* Leo Aversa
A caixa de som na praia é a trilha do Brasil atual
Mesmo em um dia suave de verão, de céu azul, sem nuvens no horizonte e com a brisa do mar aliviando o calor, os banhistas são obrigados a ir embora
Fulânilson acabou de chegar na praia. É um dia suave de verão: o céu está azul, não tem nuvens no horizonte e a brisa do mar alivia o calor. As crianças estão na água e a água está calma. Tudo perfeito. Como poderia ser melhor?
Fulânilson sente falta de algo mais. O quê?
Uma epifania: falta o Safadão!
Ele liga a JBL, pareia o Bluetooth e manda “Passatempo”, do Wesley.
“Eu passo a mão, eu passo a língua, eu passo a boca”.
Extasiado pelos versos, Fulânilson aumenta o volume ao máximo. Tal qual um apóstolo, ele entende que é sua missão levar a mensagem do Wesley Safadão a todos. Pelos decibéis, é capaz da palavra chegar até o litoral da África.
“Agora sim tá perfeito!”, exclama Fulânilson, satisfeito, ainda que quase surdo. “Aqui é Brasil!”, proclama.
É nessa hora que chega na praia o Beltranésio. Ele constata o dia suave de verão, com um céu azul, sem nuvens no horizonte e a brisa do mar aliviando o calor. Porém, ele ouve o Safadão. Beltranésio fica indignado: “Mas que absurdo é esse!? Essa pessoa tá achando que está na sua própria casa!? Como um sujeito tem a empáfia de colocar um Safadão nesse volume!?”.
Beltranésio se revolta: “Essa bagunça tem que acabar!” Para colocar as coisas no seu devido lugar, pega a própria mega caixa Lenoxxea conecta na sua playlist. “Aqui é MC Levin! Aqui é Rio de Janeiro!”
“Ela me falou que quer rave, bebida, quer bala pra ficar na brisa...” declama o MC, no ritmo do batidão.
“Este sim é o som certo”, decreta Beltranésio.
Os olhares de reprovação não afetam nem Fulânilson, nem Beltranésio. Eis que aparece Sicranêra, um Playba Topzêra. Sicranêra é velha guarda, gosta de rock. Ele escuta o Safadão de um lado, o MC Levin do outro e faz cara de horror. Que músicas são essas!? Onde estamos!? Vou mostrar para essa gente o verdadeiro Rock’n’roll! Iron Maiden!
Sicranêra pede para o filho conectar sua caixa Bose ao celular — essas tecnologias novas são complicadas — e aumenta o som para o onze. Ele não pode ficar para trás.
“Run to the hiiills... run for your liveees...”
Enquanto a fúria do Iron Maiden se espalha, Sicranêra toca uma guitarra imaginária, o que enche o filho de vergonha. “Essa garotada tem muito o que aprender”, resmunga o roqueiro.
Com as caixas a todo volume, em pouco tempo a praia se torna um campo de batalha sonoro. Mesmo em um dia suave de verão, de céu azul, sem nuvens no horizonte e com a brisa do mar aliviando o calor, os banhistas são obrigados a ir embora. Sem açúcar, sem afeto. Os três não se importam: nenhum deles entende porque os outros não aplaudem sua música. Na verdade, ao mesmo tempo que aumentam o seu som, querem silenciar o dos outros. O ódio se instala, a guerra se espalha. Só num ponto concordam: se a praia é pública, então cada um pode fazer o que quiser. Fulânilson já pensa em montar um karaokê sertanejo na areia, Beltranésio sonha com um baile à beira-mar e Sicranêra quer cercar um espaço na areia. “Para ficar diferenciado”, explica. Os incomodados que se mudem é o novo Ordem e Progresso.
Se isso é uma metáfora dos dias que correm, leitor, não sei dizer. Talvez seja apenas um episódio isolado, acontecido numa praia onde o céu estava azul, não tinha nuvens no horizonte e a brisa do mar aliviava o calor. Aqui era o Brasil, aqui era o Rio de Janeiro.
* Texto publicado hoje em O Globo