Lagoas, plantas, peixes
06/02/2017 | 16h01
Lagoas, plantas, peixes
Arthur Soffiati
 
Se a Baixada dos Goytacazes, o Pantanal Mato-grossense e a Baixada de Jacarepaguá fossem colonizados por técnicas e tecnologias ocidentais hoje, certamente haveria uma discussão sobre as mais adequadas atividades econômicas a serem praticadas nas áreas. Os cientistas diriam que o melhor caminho para integrar tais ambientes não seria a agropecuária, mas a pesca e o ecoturismo.
Contudo, a ocupação delas processou-se antes da discussão. Eu não havia nascido quando os colonos de origem portuguesa, portanto, de cultura ocidental, chegaram ao Norte Fluminense, no século XVII. Sua intenção era criar gado nas áreas mais altas e secas, muito raras num imenso complexo hídrico em que não se distinguia claramente terra de água, rio de lagoa. Com o avanço da agropecuária, muito dinheiro foi gasto para converter uma extensa área úmida em área seca. Mesmo assim, sem o sucesso esperado.
O mesmo processo se deu no Pantanal Mato-grossense. Devido às grandes dimensões dele, a ocupação do território por atividades rurais teve de ser mais limitada. Como se percebeu que o turismo seria uma grande fonte de renda, entendeu-se por bem reservar áreas úmidas para esse fim.
A Baixada de Jacarepaguá não teve a mesma sorte. Quando prestei serviço militar, em 1967, passei quinze dias acampado naquele paraíso. A paisagem que então usufruí ficou na minha memória e no livro O sertão carioca, de Magalhães Correia. As belas, imensas, limpas e saudáveis lagoas hoje estão excessivamente poluídas. A vegetação de restinga foi quase totalmente erradicada. Naquele terreno frágil, o urbanista Lúcio Costa, ainda embebido na concepção cartesiana de que se pode e deve dominar completamente a natureza, concebeu um plano de urbanização completamente insustentável ecologicamente. Mas ele foi implementado, resultando num desastre urbano atualmente.
Na Baixada dos Goytacazes, muitas lagoas foram drenadas parcial e totalmente sob o pretexto de saneá-la. O motivo real e escamoteado era ganhar dinheiro com a agropecuária. A atividade pesqueira, vocação primeira da planície, sofreu muito. Enquanto as depressões naturais eram enxugadas e comprimidas por diques, a atividade cerâmica abria cavas para a extração de argila. Trata-se também de uma atividade com os dias contados. A argila de superfície não serve por ser muito suja. A de profundidade, além de extração proibida, não é rentável. Desse modo, a baixada fica toda esburacada.
Assim como Barra do Furado volta à baila, a piscicultura e o plantio de árvores também voltam. Eu os saúdo, embora não acredite numa política pública para a recuperação parcial dessas atividades. A criação de peixes para consumo familiar e venda nas cavas deixadas pela indústria cerâmica foi já foi cogitada mais de uma vez. Nunca houve continuidade dos governos municipais no seu aproveitamento como áreas pesqueiras. Talvez nem mesmo experiências incipientes. E parece mesmo irônico esse aproveitamento. Onde havia lagoas, há agora lavouras e pastos. Onde havia pastos, há agora buracos. É tarde para chorar o leite derramado.
Aproveitar as cavas para a criação de peixes é apropriado desde que as espécies sejam nativas da região, hoje infestada por espécies exóticas, como o dourado, a tilápia, a carpa, o bagre africano e até o pirarucu. Se a piscicultura vai ser praticada com espécies exóticas, cumpre que os criadouros fiquem afastados de cursos d’água e de lagoas para não aumentar a infestação. Todo cuidado é pouco. Lembro aqui o caso do ex-vereador Ruço Peixeiro, que me procurou para que eu tomasse providências pela fuga de tilápias que ele criava em tanques nas margens da lagoa Feia. Por ocasião de uma enchente, elas fugiram para a lagoa. Lembro também do deputado João Peixoto quando foi Secretário de Agricultura de Campos e não via nenhum problema em distribuir saquinhos plásticos cheios d’água e com “avelinos”, como diria Ruço, para pequenos produtores rurais. Ele ficou chocado quando denunciado no Ministério Público por essa iniciativa que só tinha a intenção de beneficiar produtores. De boas intenções, o ambiente está cheio de destruição.
Lembro ainda de Garotinho quando foi governador do Estado do Rio de Janeiro (ter memória dói muito), que criou o bíblico programa Multiplicar, também com a finalidade de multiplicar peixes, como Jesus. Só que de forma natural e com espécies exóticas.
Estes equívocos devem ser evitados. Civis e governantes também se comovem muito com o plantio de árvores. Eles acham que estão contribuindo para recuperar a natureza que ajudaram a destruir. Então, não sabem distinguir espécies nativas de um ecossistema de espécies exóticas, ou seja, de outros ecossistemas. Não sabem como plantar, não se preocupam em cuidar das mudas até que as plantas cresçam por conta própria. O resultado é zero. As mudas são abandonadas como bebês recém-nascidos e morrem. No seu primeiro mandato como prefeito de Campos, Garotinho disse ter plantado vinte mil mudas num só dia. Nunca vi uma que tenha crescido. Se alguém viu, me avise, por favor. Devemos, pois, saber o que plantar, onde plantar, como plantar e como cuidar.
Enfim, políticas públicas municipais de reflorestamento e piscicultura devem nortear-se pelos seguintes princípios:
A- Reflorestamento
1- Buscar apoio técnico de órgãos governamentais especializados no tema;
2- Promover debates com especialistas antes de iniciar a implementação da política de reflorestamento;
3- Certamente que, após os debates, áreas e espécies adequadas estarão selecionadas;
4- Prioridade para margens de rios e lagoas;
5- Prioridade para espécies frutíferas.
B- Piscicultura
1- Debates com especialistas para definir locais e espécies a serem usadas na piscicultura;
2- Orientação técnica em todas as fases de execução da política;
3- Atenção para a questão da água;
4- Cuidados devidos para não agravar mais ainda a infestação de rios e lagoas por espécies exóticas aos ecossistemas locais.
Na implementação das duas políticas, voltá-las prioritariamente para minorar os impactos ambientais e atender ao pequeno produtor e ao pescador.
Compartilhe
O isolacionismo de Trump
05/02/2017 | 10h27
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 05 de fevereiro de 2017
O isolacionismo de Trump
Arthur Soffiati
 
Antes mesmo de proclamar sua independência, em 1776, as Treze Colônias britânicas na América, embrião dos atuais Estados Unidos, já se expandiam além de suas fronteiras. Elas estavam concorrendo com a própria metrópole no oriente pelo domínio comercial. Essa concorrência, aliás, foi o grande motivo da guerra de independência. Cabe lembrar também que as ideias republicanas que acalentavam o novo país vinham da Europa, sobretudo da Inglaterra.
Tão logo proclamada a independência, lá estavam os Estados Unidos guerreando a Líbia. Por que tão longe? Porque o novo país tinha interesse no Mediterrâneo. Pelo tratado assinado com a Inglaterra, que reconheceu a independência das ex-colônias, o novo país ganhava também a região dos Montes Apalaches, em 1783. Em 1803, aproveitando-se do tumulto causado por Napoleão na Europa, os Estados Unidos compraram da França a Louisiana. Para a França, era vender ou perder.
No caso da Espanha também. Era vender ou perder a Flórida em 1819. Já com o México, cujo território era muito maior quando de sua independência, não houve opção. Por uma guerra entre 1846 e 1848, os Estados Unidos anexaram grande parte do México. O pretexto era sempre a doutrina do Destino Manifesto, segundo a qual o destino dos Estados Unidos era expandir-se e civilizar terras bárbaras. Já em 1823, a Doutrina Monroe podia ser resumida com uma frase: “A América para os americanos”. Hoje, a doutrina Trump também cabe numa única frase: “A América primeiro”, como se os Estados Unidos correspondessem a toda América. O objetivo oculto da Doutrina Monroe foi afastar os interesses dos países europeus sobre a América como um todo. Os demais países americanos, porém, viram nos Estados Unidos o grande guardião de suas independências e o grande líder.
Os territórios anexados no oeste da América do Norte evidentemente não eram despovoados. Muitas nações indígenas os habitavam. Contra eles, os Estados Unidos travaram guerra de extermínio e se apossaram das terras de povos que não tinham noção de propriedade privada. Essas conquistas deram origem ao gênero “faroeste” no cinema. Por compra, o país incorporou o Oregon, em 1846. Ainda do México, anexou o território do Gadsden, ao sul do Arizona, em 1853.
Em 1867, invocando a Doutrina Monroe, os Estados Unidos adquiriram o Alasca do Império Russo. Em 1893, foi a vez do arquipélago do Havaí. Em 1898, os Estados Unidos guerrearam a Espanha e a venceram. Cuba passou a ser protetorado dos EUA, com o domínio direto de Guantánamo e das Filipinas pelo país expansionista. Os domínios do novo país ultrapassaram os limites continentais, chegando às ilhas de Porto Rico, Guam, Samoa, Marianas do Norte e Virgens. Ainda sob seu controle ficou o Canal do Panamá.
Logo a seguir, os Estados Unidos ingressaram na Primeira Guerra Mundial (1914-18), ao lado da Inglaterra e da França. A proposta de uma organização mundial, ao fim da guerra, foi formulada pelo Presidente Wilson. Assim, foi criada a Liga das Nações, mas os Estados Unidos não participaram dela, voltando ao que se considerava isolacionismo. O sociólogo e historiador Immanuel Wallerstein sustenta que a Primeira Guerra Mundial decorreu da concorrência internacional de Alemanha e Estados Unidos.
Com a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos não voltaram mais para seu pseudoisolacionismo. Pelo contrário, o dólar passou a ser o padrão monetário internacional, a União Soviética passou a ser seu arqui-inimigo. O país se envolveu em várias guerras fora do território americano. Sua dependência econômica ao resto do mundo aumentou acentuadamente depois de 1945.
Um exaustivo estudo empreendido recentemente por Keiichiro Kanemoto e Daniel Moran mostra que a devastação de ambientes terrestres e marinhos, com o comprometimento da água doce e a ameaça de extinção de espécies na América Latina, Ásia e Oceania, devem-se aos Estados Unidos, União Europeia, China e Japão. No Brasil, o Cerrado é a maior vítima.
No fundo, concordo com Trump. Oe Estados Unidos devem mesmo adotar uma politica isolacionista, não permitindo a entrada de imigrantes. Mais que muros e fiscalização de fronteiras, o ideal seria construir uma cúpula sobre todo o país. Assim, as emanações de gases do efeito estufa ficariam limitadas ao espaço aéreo de seu país. A proposta valeria também para União Europeia, China e Japão. Claro que se trata de uma proposta inexequível. Se fosse exequível, eu também seria contra ela. Afinal, nem mesmo os eleitores de Trump têm plena consciência do que fizeram ao elegê-lo. A maioria do país foi contra ele.
Mas a pergunta que não quer calar: os Estados Unidos podem ser autossuficientes em tudo? Eles podem produzir tudo o de que necessitam em seu próprio território? Eles podem comprar todos os produtos bélicos da sua indústria militar?
Compartilhe
Barra do Furado
02/02/2017 | 12h48
Barra do Furado
Arthur Soffiati
 
Vira e mexe, Barra do Furado volta à pauta. E bota vira e mexe nisso. A primeira vez que a questão de uma saída para o mar pelo sul da lagoa Feia foi discutida remonta a 1688, no século em que a colonização portuguesa contínua da região começou. A geografia da baixada era então bem diferente que a de hoje. Da lagoa Feia, partiam vários canais naturais por onde a água escoava, reunindo-se todos ou quase todos num único ou quase único canal. Os antigos o conheciam com o nome de rio Iguaçu. Ao norte, corria o rio Paraíba do Sul. Quase paralelo a ele, na parte meridional, corria outro sistema complexo que até hoje é difícil de identificar. Ele começava com os rios Imbé e Urubu, que se alargavam na lagoa de Cima, que escoava pelo rio Ururaí, que recebia parcialmente a contribuição do rio Preto. As águas do Ururaí se alastravam na lagoa Feia, que recebia água dos rios Macabu e da Prata, além de água do Paraíba do Sul pelo lençol freático.
Dela, as águas se distribuíam por vários canais que se juntavam no chamado rio Iguaçu. No seu curso rumo ao que hoje é a barra do Açu, ele recebia água do Paraíba do Sul por vários canais naturais. Quando havia muita água, ele forçava a barragem de areia entre a lagoa do Lagamar e o mar, principalmente por força do rio Bragança, seu afluente, formando o que era conhecido por Barra Velha. O príncipe alemão Maximiliano de Wied-Neuwied registrou esse rio por escrito e por desenho. Era lindo. Hoje, não existe nitidamente.
Voltando a 1688, o capitão José de Barcelos Machado, um dos descendentes indiretos dos Sete Capitães, herdou terras ao sul da lagoa Feia. Era o Morgado de Capivari. Ele olhou pra aquela água toda correndo pelos canais naturais perto do mar e entendeu que faltava inteligência a ela. Recorrendo à ficção, ele perguntou por que ela não atingia o mar ali, tão perto, em vez de se dirigir para a barra do Canzoza, como se chamava antigamente a barra do Açu. A água doce respondeu, mas poucos entendem sua linguagem. “Porque aqui, o mar é muito forte e não deixa eu abrir uma saída por bastante tempo. Veja no Lagamar. Eu abro a Barra Velha, jogo-me no mar e logo ele fecha. No Açu é diferente. A saída lá é protegida da corrente dominante.”
Foi o que aconteceu. A vala do Furado só se mantinha aberta se a força da água doce no continente conseguisse enfrentar o mar. Vala do Furado não é o mesmo que canal da Flecha, gente. Leiam esse artigo até o fim. Não contente com a teimosia do mar em fechar a Barra do Furado, a engenharia sanitária tentou ligar a lagoa Feia ao mar por um canal retilíneo. A ideia foi do engenheiro Marcelino Ramos da Silva, que escolheu o ponto em que a lagoa mais se aproxima do mar. Esse ponto fica em terreno de restinga, portanto arenoso. Saturnino de Brito, outro engenheiro, advertiu que o canal não daria certo, pois a areia da restinga esboroaria e entupiria o canal. Marcelino o abriu assim mesmo em 1898, com o nome de Ubatuba ou Jagoroaba. A previsão de Saturnino de Brito se concretizou. Marcelino admitiu que havia cometido um erro. Mas a ideia de lançar água doce excedente para o mar pela Barra do Furado continuou. Até mesmo Saturnino de Brito, tão cauteloso, admitiu que um canal entre a lagoa Feia e o mar em terreno argiloso vingaria.
Criado em 1940, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) abriu, entre 1942 e 1949, o conhecido canal da Flecha, que funcionaria como outro defluente de água para o mar junto com o rio Paraíba do Sul. Para domesticar as águas revoltas da Baixada dos Goytacazes, era necessário aproveitar os canais naturais que ligavam o Paraíba do Sul ao Iguaçu, drenar as lagoas horríveis que eles formavam, desviá-los para o canal da Flecha, dar a eles um traçado retilíneo e tudo funcionaria às mil maravilhas. Não funcionou.
A força do mar tapava a foz do canal da Flecha no mar como tapava a barra da vala do Furado e a Barra Velha. Então, o DNOS teve uma ideia brilhante: prolongar o canal mar adentro por dois espigões (guias-correntes). Com a barra permanentemente aberta, seria possível construir um ancoradouro e um terminal pesqueiro para os pobres pescadores do Farol de São Tomé. Na verdade, a intenção não declarada era criar um porto para os petroleiros da Petrobras, para os navios pesqueiros industriais de alto mar e para drenar e dessalinizar uma vasta área para a agropecuária. Há quem me conteste quanto a estas afirmações. A diferença é que sou testemunha dessa história, além de contar com documentos. Falo e escrevo com base.
Mas quem faria obra tão suntuosa? Só havia um empresário capaz de executá-la. Ele era, ao mesmo tempo, deputado federal bem quisto pelo governo militar e pelo Ministério do Interior. Quem, quem, quem? Ninguém mais que o deputado-empresário Alair Ferreira. Ele tinha uma pedreira, os caminhões para transportar as pedras e uma empresa de engenharia. Sem nenhum estudo de impacto ambiental, a obra foi feita. Resultado: o espigão da margem direita do canal (lado de Quissamã) passou a reter areia, enquanto que, do lado esquerdo (lado de Campos), o mar erodiu a costa. Na época, lembro-me bem, fui o único a condenar as obras publicamente. Políticos regionais e população acreditaram que a obra seria a redenção da região. O DNOS era, então, uma espécie de Eike Batista da época. Como ele, um ídolo de pés de barro. Não se falava em DNA da empresa, mas, tanto o DNA do DNOS quanto o DNA das empresas de Eike eram enganosos. Diziam ser DNA de elefante, mas não passavam de minhoca.
A obra só agravou os problemas costeiros de assoreamento e erosão. Elas ficaram lá, abandonadas. Posteriormente, surgiram otimistas (eles são muito perigosos) com propostas de aproveitá-las no desenvolvimento regional. As propostas não saíram do papel. Parece que haviam enterrado uma caveira de burro em Barra do Furado. A última tentativa foi empreendida nos oito anos do governo Rosinha, com apoio do governo de Quissamã. Lembro-me bem do início. Agora, estudos de impacto ambiental aprovados pelo INEA, audiência pública validada pelo INEA, autorizaram as obras, iniciadas e logo interrompidas.
Nenhuma empresa quer investir em infraestrutura. Elas querem encontrá-la pronta para montar seus negócios. Coube às prefeituras de Campos e de Quissamã investirem dinheiro dos royalties para montar a infraestrutura, ou seja, resolver o problema do acúmulo de areia do lado oeste, aprofundar o calado para a entrada de navios e criar área para a construção de plantas empresariais. É sempre problemático confiar em fluxo de dinheiro fácil. Um dia a torneira pode fechar. Foi o que aconteceu com os royalties. Não que a torneira tenha sido totalmente fechada. Mas o que vaza dela é muito pouco. Parece o conjunto de reservatórios da Cantareira em São Paulo em 2014-2015. O consumo de água foi maior que o volume de chuvas. Foi necessário adotar o racionamento.
Para voltar à Barra do Furado como local de empreendimentos econômicos, é preciso levar em conta os seguintes pontos: 1- nada que seja feito lá, redimirá a região. Há que ser mais humilde, fazer projetos mais modestos, ter os pés no chão; 2- Tudo o que se fizer lá deve partir do princípio de que os problemas de retenção de areia e erosão costeira devem ser resolvidos de modo a alinhar a costa novamente; 3- todo empreendimento lá realizado deve beneficiar também os pequenos, sobretudo pescadores; 4- toda intervenção lá efetuada deve levar em conta a dimensão ambiental, do contrário, a Secretaria de Desenvolvimento Ambiental (nome horrível que poderia voltar a ser simplesmente para Secretaria Municipal do Meio Ambiente) não poderá mais levar as pessoas para conhecer o Manguezal da Carapeba; e 5- transparência governamental sempre. Apesar de vídeos, folders e visitas guiadas, nunca se soube exatamente o que as prefeituras de Campos e de Quissamã queriam realizar em Barra do Furado.
Compartilhe
O cansaço dos zumbis
31/01/2017 | 10h24
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 31 de janeiro de 2017
(DOIS MATEUSINHOS)
Resident Evil: o capítulo final
O cansaço dos zumbis
Edgar Vianna de Andrade
 
Dos seis filmes da série “Resident Evil”, só o terceiro, de 2007, foi dirigido por Russell Mulcahy. A direção dos outros cinco ficou com Paul W.S. Anderson. Sua mulher, Milla Jovovich, foi a atriz principal nos seis, no papel da andrógina Alice. Só os adeptos do videogame, de onde os filmes foram importados, conhecem a história. Tanto que o início do capítulo final traz um resumo do passado para que o espectador se situe. Trata-se de um enredo simples: Sócio de um grande laboratório de pesquisa, o pai de Alice é assassinado por seu amigo. Ainda pequena, Alice é retida em cárcere privado e é transformada num programa até se tornar adulta e fugir. Mesmo não tendo sido educada para a nossa cultura, ela foge já sabendo tudo, inclusive artes marciais. Ela vai lutar contra o sócio do pai, sua empresa Umbrella e combater o T-vírus, que transforma as pessoas em zumbis. Se não é tudo, é por aí.
O capítulo 6, que se pretende final, não é tão final assim. Anderson abre uma brecha para um sétimo. Vai depender da bilheteria do sexto, elogiado superficialmente pela crítica. Assisto a filmes por não confiar nos críticos. Assim devem fazer os que me leem. A ideia não é ruim, mas o roteiro não soube aproveitá-la. Foi o que percebi. Como sempre, os Estados Unidos estão em primeiro lugar, embora a produção do filme tenha se encerrado antes da vitória de Donald Trump. Não importa. Os filmes-catástrofe estadunidenses sempre colocam seu país como centro do mundo. É de lá que partem as tentativas de destruir o planeta. Ele é sempre o primeiro alvo de alienígenas. Mas de lá, sempre partem as soluções.
“Resident Evil” final é um filme enlatado, como se chamavam antigamente os filmes estandardizados. É um filme sem alma. Washington está destruída. Parece que uma bomba atômica caiu sobre a cidade. A humanidade se transformou em zumbis. Poucos ainda não foram contaminados. Animais sofreram mutações genéticas e se tornaram monstruosos. A empresa Umbrella guarda uma elite adormecida por métodos criogênicos para despertar quando os zumbis forem exterminados. A Terra será dominada por uma raça pura e rica. Parece mesmo um projeto de Trump. Mas um antivírus é produzido. Ocorre uma falha no programa Alice, mostrando que a computação não é cem por cento confiável. Alice verdadeira ou o androide dela (pois nunca se sabe quem é verdadeiro ou falso no filme), sabedora de tudo, vai lutar contra zumbis e inimigos de seu pai para salvar a Terra. O filme é uma sucessão de lutas intermináveis. Melhor, elas terminam previsivelmente com a vitória da quase solitária Alice. Ou seja, do bem contra o mal.
Acho que chega. Os zumbis estão cansados de sempre andar com pés tortos e terem suas cabeças estraçalhadas ou decepadas. Milla Jovovich já está envelhecendo. É hora de fazer papel de mãe de adolescente ou mesmo de jovem avó.
Compartilhe
O século eixo
29/01/2017 | 10h45
O século eixo
Arthur Soffiati
 
Dos 13.800 bilhões de anos de história do Universo, destaco os 10 bilhões de anos de história do nosso sistema planetário. Dele, seleciono os 4.500 bilhões de anos de história da Terra, enfocando desse tempo, particularmente, os 3.600 bilhões de anos da vida. Dentro dele, escolho os 7 milhões de anos de história dos hominídeos, família da qual fazemos parte. Mas faço um recorte menor. Fico com a idade do gênero Homo, o nosso gênero, cuja origem está datada até o momento em 2.200 milhões de anos. Afunilando mais ainda meu foco, seleciono os 200 mil anos do Homo sapiens, a nossa espécie. Indo mais adiante no recorte, enfoco os 11 mil anos que chegam até hoje, com o nome de época do Holoceno. Dentro dele, restrinjo-me à civilização ocidental e, nela, distingo o século XV, o século eixo da história econômica, social, política, cultural e cósmica do mundo.
Assim comecei minha palestra num simpósio de ciência política e de sociologia em São Paulo, em 2016. Concluída, a primeira pergunta a mim dirigida foi se realmente eu falava de política e não de ciência. Claro que falo de política, no mínimo de política ambiental. No máximo, de ciência política. O pensamento político do ocidente foi excluindo a natureza de suas reflexões desde Maquiavel. Neste autor, a natureza é apenas uma metáfora. Hobbes não a inclui no grande contrato social. A violência de humanos contra humanos torna-se um monopólio do Estado, mas a violência contra a natureza continua sendo um direito individual. Por sua vez, Rousseau abandona a natureza com melancolia no seu contrato social. Marx e Engels reconhecem a presença da natureza no início de seu pensamento, mas a afastam aos poucos e a excluem. O mesmo sucede com Keynes. Não sem razão, Michel Serres levanta a necessidade de um contrato da humanidade com a natureza. Sem ele, a natureza certamente abalará a humanidade intensamente.
Por que escolher um tempo tão longo para analisar o Brasil e o mundo atual, foi outra pergunta. Resposta: aprendi com Braudel e Toynbee que não se explica o presente sem uma profunda perspectiva temporal. Eu falava de tendências estruturais, não de conjunturas e acontecimentos. Para sociólogos e cientistas políticos, o início da globalização costuma ser situado no fim da União Soviética, em 1991. Na minha ótica, ela começou no século XV e prossegue até os dias atuais, prometendo, por uma ação inercial, continuar por muito tempo mais. Na verdade, a experiência socialista em qualquer país não representa um rompimento com a Modernidade, com a globalização, mas outra via para levá-las adiante. Capitalismo e socialismo são duas faces da mesma moeda, a globalização. Podemos até falar em fases da Modernidade, como fez o recém falecido Zygmunt Bauman em denominar a fase atual como modernidade líquida. Creio até que caminhamos para uma modernidade gasosa.
Perguntaram-me por que a escolha do ocidente e não de outra ou outras civilizações. Porque o processo de expansão do capitalismo pelo mundo começou no ocidente, no século XV, acelerando-se no século XVIII, com a revolução industrial e com o imperialismo. Atualmente, ela se alastra com as relações de comércio e com a cibernética.
Se eu não valorizo os marcos que mencionei no início da palestra? Não é bem uma pergunta esperada de cientistas políticos e de sociólogos. É claro que valorizo. Estudo muito cosmologia, geologia, paleontologia, biologia e história. No máximo, eu poderia levantar a questão de que a constituição da família dos hominídeos e do Homo sapiens já traz um risco embutido: o de desenvolver cultura. A maioria das culturas é suportada bem pela capacidade de resiliência da Terra, mas a cultura ocidental chegou ao ponto de afetar o planeta. Para compreender o momento atual, é preciso recuar às origens do Universo e ao fim dele, embora a humanidade já tenha saído da história quando a Terra morrer. Estabeleço marcos extremos, mas estou preocupado com o momento atual.
Se o século XV assistiu a alguma inovação boa em minha opinião? Trata-se de um século-chave na história da humanidade. Na época atual, com cerca de 11.800 anos, algumas sociedades que viviam da coleta, da pesca e da caça, dominaram a agricultura e a criação de animais. Delas, formaram-se sociedades urbanas, que desenvolveram pequena atividade comercial com acumulação de capital da esfera da circulação. Entre elas, a ocidental, que empregou capital acumulado pelo comércio na esfera da produção. As Cruzadas foram uma tentativa do ocidente em conquistar áreas fornecedoras de matéria prima e produtos, tanto como mercados consumidores. Não deu certo. A expansão marítima do século XV foi a abertura da produção ocidental para outros continentes. Começa então o processo de ocidentalização do mundo, hoje denominado globalização.
No século XV, formaram-se também os Estados nacionais europeus, que acabaram sendo exportados para o mundo, primeiro por imposição, depois assumidos pelas sociedades coloniais, mas ainda ligados de alguma forma ao mundo ocidental. Ainda mais, os conflitos religiosos que desembocaram no grande cisma do ocidente, em 1517, avolumaram-se no século XV. Nenhum desses aspectos me atrai muito. O que me agrada muito é a arte renascentista, que alcançou seu momento de esplendor no século XV.
Sobre a Revolução Industrial, ela não surgiu do nada. No meu entendimento, ela foi promovida pelo capitalismo ocidental para aumentar a produção que atendesse a um mercado já ocidentalizado.
Sobre as perspectivas para o futuro? Vejo que a civilização ocidental globalizada gerou a primeira crise antrópica da história da Terra. Antes, ocorreram crises naturais globais e crises antrópicas locais. Pela primeira vez, enfrentamos uma crise ambiental antrópica e global. São doze seus sintomas principais, que não cabe discutir agora. Ou a humanidade encontra fórmulas para controlá-la ou ela nos engolirá. Temos cerca de um século para acelerá-la ou freá-la. Se tudo começou no século XV, no ocidente, tudo deve acabar no século XXI globalizado. De forma boa ou de forma ruim.
Compartilhe
Eu, Eike B, 61 anos, corruptor e foragido
28/01/2017 | 19h47
Eu, Eike B, 61 anos, corruptor e foragido
Arthur Soffiati
Atenção, restinga e pequenos produtores do Açu, vocês foram vendidos por Eike Batista por 16 milhões e 500 mil dólares no mínimo. Quem os vendeu foi Sérgio Cabral. Desde os tempos do governador Garotinho, na década de 1990, venho advertindo que a desapropriação de terras no Açu para instalar um complexo portuário sobraria para vocês. Ninguém me ouviu. Nem vocês, produtores. Todos acreditavam no “progresso”. Vocês só começaram a perceber que eu tinha razão quando Sérgio Cabral colocou a CODIN a serviço de Eike para roubar suas terras.
Ninguém se preocupou com Eike B. enquanto ele arranhava a costa como um caranguejo. Desprovidos de preocupação ambiental, vocês pensaram que só a vegetação, os animais e o solo da restinga seriam afetados. Ele acabou chegando até vocês. Parece que D. Noêmia foi a única que resistiu bravamente.
Ninguém forma uma grande fortuna do dia para a noite sem informações privilegiadas e sem ajuda governamental. Uma mão lava a outra. Eike molhou a mão de Sérgio Cabral e este molhou a de Eike B com vantagens no valor de 80 milhões de reais. E não apenas Cabral. Dilma visitou o porto junto com membros do PT local e regional, que se acotovelaram para fazer selfies com ela e com Eike. Lula visitou o porto secretamente mas foi descoberto. Ele queria roubar dinheiro do Espírito Santo para o Açu. Não deu certo.
Ninguém consegue tanta vantagem sem ajuda governamental. Cabral facilitou tudo para Eike B, 61 anos, corruptor e foragido da Justiça. Dilma declarou que ele era um modelo de empresário para o Brasil. Eike B. vendeu vento empacotado. O vento começou a escoar dos pacotes. Se futucarem bem, vão descobrir que o INEA está envolvido. Pessoas locais estão envolvidas. Elas vão aparecer. A empresa que comprou o complexo do Açu comprou um produto roubado. Quem intercepta mercadoria roubada é também criminoso. Esperem e verão. As investigações vão dar em nada ou muita gente ainda será desmascarada. Não dá para roubar tanto sozinho. É preciso a ajuda de comparsas.
Compartilhe
Mulheres ficcionistas em 2016
28/01/2017 | 19h44
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 27 de janeiro de 2017
Mulheres ficcionistas em 2016
Arthur Soffiati
Em 2016, mais uma vez destacou-se Elvira Vigna com seu romance “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas” (São Paulo: Companhia das Letras). Conta, na autora, a postura ácida diante da vida e sua peculiar forma de narrar. Seu estilo circular é uma forte marca. Na sua inteireza, a história aborda as recordações de uma mulher meio masculinizada, talvez ela mesma, sobre um colega de trabalho viciado em sexo com prostitutas. Ele era casado mas não conseguia evitar as mulheres. Cada uma delas parecia ser a mesma, como um palimpsesto raspado várias vezes para ser reescrito. Assim eram os pergaminhos da antiguidade. Cada puta parecia a mesma puta em qualquer lugar. Mas em Vigna nada é linear. A integridade da narrativa é cortada em partes, dispersas como peças de um quebra-cabeças dispostas em capítulos que não seguem uma narrativa linear. Pelo contrário, o tempo-espaço está fragmentado e espalhado. Cabe ao leitor montar o todo. No final, como costuma acontecer nos romances de Vigna, há um desfecho cruel.
Beatriz Bracher foi elogiada pela crítica e premiada por “Anatomia do paraíso” (São Paulo: Editora 34). Anoto que, apesar da crítica favorável, ela teve dificuldades em construir os personagens. É quase um triângulo amoroso entre Félix, Vanda e Maria Joana. Félix veio de Minas Gerais para o Rio de Janeiro com o fim de fazer mestrado sobre o poeta inglês Milton. Ele é branquela, epilético e bissexual. É grande seu conhecimento de Milton para um rapaz de 24 anos que nunca tem contato com seu orientador e sua universidade. Seu computador não funciona há muito tempo. Escreve à mão. Vive da leitura do “Paraíso perdido” numa tradução para o português do século XIX e no original. Desconhece outras traduções e os comentadores do autor.
Vanda, uma das mulheres de sua vida, talvez a principal, é negra, de origem pobre, trabalha no Instituto Médico Legal e numa academia. No entanto, é capaz de reflexões psicológicas avançadas para qualquer pessoa da sua condição social e da sua escolaridade. É ateia. Está grávida, provavelmente de Félix, mas não revela quem é o pai da criança. Sua grande força está em assumir a filha sozinha e lutar para ser médica. Sua irmã, Maria Joana, é uma adolescente, filha de outro pai com a mesma mãe. É inteligente e propensa à cultura, pois se apaixona por Félix e por Milton. Poder-se-ia admitir que seu interesse por Milton é superficial e se explica pela paixão adolescente por Félix.
O triângulo amoroso é perturbado por outros personagens. Oneida, já madura, é dona da lanchonete frequentada por Félix, que mora sozinho num pequeno apartamento em Copacabana. Nildo é um tenente do Exército, com quem Félix tem relações sexuais, mas que logo é dispensado do romance e mandado para o Haiti. Bianca, uma faxineira adolescente que também mantém relações sexuais com Félix, só aparece uma vez.
O romance transcorre no Rio de Janeiro ao longo de quatro estações, o que parece postiço numa cidade em que só se identificam calor e menos calor. A linguagem é comportada. Verbos no pretérito mais que perfeito, quando podem ser usados em outro tempo. Relaciona ao final as citações dispersas ao longo do livro, inclusive com bibliografia.
Félix anda a esmo pelo bairro, presenciando cenas de pedofilia e excitando-se sexualmente a ponto de se masturbar. Assiste a um idoso sofrendo abuso sexual e nada faz. Na verdade, Milton está presente do princípio ao fim com sua poesia. Parece que a paixão é da autora e não de Félix. Milton parece ser o grande personagem.
Depois de “Quarenta dias” (Rio de Janeiro: Objetiva, 2014), a freira escritora Maria Valéria Rezende, volta com “Outros cantos” (Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016). Como em seu livro anterior, ela cria um personagem, certamente ela mesma, fora e dentro do lugar. A consagrada autora parte de um bom tema. Quarenta anos depois, ela volta a Olho d’Água, lugarejo em que iniciou sua vida de professora pelo Mobral. A personagem Maria viaja de leste para oeste. Ela saiu do lugarejo por razões políticas durante a vigência da ditadura militar. Viajou ao México e ao Saara na Argélia, lugares que lhe servirão de referências nas suas comparações com o sertão nordestino. Quarenta anos remete ao título do romance “Quarenta dias” e a um número bíblico, ligando a autora a sua condição de freira.
O romance avança em cortes. Um capítulo narra a viagem com suas paradas e andanças num ônibus em direção a Olho d’Água. O capítulo seguinte aborda suas lembranças do lugarejo. “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar” As casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d’Água?”, pergunta-se durante a viagem.
Maria Valéria mostra, ao longo do romance, a tensão entre passado e presente, entre o antigo e o moderno, como Ronaldo Correia de Brito. A integridade do sertão, mesmo com suas perversidades, foi estilhaçada. Essas perversidades eram a condição feminina, com maridos tendo o direito de espancar as esposas sem nenhuma interferência externa, e a autoflagelação coletiva de homens por motivos religiosos. Maria se sentia na Idade Média. Era uma citadina extraviada no sertão. Mas ela não relata como é o novo sertão, como faz Correia de Brito. Ela não chega ao lugarejo de seu passado, que está na sua memória. O novo está na sua imaginação. Talvez seja uma técnica ficcional: deixar o lugar em suspenso para o leitor.
Os contos que Adriana Lisboa reúne em “O sucesso” (Rio de Janeiro: Alfaguara) toma o título de um conto para título do livro. O conjunto me deu a incômoda impressão de que certos autores têm de publicar ao menos um livro por ano, assim como compositores e cantores devem lançar um novo disco anualmente, para estar em voga. São nove contos ao todo, vários já publicados separadamente, outros inéditos. O primeiro deles “O enforcado” parece novela de TV. O pai se apaixona pela filha sem saber. No final, a filha lhe faz a revelação. “Circo Rubião” é, sem duvida, uma homenagem a Murilo Rubião, mas, nos esclarecimentos, nenhuma referência é feita ao contista mineiro. Salva-se o conto “O escritor, sua mulher e o gato”, homenagem ao intelectual francês André Gorz e sua mulher Dorine. No mais, são contos frouxos.
Tentei ler semanalmente as crônicas de Tati Bernardi na Folha de São Paulo. Concluí logo que ela tem um único personagem: ela mesma. O que está no centro de suas crônicas e do seu primeiro romance é ela, suas doenças, seus remédios, suas fobias, seus toques, o mundo ao seu mais próximo redor. Seu primeiro romance, “Depois a louca sou eu” (São Paulo: Companhia das Letras, 2016), é, sem dúvida, autobiografia de uma pessoa fútil. A pretexto de ser autêntica, ela vomita (na vida real, adora escatologia). Creio até que os capítulos do livro são crônicas suas expandidas. Em raros momentos, ela consegue sair dos seus problemas para observar o mundo a sua volta. Dir-se-á que muitos autores partiram de si para escrever. O caso mais célebre que me ocorre agora é Proust. Mas convenhamos, Proust parte de uma xícara de chá com madeleine para descobrir um fabuloso mundo esquecido. Ao fim da leitura de Bernardi, tem-se a sensação de que ela escreveu seu primeiro e último romance, já que parece não conseguir construir um personagem que não seja ela mesma.
Compartilhe
A PRESERVAÇÃO DO FOLCLORE NORTE-FLUMINENSE
28/01/2017 | 19h41
FUI MEMBRO DO CONSELHO MUNICIPAL DE CAMPOS NOS LONGÍNQUOS ANOS DE 1979-80. VOCÊS JÁ ERAM NASCIDOS? RAUL LINHARES ERA O PREFEITO. NÃO HAVIA FUNDAÇÃO CULTURAL. A CULTURA FICAVA A CARGO DO DEPARTAMENTO DE DIFUSÃO CULTURAL, DIRIGIDO PELO SAUDOSO PRATA TAVARES. A GENTE TRABALHAVA MUITO. RENATO MARION DE AQUINO, PRESIDENTE DO CONSELHO, PEDIU-ME QUE DELINEASSE A POLÍTICA MUNICIPAL DE FOLCLORE, HOJE PALAVRA SUBSTITUÍDA POR CULTURA POPULAR. NO MEU TEXTO, AVANCEI PARA A REGIÃO E ANTECIPEI A PROTEÇÃO DA CULTURA IMATERIAL, O QUE SÓ ACONTECERIA COM UMA LEI FEDERAL DE 2000. ACABEI ME DESLIGANDO DO CONSELHO POR DESENTENDIMENTOS COM O PREFEITO, COMO ACONTECEU COMIGO E COM ZEZÉ EM 1988. SEMPRE QUIS TRABALHAR E NÃO ME DEIXARAM. AÍ VAI O QUE ESCREVI NA ÉPOCA. TAMBÉM NÃO DEU EM NADA. E AÍ DIZEM QUE DEVO CONTINUAR LUTANDO.
A PRESERVAÇÃO DO FOLCLORE NORTE-FLUMINENSE
Incumbido pelo Presidente do Conselho Municipal de Cultura, Dr. Renato Marion de Aquino, de elaborar um projeto para a defesa e a promoção do folclore da região norte-fluminense, apresento as sugestões a seguir para discussão em plenário.
1- Instituir um concurso anual de monografias sobre Folclore a fim de promover a pesquisa folclórica na região norte-fluminense. Este concurso deverá ser intitulado: “An’Augusta Rodrigues”, em homenagem à saudosa folclorista. Para sua instituição, torna-se necessário que o Conselho elabore a sua regulamentação (vide anexo a este documento). Para cumprir sua finalidade, o concursos deverá aceitar apenas pesquisas de temas de folclore norte-fluminense.
2- Cadastrar os grupos folclóricos e os artesãos de Campos dos Goytacazes e da região norte-fluminense, a fim de fornecer sobre eles informações mais precisas aos interessados. Esta tarefa exige especial atenção para que não sejam confundidas manifestações populares autênticas com pseudomanifestações, elaboradas por elementos não ligados às classes populares. Esse perigo, em Campos, é enorme, pois as verdadeiras obras de artesanato popular vêm sendo ofuscadas por máscaras de barro de diversas procedências e por reproduções pictóricas de artistas célebres, que tentam nos impor seus trabalhos como manifestações populares genuínas.
3- Elaborar um calendário folclórico da região norte-fluminense ou de Campos. Para a realização deste item e do anterior, a Secretaria Municipal de Educação e Cultura deverá designar as respectivas comissões. Diga-se que ambos são básicos e indispensáveis à viabilidade de qualquer projeto que vise conhecer melhor o Folclore da região.
4- Organizar uma programação para a Semana do Folclore, incluindo a apresentação de grupos folclóricos da região, palestras, conferências, debates, mesas redondas etc. Nesta ocasião, seriam entregues os prêmios aos vencedores do concurso “An'Augusta Rodrigues”.
5- Encaminhar, até junho de 1979, um projeto à Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro apresentando sugestões que possam contar com o apoio técnico e financeiro desse órgão governamental. A esse respeito, ver o anexo 2 deste documento.
Anexo:
Projeto do Conselho Municipal de Cultura de Campos para a defesa do folclore da região norte-fluminense
O norte-fluminense, onde se situa o município de Campos, constitui-se numa região geológica, econômica e cultural com contornos bem definidos e típicos no conjunto do Estado do Rio de Janeiro. Tendo se formado no Período Quaternário por ação do rio Paraíba do Sul, que carreou e depositou sedimentos junto ao litoral, a região norte-fluminense apresenta-se sob a forma de uma extensa e fértil planície. Povoada inicialmente pelos índios goitacá, a região foi ocupada por colonos a partir do século XVII, que desenvolveram em suas terras as atividades pastoril e da agroindústria açucareira, características de sua economia até hoje. Em torno destas atividades econômicas, desenvolveu-se uma rica cultura popular, da qual se sobressaem manifestações como a Mana-Chica, o Jongo, o Boi Pintadinho, as Folias de Reis, a Cavalhada, a Literatura Oral, o artesanato, o linguajar, a doçaria etc. Face à pressão dos modernos meios de comunicações e de transporte, às relações intensas com centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, e à relativa modernização das forças produtivas, todo este conjunto de manifestações folclóricas, vinculado a um universo francamente rural, está agora ameaçado de desaparecer ou de tornar-se irreversivelmente mutilado, como, de resto, vem acontecendo em todo o Brasil.
Preocupado com a precária situação em que se encontra o folclore da região norte-fluminense, o Conselho Municipal de Cultura de Campos, desde sua posse, voltou para ele suas atenções. Primeiro, instituiu um concurso intitulado: “An'Augusta Rodrigues”, em homenagem à saudosa folclorista que viveu por muito tempo em Campos e se inspirou na região para redigir seus trabalhos com a finalidade de estimular a pesquisa de temas folclóricos regionais e revelar novos pesquisadores. Assim, o Conselho procura, de alguma forma, suprir a lacuna deixada pela morte da insubstituível An'Augusta Rodrigues. Atualmente, o Conselho está empenhado em cadastrar os grupos folclóricos da região e em elaborar um calendário folclórico. Interessado em levar adiante o trabalho de preservação da cultura popular norte-fluminense, o Conselho Municipal de Cultura de Campos considerou de bom alvitre encaminhar à Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro o presente projeto, em que propôs:
1- A edição das obras completas de An'Augusta Rodrigues. A fim de homenagear a memória da grande folclorista e de colocar à disposição dos interessados os seus escritos sobre folclore, o Conselho Municipal de Cultura da Campos tenciona promover a edição sistemática e anotada das obras completas de An'Augusta Rodrigues. Neste sentido, o Conselho deseja saber em que medida a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro poderia contribuir.
2- A promoção de cursos de folclore ministrados por especialistas da Campanha com a finalidade de estimular novas vocações e de fornecer aos interessados um instrumental mínimo para realizar pesquisas bibliográficas e/ou de campo.
3- O esforço na preservação das manifestações folclóricas da região em apreço. Quanto a este ponto, os membros do Conselho têm perfeita consciência do perigo que representa a interferência nas manifestações folclóricas no sentido de cristalizá-las ou de transformá-las. A concepção de que folclore são as sobrevivências culturais não mais se sustenta. É ponto pacífico atualmente que as manifestações folclóricas são dinâmicas e se adaptam a condições novas. Todavia, a decisão de adaptar ou de imobilizar as manifestações folclóricas cabe, consciente ou inconscientemente, aos portadores de folclore, ou seja, àqueles elementos do povo que vivem com mais intensidade e fato folclórico, e nunca às autoridades ou aos estudiosos. Estes, quando muito, só podem propiciar condições favoráveis para a existência da cultura popular. Em vista dessa delicada questão é que o Conselho, em vez de tomar qualquer medida precipitada, se dirige à Campanha a fim de buscar orientação técnica. Como evitar que as manifestações folclóricas se degeneram em contato com a cultura de massa, veiculada pelos poderosos meios de comunicação, e com as influências modernizantes? É realmente imprescindível a preservação das manifestações folclóricas? Ou sua transformação e desaparecimento, na forma como são apresentadas, são inevitáveis? São perguntas que o Conselho gostaria de ver respondidas.
4- O registro da parte sonora das manifestações folclóricas da região norte-fluminense em disco ou fita magnética a ser incluído na coleção de compacto da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro. Certamente, caberia aos técnicos da Campanha a seleção das amostras a serem registradas. Da mesma forma, seria interessante o registro das manifestações em filmes. O Conselho Municipal de Cultura considera esta tarefa prioritária, em virtude do processo de degradação por que vêm passando as manifestações folclóricas da região. Na ordem de prioridades, viria a seguir o item 1; depois o item 2 e finalmente o item 3.
Campos, 1979
Compartilhe
A evolução das princesas
24/01/2017 | 10h15
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 24 de janeiro de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
A evolução das princesas
Moana – um mar de aventuras
Edgar Vianna de Andrade
“Branca de Neve” foi a primeira animação longa de Walt Disney. Data de 1937. Ela inaugurou a primeira fase das princesas, sempre inspiradas nos contos de fada de autores românticos, como os irmãos Grimm, Charles Perrault e Andersen. Neles, sempre há uma linda princesa amada pelos pais, mas detestada pela madrasta e perseguida por bruxas. O sonho delas é casar-se com um príncipe encantado e viverem felizes para sempre.
A Disney deu continuidade a esse modelo de princesa com “Cinderela”, “Bela Adormecida”, “A pequena sereia”, “A bela e a fera”. Neste último, a princesa já começa a adquirir mais vida própria, gostando de leitura, mas acaba vivendo um grande amor com a fera retornando à condição de príncipe. Claro que se procurava fidelidade em relação aos autores românticos, que retiraram desses contos o caráter violento e erótico. Mesmo com essa fidelidade, as animações retratavam a época em que foram produzidas.
Mais recentemente, as princesas ganharam corpo feminino até mesmo voluptuoso e expressam a mulher emancipada pela revolução sexual. Rapunzel procura a sua história e se casa com um ladrão regenerado. Tiana, em “A princesa e o sapo”, é negra e sonha em ter seu próprio restaurante. No final, ela realiza seu sonho e se casa com um príncipe negro playboy. Mulan luta ao lado de homens. Pocahontas defende seu povo e se casa com um inglês.
Desse modelo, destoa Merida, de “Valente”, que não aceita as normas do seu tempo e se recusa a casar. Agora também “Moana”, uma princesa polinésia que, contrariando ordens do pai, sai à procura de um talismã para salvar seu povo, sem a intenção de encontrar um marido.
Um traço interessante das animações mais recentes da Disney é valorizar tradições distintas da ocidental, mas de também promover com elas uma pasteurização, ao traduzir cada cultura nos termos da nossa. Talvez seja uma tentativa de tornar as animações palatáveis nos Estados Unidos e na China, já que vivemos num mundo globalizado, queira Trump ou não.
Tecnicamente, as animações da Disney também se tornaram pouco criativas. Mudam as culturas e os personagens, mas a maneira de desenhar é sempre a mesma, sobretudo quando computadorizadas. Atualmente, quase todas o são. Houve ganhos e perdas com a computadorização. O desenho artesanal permitia voos altos, como bem mostram as animações de Hayao Miyazaki. A computação tende a padronizar. Em “Moara”, dirigido por John Musker, o diretor parece dispensável. A propaganda levou-nos a crer que haveria um salto em termos de inovação. Digno de registro, creio que apenas as tatuagens animadas no corpo de Maui, semideus polinésio.
Compartilhe
O manguezal do rio Paraíba do Sul em Atafona
23/01/2017 | 11h49
O manguezal do rio Paraíba do Sul em Atafona
Arthur Soffiati
Para quem não conhece a foz do rio Paraíba do Sul, ela desemboca no mar por dois braços. O mais largo fica entre a ilha da Convivência e Atafona. A ilha da Convivência, na margem esquerda do canal, foi habitada e se tornou famosa. Hoje
, considerada uma área de risco, é proibido residir nela. Restou apenas uma casa vazia, ocupada ocasionalmente por pescadores temporariamente. No passado, ela contava com habitantes de olhos claros, que praticavam o casamento por sequestro. Seu valor etnológico era muito grande, ao lado da ilha do Pessanha, também na foz do rio.
 
 
Arthur Soffiati
ilha da Convivência / Arthur Soffiati
 
Ilha da Convivência
Na margem direita do canal principal, ergueu-se a vila de Atafona, considerada por alguns a povoação mais antiga do norte fluminense. Alguns historiadores dizem que ela foi fundada em 1622, pelo pescador Lourenço do Espírito Santo, que trouxe companheiros seus de Cabo Frio. A documentação levantada ainda é insuficiente para creditar a Lourenço o pioneirismo na colonização da região.
Atafona tem merecido a atenção da imprensa local e nacional pelo forte processo de erosão costeira que a ameaça. Mar e areia avançam sobre a orla da vila, tendo engolido já enorme área e formado largas e altas dunas. A foz do Paraíba do Sul é um local de construção-destruição costeira. O mar produz nela grande movimentação de areia. Tanto as ilhas da Convivência e do Pessanha quanto o pontal de Atafona se ligam, se separam, crescem e diminuem. Muitas casas foram destruídas pelo avanço do mar e estão sendo soterradas pelo avanço das dunas.
Dunas interrompendo rua e avançando para residência
Suspeita-se que o fenômeno natural de erosão tenha sido agravado pela redução da vazão do rio na foz devido às intervenções feitas na sua bacia, como o desmatamento, as barragens, a construção de um guia-corrente no canal e, sobretudo, pela transposição de quase 2/3 de suas águas para o rio Guandu, com o fim de abastecer a cidade do Rio de Janeiro.
Como todo rio que desemboca no mar, o encontro da água doce com a água salgada forma o que se conhece por estuário, parte do rio e do mar em que a água não é doce nem salgada, mas salobra, ou seja, com salinidade reduzida. Os estuários tropicais constituem um ecossistema bastante favorável ao desenvolvimento, outro ecossistema em que plantas adaptadas a um teor elevado de salinidade podem se desenvolver: o manguezal, ambiente em que predominam espécies vegetais adaptadas a condições bastante peculiares. As sementes (propágulos) dessas espécies de plantas vêm flutuando até encontrarem ambiente propício para germinarem, enraizarem-se, crescerem e formarem bosques produtores de alimentos para a vida aquática, semiaquática e semiterrestre. Além do mais, os manguezais criam ambientes propícios para a reprodução de animais de água doce e salgada, protegendo também a costa de erosão marinha, fluvial e eólica.
As espécies de mangue se adaptam a um ambiente hostil a outras espécies. A maioria das plantas não sobrevive em locais com salinidade elevada e substrato pobre em oxigênio. As espécies de mangue desenvolveram sistemas para se oxigenar, para barrar o sal, para dissolvê-lo no seu interior ou para expeli-lo. Normalmente, as raízes das plantas dirigem-se para o fundo da terra com o fim de obter nutrientes. Em várias espécies de mangue, ao lado dessas raízes, existem aquelas que buscam a superfície do substrato, como se fossem respiradouros. Elas vêm buscar oxigênio e são denominadas de pneumatóforos. Nelas, há pequenas glândulas chamadas lenticelas, por onde entra o ar. Quando a maré sobe e afoga essas raízes, as glândulas se fecham. Quando a maré baixa, elas se abrem.
As espécies de mangue são oportunistas, resilientes e adaptáveis. Encontrando condições mínimas e até hostis, sementes de mangue podem germinar e se desenvolver. Já encontrei plantas de manguezal em praias violentas e muito salgadas, como na praia da Foca, Região fluminense dos Lagos, no interior de lagoas hipersalinas, como a de Araruama, no topo de costões rochosos, como em Rio das Ostras e em locais com predominância de água doce, como em Pontal Sul, baía de Paranaguá.
Pequeno manguezal de praia da Foca, Búzios, RJ
Manguezal de Ogiva, na hipersalina lagoa de Araruama
 
População de mangue branco em costão rochoso de Rio das Ostras, RJ
Exemplar de mangue em Pontal Sul, baía de Paranaguá
 
As plantas de manguezal também revelam incrível resiliência, ou seja, capacidade de recuperar suas condições normais depois de eventos adversos, como derramamentos de óleo. Sua capacidade de adaptação também é notável. Se as condições ambientais mudam, mas não a ponto de se tornarem extremamente hostis às plantas de manguezal, estas desenvolvem sistemas de adaptação, como raízes aéreas que saem dos troncos acima do nível da água, quando ele se estabiliza, sem mais sofrer as oscilações das marés. As plantas não vivem mais em condições normais. Contudo, resistem às condições anômalas.
Adaptação de exemplares de mangue branco à estabilização da lâmina d’água em Buena, São Francisco de Itabapoana, RJ
 
Mas pra tudo há limite. Se as condições se tornam hostis, ultrapassando em muito as condições normais ou subnormais, as plantas morrem. Para algumas espécies, o segredo da sobrevivência está nos pés, não na cabeça. Existem três espécies de mangue na foz do Paraíba do Sul: o vermelho, o preto (siribeira) e o branco. O vermelho é aquele cujo caule se ramifica e adquire uma forma de aranha. É o mais conhecido pelo leigo. Essa espécie não tem raízes respiratórias. As lenticelas estão nas ramificações do caule. Portanto mais protegidas de lâminas d’água estabilizadas e de soterramento. Os mangues preto e branco, contudo, são vulneráveis a longos períodos de afogamento e soterramento.
É o que está acontecendo no Pontal de Atafona. Os mangues preto e branco conseguem resistir às ressacas, mas não ao avanço de areia e à formação de dunas. As ressacas provocam o avanço do mar, mas por pouco tempo. As dunas soterram a rizosfera aérea, ou seja, o conjunto de raízes respiratórias. Sem poder respirar, as plantas morrem.
População de mangue preto em Atafona, morta por soterramento das raízes respiratórias
Exemplares mortos de mangue branco pelo avanço recente (2016-17) de dunas, no Pontal de Atafona
 
A erosão costeira já matou um bosque de mangue preto anos atrás. Agora, ela está encurtando o Pontal, aumentando a ilha Convivência e formando dunas na parte interna da foz no canal principal.
Dunas na parte interior da praia de Atafona, penetrando na margem direita do Paraíba do Sul
 
Mas o manguezal é mais sábio que as pessoas. Os moradores de Atafona que estão perdendo suas casas pelo avanço do mar e da areia gritam muito. Elas querem o engordamento da praia para afastar o mar e as dunas. Isso exige obras muito caras que se tornam proibitivas para os governos municipal, estadual e federal em meio a uma crise econômica excruciante. Querem também que a prefeitura aplaine as dunas, devolvendo areia para o mar, de modo que a ameaça sobre suas casas cesse, que a paisagem seja restaurada. O volume de areia parece ser muito grande para a operação de máquinas. Além do mais, a solução é paliativa. Já foi adotada no passado. A areia retornou e formou dunas novamente.
 
Raízes respiratórias sob areia, Atafona, São João da Barra, RJ
 
A fração do manguezal na margem direita do rio não é tão extensa quanto na margem esquerda. Ela tende a sucumbir. Até mesmo numa ilha, ele parece ter sofrido algum impacto. No entanto, sem choro nem vela, as sementes de espécies de mangue continuam navegando à procura de locais apropriados. Uma área é perdida, mas outro porto é encontrado.
Impacto sobre manguezal em ilha da foz do Paraíba do Sul
Compartilhe
Sobre o autor

Aristides Soffiati

[email protected]