção à sua narrativa, anêmica diante da fraqueza manifesta de seu enredo, escorado nesse desgoverno escapista.
Se por um lado, Roth tenta atualizar o filme a partir de registros dos atos de violência que viralizam após uma a captura via smartphone, seguida de upload nas redes sociais, e também o insere no contexto atual ao fazer uso de imagens estáticas que se transformam em memes, por outro, isso acresce um humor tão canhestro à obra, onde não é possível nem o longa rir de si mesmo, tamanha a impressão de descompromisso com preceitos morais, cujo veredito aponta para o reflexo da frouxidão temática da produção.
Roth já esteve envolvido em projetos de Quentin Tarantino, atuando em filmes como “À Prova de Morte” (2007) e “Bastardos Inglórios” (2009), mas parece que não soube se influenciar pela veia apelativa do exploitation de determinadas obras do diretor para rever conceitos.
Também entra em exibição nesta quinta-feira “A Noite do Jogo”. Prosseguem em cartaz “Vingadores: Guerra Infinita”, “Paulo, o Apóstolo de Cristo” e “Verdade ou Desafio”. (A.N.) (C.C.F.)

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