A grande mentira
01/03/2017 | 10h40
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 01 de março de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
A grande mentira
(A GRANDE MURALHA)
Edgar Vianna de Andrade
 
Esqueça tudo que você aprendeu na escola sobre a Muralha da China, se é que aprendeu e se é que já não esqueceu. Ela não foi construída entre os séculos III a. C. e XV d.C. para deter povos nômades do norte ou para empregar desocupados.
Pesquisas arqueológicas mais recentes descobriram que a grande muralha, única obra humana que pode ser vista do espaço, foi erguida para conter monstros inteligentes que atacavam o império chinês de 60 em 60 anos. Eles eram quadrúpedes e muito ferozes, mas tinham um comportamento semelhante ao das formigas e abelhas: viviam em função de uma rainha, sempre protegida e alimentada por eles.
Na iminência de um novo ataque das feras, um grupo de aventureiros e mercenários ocidentais chega à China em busca de pólvora para ganhar dinheiro. A exemplo de Marco Polo, eles são comerciantes também. Seus líderes são William Garin (Matt Damon) e Pero Tovar (Pedro Pascal). A Europa ainda não havia iniciado a expansão marítima para saquear o mundo, mas a economia de mercado já plasmava o protótipo do negociante sem princípios.
Antes de serem presos, os aventureiros são atacados por sombras estranhas. Todos morrem, mas William e Tovar escapam depois de cortarem a mão de uma fera atacante. Eles não sabem de que se trata, mas aprisionados pelos chineses em pé de guerra, passam a saber. Os exércitos da China Imperial estão preparados para uma nova investida dos monstros. As mulheres também são combatentes. Uma delas é Lin Mei (Jing Tian), bela chinesa que acaba por se tornar a comandante em chefe com a morte do grande general comandante.
Os dois mercenários não sabem falar chinês, mas Lin Mei e outro militar sabem. Como aprenderam? Com Ballard (Willem Defoe), outro espertalhão ocidental, também atrás do pó preto, capturado 25 anos antes. Os chineses dominam fisicamente os ocidentais, mas estes mostram a que vieram. A língua inglesa já é conhecida no extremo oriente, os mercenários sabem usar arco e flecha e outras armas brancas como ninguém. São inteligentes e bons estrategistas. Logo, assumem o controle da situação e ajudam a repelir o ataque dos monstros.
Numa pequena passagem, William e Mei revelam suas diferenças culturais. Ela é regida por princípios éticos. Sua luta visa defender o império e o imperador. A lutadora tem honra. William já lutou como mercenário em várias guerras no ocidente. Ele luta por dinheiro. A Europa já começa a produzir oportunistas como Cortez e Pizarro mais tarde. A China ainda é regida por valores éticos. Foi o melhor momento, em minha opinião. No fim, William se converte à honradez. Só faltou mesmo uma paixão e um beijo hollywoodianos, mas vamos com calma. Não me levem em conta. Sou historiador.
A direção é de Zhang Yimou, cineasta já celebrizado por outros filmes sobre temas chineses. Ang Lee, outro cineasta chinês, já se rendeu ao cinema ocidental. No fundo, o ato de adotar a tecnologia do cinema revela que o oriente se ocidentalizou. No entanto, os cineastas chineses rodavam filmes sobre assuntos chineses. Afinal, Bollywood, nome que mistura Bombaim e Hollywood, é um poderoso centro de produção cinematográfica cujos filmes se voltam para um público indiano.
Afinal, o que pretende Yimou com este filme caríssimo, talvez o mais caro da história? Saí do cinema com a impressão de que a China não se contenta em conquistar o ocidente com seus filmes. A mistura de temas chineses, ocidentais e de ficção científica pretende ir mais longe. Lançar a China verdadeiramente como grande potência cinematográfica.
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O último socialista
01/03/2017 | 10h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 26 de fevereiro de 2017
O último socialista
Arthur Soffiati
 
Não acredito que, em pleno ano de 2053, alguém desenterre Hobbes, ainda mais um jovem como você. Esse cara era inglês e viveu em que século mesmo? Século XVII? Foi aquele que disse que o homem é mau por natureza e que, para conter a guerra de todos contra todos, homens e mulheres formularam um contrato social transferindo a violência para o Estado? Ele fala sobre a origem do Estado, não é? Ele só acertou quanto à violência humana. Não precisamos mais de Estado. Se ele existe, é só por uma convenção. Hoje, grandes empresas de administração governam o que restou dos países. Se ainda existem eleições, é só para dar ao povo uma ilusão. Entram e saem presidentes e parlamentares, morrem e são escolhidos juízes, mas as empresas administradoras permanecem. Elas é que garantes a continuidade.
Estado de Bem Estar? O que é isso? Nós, liberais, promovemos tudo o que vocês, socialistas remanescentes, pleitearam. Vocês não defendiam direito ao aborto, a descriminalização de drogas, o direito de orientação sexual, de igualdade entre homens e mulheres, entre brancos e outras raças? Pois é, hoje o aborto está legalizado. Existem clínicas e médicos especializados, os abortistas, assim como os cardiologistas. As drogas estão liberadas, da mais branda a mais pesada. Hoje, a pessoa pode ser o que quiser. Homo, hétero, trans, tudo. Gerando dinheiro, tudo é permitido.
O liberalismo finalmente triunfou. Aquele descendente de japa, qual era o nome dele? Isso. Francis Fukuyama. Ele devia proclamar o fim da história hoje. Tudo está privatizado. O Estado é apenas um simulacro. Atendemos também aos pós-modernos. Michel Foucault, se não me engano, também defendia o liberalismo anarquista no fim da vida. Gente boa. Forças armadas e polícias são empregados de empresas. Elas consomem armas fabricadas por empresas. Violência? Ordem pública? Tudo balela. As forças armadas e as polícias podem matar à vontade. Elas consomem armas, munições e treinamento. Bandido morto gera renda para funerárias e cemitérios, tudo da iniciativa privada. Bandidos que matam soldados e policiais também geram lucro.
Enfim, chegamos à sociedade perfeita. Enfim o admirável mundo novo. Presídios? Ora, acabamos com as crises do sistema prisional. Ele também não passa de um simulacro. Não temos mais superlotação dos presídios. A maioria dos bandidos está nos cemitérios. Os presídios foram privatizados. Hoje são verdadeiros hotéis. Todos geram lucro. O PIB vai de bom a melhor.
Leis? Sim, elas existem exatamente para serem transgredidas. O povo pensa que advogados, promotores e juízes estão aí para fazer justiça. Tudo farsa. Aliás, a farsa é antiga. Observe bem, hoje o Estado mínimo e mentiroso não tem mais deveres sociais. A saúde foi toda privatizada. Democratizamos o acesso ao serviço de saúde. Todos têm planos de saúde. Não funcionam? A finalidade é essa mesma. Não somos movidos por princípios éticos, mas por interesses econômicos. Hoje, a medicina prolonga a vida humana porque os velhos dão dinheiro. Eles tomam remédios, praticam exercícios físicos, frequentam clubes de terceira idade, são internados, fazem fisioterapia. Tudo pago. Se não podem pagar, morrem. Nesse estado – de mortos – também geram dinheiro.
O direito à casa própria também está garantido. Mas não é mais o governo que cuida disso. São as empreiteiras. Injustiça da sua parte dizer que promovemos a pobreza e a doença. O sistema de saúde privado está aí pra quem pode se beneficiar dele. Aqueles que não podem se dão mal. Deixemos de pieguice. No mundo sempre houve ricos e pobres. Nosso interesse é que as pessoas aumentem sua renda individual e familiar. Assim, é mais gente consumindo. Mas não dá pra ser perfeito. Mesmo assim, acho que vivemos no melhor dos mundos. Alguém já disse isso, não lembro quem. Um personagem de Voltaire? Obrigado pela informação, mas não importa. Esse cara faz parte da pré-história.
Nunca se produziu tanto alimento como hoje. Destruição da natureza? Alimentos contaminados? Vamos ver se você aprendeu matemática. Quanto é 10-10? Zero? Errou. Dá 20. Dez pra destruir e dez pra consertar. Mudamos o clima, poluímos os oceanos, as águas dos rios, o solo. Desmatamos, extinguimos espécies. Tudo isso gera riqueza. Depois despoluímos, reflorestamos e recriamos espécies extintas graças aos avanços da genética. Tudo isso também gera lucro. Saneamento básico? Tudo resolvido. Não por razões éticas, mas por geração de dinheiro. Veja as religiões. Elas defenderam princípios éticos num contexto que a ética podia existir verdadeiramente. Agora não pode. Elas se renderam ao lucro. Abraão, Buda, Jesus, Maomé propuseram caminhos éticos para a salvação da alma ou coisa que o valha. Hoje, não dá mais. Todas as religiões estão vendendo ilusões.
Enfim, rapaz, não quero convencê-lo de nada. Você é uma andorinha apenas. Você não faz verão. Então, vamos encerrar esse papo. Vai ao shopping hoje?
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Suplício de uma suspeita
21/02/2017 | 10h08
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 21 de fevereiro de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Suplício de uma suspeita
(ALIADOS)
Edgar Vianna de Andrade
 
“Aliados” é um filme feito de colagem de ideias. Seu diretor, Robert Zameckis começou financiado por Steven Spielberg, que apostou no seu talento. Acertou. Zameckis fez de tudo e se destacou com filmes marcantes. “Forrest Gump”, a trilogia “De volta para o futuro”, “O náufrago”, a esplêndida animação mestiça “Uma cilada para Roger Rabbit” e experiências tecnológicas como “Bewoulf” revelam sua versatilidade. No seu currículo faltava um filme noir. Com “Aliados”, não falta mais.
Com roteiro do experiente Steven Knight, o filme conta com referências imagéticas a “O céu que nos protege”, de Bernardo Bertolucci, a “O paciente inglês”, de Anthony Minghella e a enredos de outros filmes do passado no gênero. Claro que “Casablanca” está presente. A cidade, agora, é vista com presença maior da dominação nazista durante a guerra. Mas o núcleo da trama se desenvolve em Londres, ainda na Segunda Guerra Mundial. Um Brad Pitt maduro faz o papel de um tenente coronel (Max Vatan) incumbido de eliminar um alto-escalão nazista em Marrocos. Para tanto, ele conta com a colaboração da agente francesa Marianne Bonséjour (Marion Cotillard). Cumprida com êxito a perigosa missão, ambos vão para Londres e se casam.
Depois de nascer a filha do casal, o alto comando de guerra britânico informa a Max que sua esposa é uma espiã nazista que roubou a identidade de uma agente morta. Começa então a parte mais tensa do filme, que ecoa algo de “Sr. e Sra. Smith”, de Doug Liman, cuja refilmagem contou com o próprio Pitt e sua ex-mulher na vida real Angelina Jolie. A tensão é tanto criada pelo suspense de dormir com a inimiga quanto pelo drama familiar: um casal apaixonado lutando em lados opostos e com uma filha no meio.
“Aliados” é e não é um filme de época. Por mais que Zameckis se inspire nos filmes noirs clássicos dos anos 1930 e 1940, estamos diante de um filme do nosso tempo enfocando o passado. O figurino é dos anos de 1940 e concorre ao Oscar. Tudo é muito bem cuidado. A reconstituição de época é magnífica. Casablanca em “Casablanca” é menos Casablanca que em “Aliados”, pois a técnica é do nosso tempo. Certas cenas de sexo e de homossexualismo não seriam mostradas em filmes antigos, sobretudo na Inglaterra, onde o homossexualismo, notadamente o feminino, era proibido. Nenhum sugeriria o consumo de drogas ilícitas. Sabe-se que tudo o que é mostrado existia, mas era ocultado.
Os finais de filmes noirs do passado podiam conter destinos infelizes, como o desencontro amoroso de “Casablanca”, mas não violentos, como em “Aliados”. Enfim, o filme faz jus a quatro Mateusinhos.
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Dúvidas sobre a lagoa do Campelo
19/02/2017 | 19h25
Dúvidas sobre a lagoa do Campelo
Arthur Soffiati
 
Passei dos dias maravilhosos (18-19 de fevereiro) na companhia de geógrafos que receberam a conceituada geógrafa Sandra Cunha, da UFF, para que ela conhecesse, no campo, o complexo sistema hídrico que tem a lagoa do Campelo como centro. Foi uma visita técnica que me permitiu aprender muito mais sobre a região em que vivo e amo. Sempre aprendo porque, embora com 70 anos de idade, estou aberto ao conhecimento. Nossa excursão foi estritamente acadêmica. Infelizmente, como tenho história de ativista, não pude deixar de observar mudanças estranhas. Mesmo sabendo que nossa realidade ecológica muda a cada semana, voltei cheio de dúvidas sobre minhas constatações. Mas, certamente, estou errado. Por isso, gostaria que as autoridades, conhecedoras profundas da margem esquerda do rio Paraíba do Sul, no seu curso final, me esclarecessem e dissipassem minha ignorância.
As visitarmos as comportas do canal do Vigário, notei que o rio alcançou nível para fluir pelo canal. As comportas pareciam abertas, mas não havia nenhum fluxo, nem do lado do rio nem do lado do canal. A constatação foi feita com o lançamento de folhas e de galhos na água. Só se moveram por força do vento. Como tenho o INEA e o Comitê de Bacia do Baixo Paraíba em alta conta, concluí que a lagoa deveria estar cheia, sem precisar do aporte de água do Paraíba do Sul. Daí o fechamento das comportas. Ao passar pelo canal na lagoa de Brejo Grande, notamos que ela está seca. Apenas o canal do Vigário mostra água. Inclusive, duas pessoas pescavam nele. Então, pensei: nossas autoridades zelam pelo nosso patrimônio ambiental. Se aqui, a água parece escassa, não há dúvida de que a lagoa está cheia.
Chegamos à lagoa da localidade de Mundéus. Meu coração encheu-se de contentamento ao ver adultos, jovens e crianças se banhando nas águas do Campelo. E pensar que técnicos da FIPERJ vaticinaram, no auge da estiagem de 2014-15, que seriam necessários 20 anos para a recuperação da lagoa...
Para tirar a prova dos nove, contive-me até chegar ao vertedouro da lagoa para o canal Engenheiro Resende. Fui pensado comigo: a lagoa está tão cheia, tão saudável que, não tenho dúvidas, a água está vertendo e caindo no canal. Ao chegar lá, meu susto foi grande. A lagoa está praticamente seca na sua ponta norte. A distância entre a água da lagoa e o vertedouro é bem grande. Sobre o vertedouro de concreto construído pelo saudoso Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), órgão que me fez verter lágrimas copiosas quando foi extinto pelo ex-presidente Collor de Melo, de costas para a lagoa e de frente para o canal, olhei para a minha direita e vislumbrei, estupefato, uma vala que se estende de uma extremidade do vertedouro até a margem direita da lagoa.
Alguém desconhecido abriu a vala para retirar material e construir um dique. Segundo informações colhidas no local, o dique foi erguido por um proprietário para se apropriar de parte do leito da lagoa. Então, fui tomado de agradáveis recordações. Lembrei-me de um dique parecido, no mesmo local, embargado pelo ex-presidente da extinta SERLA, Jefferson da Silveira Martins, que veio a Campos vistoriar o local a meu pedido e declarou o embargo. Fiquei muito envaidecido pelo feito. Será que sofri de alguma ilusão ao pensar que a ordem do Dr. Jefferson não foi cumprida? Que o dique está lá desde a década de 1980? Mas fui alertado de que há dois meses, esse dique não existia. Sempre com o pensamento voltado para a seriedade do INEA e do Comitê, concluí que aquela invasão do leito para apropriação de terra não era do conhecimento de ambas as instituições. Tanto que, por esse escrito, denuncio aos dois essa invasão tão fora de moda.
No segundo dia de campo, fomos visitar as comportas do córrego da Cataia e do canal de Cacimbas. Meu coração não estava aflito, pois eu tinha certeza de que elas estavam fechadas para a lagoa, em nível tão baixo, não perdesse mais água. Sofri um grande trauma em verificar que as quatro comportas do córrego para o rio estavam abertas, permitindo que a água da lagoa fluísse livremente para o Paraíba do Sul. Isso só pode ser coisa de um vândalo, pensei.
Sempre confiante em nossas autoridades, continuamos nossa excelente excursão rumo ao canal de Cacimbas. Ao chegar lá, fiquei horrorizado. Além do fluxo de água em direção ao Paraíba do Sul, as duas comportas foram arrancadas. Que horror! Que medonho! Esse mundo está cheio de indivíduos maus, que não respeitam as pessoas e o ambiente. Vou correndo ao INEA e ao Comitê denunciar essas barbaridades, essas agressões aos bens públicos e ao bem comum, contribuindo para que o ressecamento progressivo da nossa amada região seja acelerado.
Em resumo, notei que a água do Paraíba do Sul para a lagoa do Vigário não está correndo, embora haja nível para o fluxo; que a lagoa está bastante detonada; que um dique certamente ilegal foi construído na ponta norte da lagoa; que as quatro comportas do córrego da Cataia estão abertas, permitindo que a lagoa perca ainda mais água; e que as duas comportas do canal de Cacimbas foram arrancadas.
Que mundo é esse, meu Deus?!
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Espírito pouco Santo
18/02/2017 | 21h51
Folha da Manha, Campos dos Goytacazes, 19 de fevereiro de 2017
Espírito pouco Santo
Arthur Soffiati
 
Não consigo entender e explicar a crise de segurança no Espírito Santo sem recorrer às raízes. A impressão superficial sentida pelas pessoas e passada pela imprensa é que a onda de saques e homicídios foi causada pela greve indireta da polícia militar do Estado.
Vejo a crise como tendo razões mais profundas. No mundo todo, com menor intensidade nos países ricos, e com maior, nos países pobres, o mundo está policializado. A palavra é mais significativa que policiado. Significa que a violência no mundo vive em situação de latência para aflorar quando a polícia não está presente. Credito este estado de violência latente à pobreza e ao individualismo.
O pensador que se tornou famoso tomando a violência como origem do Estado foi o inglês Thomas Hobbes. Como se sabe, ele pensou que, no início, reinava entre os humanos um individualismo exacerbado e uma violência descontrolada. Cada indivíduo lutava contra os outros pela sua vida. Daí a máxima: “O homem é lobo do homem”. Nessa perspectiva, a humanidade se aniquilaria. Esse impasse levou as pessoas a firmarem um contrato cessando a guerra de todos contra todo e fundando o Estado, que teria o monopólio da violência.
Pode-se supor que a situação de violência generalizada, o estado de natureza de Hobbes, corresponderia às primeiras sociedades humanas que, no século XIX, os primeiros antropólogos, com forte influência evolucionista, escalonaram em três estágios: selvageria, barbárie e civilização. Engels adotou essa linha evolutiva no seu livro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”.
Hobbes viveu num tempo de violência. Entre 1642 e 1688, a Inglaterra mergulhou numa profunda guerra civil e num período de angústia que acabou na Revolução Gloriosa, com a vitória do Parlamento sobre o Rei. A violência influenciou Hobbes, que viu nela os males de uma conflagração prolongada. O estado de natureza seria a situação vivida pela Inglaterra por cerca de 30 anos. Não o estado original da humanidade, que Hobbes desconhecia e que Rousseau exaltava.
Selvageria denota uma condição vivida por quem mora na selva. Conota violência. Barbárie conota a condição de bárbaro, para os gregos, aqueles que balbuciam como crianças. Denota atraso e violência. Os dois substantivos induzem a percepções negativas. Índio é sinônimo de violento até mesmo para pessoas pobres. Ele é selvagem e bárbaro.
Na verdade, as sociedades vistas como selvagens (coletoras, pescadoras e caçadoras) ou bárbaras (agricultoras e pastoras) colocam o coletivo acima de tudo. O individual existe, mas não é valorizado. O social é tão forte que uma ofensa feita a um integrante da sociedade é uma ofensa ao grupo. Há guerras entre os grupos, mas elas são ritualizadas. Na verdade, tudo é ritualizado entre esses povos. Não há pobreza nem riqueza. Daí o estranhamento do velho índio tupinambá sobre herança, que Jean de Léry narra no seu livro. Daí a estranheza de índios americanos levados à França sobre as desigualdades sociais, narrada por Montaigne.
O princípio de solidariedade social permaneceu nas ditas civilizações. Leiam-se os “Atos dos Apóstolos”, no Novo Testamento, e tantos exemplos mais de interesses sociais suplantando interesses individuais. As profundas desigualdades sociais e o individualismo nasceram na civilização ocidental, mais especificamente a partir do século XV. As chamadas grandes navegações, a revolução científica e a revolução industrial criaram as grandes fortunas privadas e a noção de indivíduo e individualismo.
Atualmente, a humanidade está ocidentalizada e alcança cerca de sete bilhões de pessoas. As desigualdades sociais nunca foram tão desiguais como agora. Cerca de dez pessoas controlam riquezas correspondentes a quatro bilhões de indivíduos. Estamos na iminência de conhecer indivíduos triliardálios. Por outro lado, bilhões deles vivem abaixo da linha de pobreza. No Brasil, pessoas que experimentaram um padrão de renda de classe média baixa voltam a cair no estado de pobreza. O retorno à pobreza é pior do que a permanência no estado de pobreza.
A noção de solidariedade social e de coisa pública, por mais republicano que seja o mundo e que a república (de res=coisa pública) seja propagada pelo ocidente para outros países, o chamado mundo democrático não é democrático, mas plutocrático. Juntemos, então, pobreza, individualismo e falta de polícia. O resultado foi o que se viu no Espírito Santo. Em todos os estados vigoram condições para a explosão de saques e violência. Antigos pobres que se enriqueceram com o crime lutam contra os governos e fazem suas próprias leis. Os pobres não têm mais o que perder e aproveitam as condições para saquear.
Para mim, trata-se de um mundo intolerável, como disse o socialista-ecologista René Dumont, providencialmente esquecido pelos conservadores e progressistas. Eu gostaria de viver numa sociedade indígena. Ih, elas estão sendo destruídas por nós.
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O chamado 3
15/02/2017 | 11h27
(UM MATEUSINHO)
O retorno de Samara
Edgar Vianna de Andrade
O chamado 3
 
Cansada da viagem que fez do Japão aos Estados Unidos, Samara já teve seus dias de glória, quando Gore Verbinski dirigiu sua versão estadunidense, em 2002, com Naomi Watts no papel principal. Ela saiu de uma ficção escrita por Koji Suzuki e passou a nos aterrorizar. Ai de quem assistisse a um filme em fita cassete, tecnologia talvez não mais conhecida pelos jovens, com a sua sentença fatal. O mundo está mudando muito rapidamente.
Logo depois de assistir ao filminho, a pessoa recebia uma ligação, ainda por telefone fixo, e morria no prazo de sete dias. Samara, uma menina de cabelos compridos e vestido longo, era a assassina. Tratava-se de uma criança atormentada pela morte prematura. Mas, quem desvendaria o segredo de Samara?
Essa tentativa é feita pelo diretor F. Javier Gutiérrez em “O chamado 3”, com roteiro do trio Akiva Goldsman, David Loucka e Jacob Aaron Estes com o famoso Gullermo del Toro, um dos produtores executivos. Samara estava quieta no seu reduto, Não incomodava mais ninguém. Para ressuscitá-la, era necessária uma equipe de alto nível, mas isso não aconteceu.
O roteiro é tortuoso e preciosista. Filmes dessa natureza exigem roteiro mais claro. A fotografia não tem a mínima ambição. Ela poderia ficar aos cuidados de Sharone Meir, como ficou, ou a cargo de um mero operador de smartfone. Idem com a montagem de Steve Mirkovich. Idem com o elenco, tendo à frente Matilda Lutz, no papel de Julia, e Alex Roe, como Holt. Quem menos aparece é Bonnie Morgan, como Samara.
Com pertinácia e coragem invulgares, Julia persegue Samara por caminhos insuspeitos para o público. Descobre-se que se trata de uma alma penada, filha de uma mulher mantida prisioneira e estuprada por um padre. Haveria a intenção de criticar abusos sexuais de clérigos? Se houve, não convenceu.
Tudo ia bem. Parecia que Julia havia resolvido o problema da atormentada Samara e nós, mortais, estaríamos livres de seus vídeos, telefonemas e assassinatos. Começávamos a ficar gratos a Julia por desvendar tudo e libertar Samara e os espectadores de um possível “O chamado 4”. Mas as notícias não são das melhores. No final do filme, Samara mostra que não está contente e deixa em aberto um próximo episódio.
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De repente, 70
11/02/2017 | 19h53
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 12 de fevereiro de 2017
De repente, 70
Arthur Soffiati
 
Completei 70 anos de vida anteontem. Tenho a impressão de que tudo foi muito rápido. Lembro bem da minha infância. Houve muita mudança a minha volta. Hoje, o mundo se transforma mais rapidamente que as pessoas.
Aos 70, enfrento alguns problemas existenciais. O corpo não vai tão mal. Embora eu tenha sofrido uma isquemia, mais por herança genética que por hábitos de vida, noto que meu corpo está melhor hoje do que antes do acidente. Faço exercícios físicos pesados para a minha idade. Minha dieta é bastante balanceada. Mas minha dependência de medicamentos é considerável. Caí nas garras de médicos e creio que não sairei mais.
Noto uma defasagem entre meu corpo e minha mente, meu espírito, se preferirem. Meu corpo envelhece, mas meu espírito não o acompanha. Ele estranha o tratamento que as pessoas me conferem como professor idoso e respeitável. O tratamento de “senhor” me soa muito esquisito. Na minha mente, eu sou “você”. Minha curiosidade aumentou com a idade. Aposentei-me do magistério depois de 40 anos em sala de aula não por cansaço da velhice, mas para me dedicar a meus projetos. Hoje, leio muito, estudo muito, escrevo muito. Ainda saio em explorações por nossa região.
Minhas reflexões, contudo, levaram-me ao desencanto com o mundo. Atualmente, sinto-me mais situado na minha história e na história do mundo. Era para eu me sentir melhor, mas estou triste. O mundo não é ruim porque sou pessimista. Sou pessimista porque ele é ruim. Não gosto dos otimistas. Na tentativa de melhorar o mundo, eles o destroem mais ainda.
O maior problema que enfrento decorre da defasagem entre mente e corpo. Sei perfeitamente que estou mais perto da morte natural do que aos 51 anos de idade, quando escrevi uma crônica muito melancólica e, ao mesmo tempo, cheia de humor. Dezenove anos depois, a presença da morte não se contenta com consolos fáceis. Ela está a minha espreita. Embora com minha saúde monitorada, posso sofrer um acidente repentino. Por mais longevo que seja (algo em que não acredito, dada a minha herança genética), a morte é inevitável. Não é medo dela propriamente o que sinto. Eu gostaria de viver o suficiente para realizar metade de meus planos. A totalidade deles é impossível porque eles aumentam diariamente. Nem a metade posso medir por não saber a dimensão do todo.
Estudei e ainda estudo muito religiões e ciência. Meu parco conhecimento do mundo não me permite a conversão a qualquer religião. Por um lado, gosto do meu agnosticismo como atitude de sabedoria diante do universo. Creio que respostas provisórias para as minhas inquietações intelectuais com ele. Por outro lado, a falta de convicção em alguma crença sobre a sobrevivência do espírito após a morte do corpo me faz falta. Nem o mais convicto religioso pode garantir que sua alma sobreviverá à morte do corpo. Mas a esperança consola.
Pessoas amigas tentam me ajudar dizendo que eu devo crer no além. Ter certeza nele. Fico com a impressão de que ter fé é fácil. Parece que posso comprá-la no comércio. Uma conversão minha nesta idade pareceria surpreendente a mim e aos outros. Ter fé não depende da vontade, pessoal. Aconselham-me também viver um dia de cada vez. Não consigo. Viver um dia de cada vez é esquecer minha história e a história na qual estou inserido. Como começar do zero ao acordar? Quem me dá tal conselho não o segue. Mas se aproxima dele por não mergulhar profundamente na sua própria vida e no mundo. Cada vez mais, encontro pessoas superficiais que vivem por viver. São pessoas que fazem da vida um selfie.
Agradeço, amigos, mas não consigo ser um vivo-morto, um zumbi. Necessito viver os milênios, os séculos, os anos, os meses, as semanas e os dias. Não consigo viver sem passado nem me despreocupar do futuro. Aos 70 anos, voltei, de certa forma, aos meus 16. Na minha adolescência, eu queria me dedicar à música erudita, à literatura, às artes, ao estudo das ciências e da filosofia. E escrever muito. Só agora estou podendo. E a morte está a minha espreita. Gosto deste mundo, apesar de tudo. Se venho de outro, não me lembro dele. Se vou para outro depois da morte, não tenho certeza.
Não sou feliz, como pessoas amigas desejariam para mim, mas não sou infeliz. Felicidade permanente estressa. Infelicidade permanente é depressão. Vivo momentos de felicidade e de tristeza. Não ostento felicidade falsa. Não gosto de Mário de Andrade porque ele me ensinou o interesse por muitos campos do saber. Gosto dele por ter aptidão ao saber múltiplo. Não gosto de Edgar Morin por ter me ensinado a complexidade, mas por encontrar nele um intelectual que atenua a minha profunda solidão.
Concluo invocando Denis Diderot, embora eu não seja um iluminista. Estou em meio a uma floresta numa noite escura. Só tenho um lampião para iluminar o rumo. Aparece alguém me dizendo que posso encontrar melhor o caminho se apagar o lampião. Desculpem, amigos, continuarei com a lanterna acesa.
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Meu pé, meu pobre pé
09/02/2017 | 20h03
Meu pé, meu pobre pé
Arthur Soffiati
Para Sara Soffiatti
 
...assim de joelhos veem-se-lhes as solas dos pés, tão castigadas, tão sangrentas, tão doloridas e sujas, são a parte mais comovente do corpo humano, se está de joelhos, viradas para o céu por onde nunca caminharão. José Saramago. Memorial do Convento
 
Sou diabético. Tive de amputar o pé esquerdo. O médico me disse que eu tomasse cuidado com os pés quando me diagnosticou com diabetes. Fiquei apavorado. Passei a tomar todas as precauções. Comprei sapatos confortáveis e resistentes para evitar que uma topada causasse algum ferimento. Deixei de cortar as unhas dos pés. Passei a frequentar um podólogo, que me tratava com excessiva atenção. Evitei todos os ferimentos. Mas meus esforços de nada valeram.
Não fumo, nunca fumei. O cigarro concorre muito para agravar o estado do diabético. Apesar de tudo, parece que a circulação periférica foi reduzida e lesionou os nervos, afetou a anatomia dos ossos dos meus pés, sobretudo o do esquerdo, lado em que eu já havia sofrido fratura da fíbula. Será que ela contribuiu? O médico não se arriscou a confirmar. Apenas diagnosticou uma neuropatia diabética. Várias pequenas isquemias. Eu já sofri isquemia cerebral. Terei propensão à isquemia? Agora é tarde. Perdi meu pé esquerdo. Meu pobre pé. Gangrenado e amputado. Não o perdi aos poucos, com a amputação de dedos. Cortei tudo na altura da parte inferior da perna.
Manchas vermelhas, pontos doloridos, facilidade para formação de bolhas e calosidades, joanetes. Não tenho pé chato. Posso muito bem constatar isso. Mas eu estava notando baixa pulsação nos pés. Sem a irrigação de sangue necessário, eles ficavam frios, a pele fina, arroxeada, seca, brilhosa. Corri ao médico várias vezes. Nunca me descuidei, mas perdi o pé esquerdo. Meu pobre pé. Agora, temo pelo pé direito.
Tudo começou com uma pequena úlcera na sola do pé. Procurei o médico. Ele tentou antibióticos para combater bactérias. Depois que ele me alertou para o risco do pé diabético, passei a usar sapatos fechados. Sabemos que os pés transpiram. Em meio fechado, a transpiração facilita a proliferação de bactérias. Elas agravaram a úlcera. Não desconfio do meu médico. Acho que ele fez o possível para evitar a amputação, mas não foi possível.
Sei que é ilegal manter um membro amputado em casa. Ele deve ser incinerado ou sepultado em caixões especiais. O destino de um membro amputado é semelhante ao destino de uma pessoa morta. Tudo bem. Acho acertado. Mas antes que meu pé fosse para o cemitério, dei um jeitinho bem brasileiro para me despedir dele.
Meu pé, meu pobre pé, hoje separado de mim... Agora, ele está nas minhas mãos. Estranho minhas mãos segurando meu pé fora de mim. O pé vem a ser um grande engenho da natureza. Ele já está presente, de maneira latente, em varias espécies de peixe. Estudei esse assunto como pude, embora não seja especialista. Sou fascinado pelas extremidades humanas por entender que elas contrariam a simetria bilateral externa do nosso corpo. Se traçarmos uma linha passando pelo nariz, pelo externo e pelo púbis, pela vulva notaremos que o corpo tem duas partes iguais: dois olhos, duas orelhas, duas glândulas mamárias em homens e mulheres, dois braços, duas mãos, duas pernas, dois pés, dois testículos, dois lábios da vulva. Por dentro, também há alguma simetria bilateral: dois pulmões, dois rins... A linha central divide o único nariz em duas narinas e a boca em dois lados iguais. Sei que há ligeiras diferenças entre um lado e outro, mas elas são praticamente imperceptíveis aos olhos.
Agora, examinemos a mão. Ela tem cinco dedos diferentes entre si. Para acompanhar a simetria, o dedo médio devia separar dois dedos de mesmo tamanho à direita e à esquerda. O mesmo com o pé. O que se considera um pé harmônico tem dedos que decrescem como uma escadinha ou como uma flauta de Pã. Da minha parte, vejo mão e pé como ferramentas altamente sofisticadas e, ao mesmo tempo, reminiscências primitivas da natureza. Eles se aproximam mais da estrela-do-mar, com sua simetria radial, do que dos mamíferos. Delírio meu.
As extremidades animais sempre me fascinaram. Elas não existem nos peixes. Talvez exista um projeto delas nos peixes. Dizem que o primeiro peixe a sair da água (que nome os cientistas lhe deram? Creio que foi Tiktaalik. Não tenho certeza. Não tenho como fazer essa consulta agora no Google) já tinha extremidades articuladas, com protótipo de pulsos e de dedos. Ele passeava na terra para obter alimento e voltava pra água. Genial invenção e também muito perigosa. Segundo os paleontólogos, os primeiros anfíbios tinham oito, sete dedos nas extremidades. Depois, esse número fixou-se em cinco. Por quê? Não sei. Um deles diz, com gracejo, que foi para tocar piano e usar teclado de máquina de escrever e computador.
As primeiras cobras tinham patas articuladas. Elas foram abandonadas. Algumas embutiram as patas e passarem a se arrastar ou a movimentá-las por dentro do corpo, como se as patas estivessem calçadas com luvas e sapatos. As aves transformaram as mãos em asas. Algumas, como a cigana, ainda guardam vestígios de mãos nas extremidades das asas. Alguns mamíferos aquáticos abandonaram parcial ou totalmente as extremidades. As focas transformaram os pés em nadadeiras, e as mãos têm os dedos ligados por membranas. Também as lontras. Mas as baleias e os golfinhos transformaram tudo em nadadeiras. Os morcegos fizeram como as aves: as mãos sustentam asas. Tudo isso é muito estranho.
Muito estranho também é eu estar sentindo coceira na sola do pé amputado. Estou coçando agora o local, mas não está adiantando. O pé não está mais no meu corpo. À noite, também sinto pulsações nas pontas dos dedos e nos calcanhares. Parece que o coração bate nestes pontos. Seriam neurônios? Neurocientistas dizem que o cérebro continua a reconhecer o membro amputado por algum tempo. Meu lado esquerdo sempre foi problemático. Caí de uma altura considerável e quebrei a fíbula esquerda (antigamente, era perônio. Foi preciso quebrar esse osso para aprender seu novo nome) bem perto do pé. Depois, tive um AVC isquêmico que me afetou o lado esquerdo. Ele me deixou sequelas da boca ao pé. Recuperei-me e estava disfarçando bem minhas dificuldades quando tive de amputar o pé. Também do lado esquerdo. Hoje, nem mesmo uma prótese vai disfarçar a ausência do pé.
Foi uma perda muito grande para mim. Há quem se conforme com a perda de um membro, como aquele jogador da Chapecoense. Ele agradece a Deus por ter levado só a sua perna. Não posso agradecer por ter conservado meu corpo sem o pé esquerdo. As extremidades humanas são, para mim, uma obra colossal que custou milhões de anos para ser construída. Não houve pressa da natureza para construí-la. Se houvesse, elas se pareceriam com os nossos prédios, que caem com facilidade. Não assim com mãos e pés, com todo o corpo humano. Houve muitos testes, muitos ajustes, muita paciência para se chegar a essa perfeição. Mas também há defeitos. Por causa do meu pâncreas defeituoso, perdi o pé esquerdo com todos aqueles ossinhos miraculosos.
Um tio me ensinou seus nomes. Tarso, metatarso e dedo. Depois, falange, falanginha e falangeta. Hoje, a arquitetura do pé é bem mais complexa. Na verdade, sempre foi. A gente é que aprendia de forma simplificada na escola. Agora, o nome certo é falange distal em lugar de dedos. São cinco falanges distais com tuberosidades, bases e cabeça, falanges médias também com cabeça e base, falanges proximais com corpo, base e cabeça. Cada osso parece um corpo humano. Tem cabeça, corpo de base. Existe o osso sesamoide medial e lateral com o metatarso atrás, também ele com cabeça, corpo e base, o cuneiforme médio, intermédio e lateral, o osso navicular, o tarso, cuboide, o tálus e o calcâneo. Já estamos perto da perna, da tíbia e fíbula, osso que quebrei e que ficou em mim depois da amputação.
Meu pé, meu pobre pé será arrancado das minhas mãos daqui há pouco. Dizem que cabelos e unhas continuam a crescer depois que a gente morre. Será que as unhas do meu pé morto estão crescendo ainda? Não dá pra perceber. Elas crescem muito lentamente. Os pelos que nascem nos dedos e em cima do pé não estão mais aqui. Meu médico disse que eles pararam de crescer antes mesmo da amputação porque não havia mais a devida irrigação sanguínea.
Estranho as pessoas dizerem minha cabeça, minhas orelhas, minha boca, meu braço, minhas mãos, meus pés. Num livro que li do chileno Juan Emar, ele diz que sofreu um procedimento cirúrgico para descolar o telefone de sua orelha. Antes da cirurgia, ele cortou o fio do telefone para se libertar do aparelho. O corte fez verter sangue do fio. Embora o autor tenha desenvolvido uma literatura do absurdo, o que ele escreveu sobre o fone grudado na sua orelha com o fio sangrando faz sentido. Ou o telefone é um animal ou a orelha é um objeto inanimado.
A orelha não pode ser minha, pois não é um objeto que exista fora de mim. Não posso cortar minha orelha para dar ou vender. Dar até posso. Van Gogh cortou sua orelha e a enviou para a namorada. Mas certamente vão considerar este gesto doentio e macabro. As orelhas que estão em mim sou eu. Meu pé é eu. Não uma parte desatarrachável do corpo que posso tirar, dar e vender. Ao ser amputado, meu pé vai como uma parte minha. Morri alguns avos quando separam o pé de mim. Serei sepultado alguns avos quando o pé for sepultado. Este engenho fabuloso que está presente nas pessoas e em muitos animais vai virar esqueleto antes de mim. Os muitos ossos da sua estrutura vão aflorar quando os tecidos, os músculos, os nervos, a pele se deteriorarem. Será que meu pé resistirá sofrendo algum processo de mumificação natural?
Lembrei de uma múmia que existia no Museu Nacional do Rio de Janeiro cujo corpo não foi enrolado por inteiro, como um bloco. Tratava-se da múmia de uma moça. Os braços, as pernas, os dedos das mãos e dos pés foram envolvidos separadamente. Dava pra ver até os seios dela. Conheci um professor que era apaixonado por ela. Chamava-se Victor Stawiarski. Perdi-o de vista. Era muito alegre e engraçado. Deve ter morrido com os dois pés.
Certa vez, quando eu ainda estava na Universidade, deram-me a disciplina antropologia para ministrar. Argumentei que eu não tinha formação. Não consegui me livrar. Que eu me virasse, foi a resposta do coordenador. Estudei os fundamentos da ciência e escolhi alguns temas. Moda foi um deles. As alunas prevaleciam nas turmas. Não estou afirmando que mulher só gosta de moda. Mas eu precisava me sentir mais seguro numa área de conhecimento que eu não dominava. Foi um sucesso. As moças participaram ativamente, opinando sobre o que eu apresentava no PowerPoint. Eu queria mostrar como nossa cultura de massa impõe o tipo físico para ser modelo, sobretudo feminino. A mulher deve ter magreza anoréxica, com pouco busto, pernas finas, rosto pálido semelhante a de um zumbi.
De vez em quando, eu introduzia uma artista de cinema ou televisão para elas fazerem o contraste. Uma vez, exibi uma foto de Camila Pitanga com os seios nus e descalça. Os homens logo adoraram. Percorri seu corpo em detalhes, da cabeça aos pés. Gostei dos pés femininos, delicados, pequenos. Externei minhas sensações. Uma moça ponderou que pé de homem é muito feio e que pé de moça é mimoso. Ela usou este adjetivo. Concordei. Mas lembrei de pés femininos calejados, sofridos, maltratados pelo tempo e pelo trabalho.
Certa vez, num barbeiro que era salão de beleza popular também, uma mulher aparentemente pobre, de rosto enrugado, corpo arredondado, pernas arqueadas, de meia idade entrou e perguntou se era possível fazer as unhas. Uma das duas moças presentes respondeu que tinha uma cliente para as quatro horas, mas que, até lá, seria possível tratar das unhas da senhora. Com toda a naturalidade que há de existir neste mundo, a manicure perguntou: “pé e mão?”. “É”, respondeu a outra. Mais que depressa, a manicure encheu uma bacia de água quente com espuma e mergulhou aqueles pés encarquilhados de sua cliente nela. Enquanto tratava das unhas das mãos, aqueles horríveis pés ficavam de molho. Depois de certo tempo, tomou um a cada vez e os raspou com um ralo, com uma fisionomia de quem iria assobiar descontraidamente uma canção. Em seguida, enfiou entre os dedos chumaços de algodão para afastá-los e passou a pintar as unhas com esmalte vermelho. De vez em quando, eu olhava de esguelha aquela cena patética com medo de envergonhar a ambas. No entanto, nenhuma das duas conferia a mim a menor importância. Parecia-lhes fazer a operação mais natural que possa existir. A manicurada com aqueles dedos arreganhados. A manicure segurando aqueles pés sem qualquer pejo. Fiquei a me perguntar, mais uma vez em muitas na minha vida, como as pessoas podem considerar natural ter pés e exibi-los sem qualquer cerimônia.
Mas, no geral, reparo e admiro a delicadeza dos pés femininos. Acho estranho ter as extremidades das extremidades do corpo, mãos e pés, pintadas. Sou de uma geração em que homem não pintava unhas, nem mesmo com base. Hoje, existem homens que frequentam salão de beleza, pintam mãos e pés sem nenhum constrangimento.
Eu tinha tanta vergonha dos meus pés quando criança que, nem na praia, eu os exibia. Acompanhava meus pais calçando sandálias, que mostravam apenas os dedos e os calcanhares. Todos diriam que é tolice. Hoje, também digo, mas não sei de onde nasceu aquela vergonha. Parece até que meus pés desnudos mostravam a nudez de todo meu corpo.
Eu queria ficar mais tempo com meu pé amputado. Ainda tenho várias reflexões a fazer, mas o enfermeiro chegou para levá-lo. Ele vai ser colocado numa urna para natimortos e sepultado no túmulo da minha família. Quanta ironia. Um pé desgarrado do corpo sendo tratado como criança falecida. Num último arroubo, beijei a sola dele. Nunca pensei que chegaria a fazer isso um dia. Restou-me apenas um pé que devo proteger. Adeus, meu pé, meu pobre pé.
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Nem tanto nem tão pouco/Estrelas além do tempo
07/02/2017 | 14h21
Folha da Manhã, 07 de fevereiro de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Nem tanto nem tão pouco
Estrelas além do tempo
Edgar Vianna de Andrade
 
Na década de 1920, a discriminação racial nos Estados Unidos era muito mais forte do que atualmente. Sua semelhança com o apartheid da África do Sul era grande. Nesse contexto, nasce a menina Katherine Johnson. Ela tem de morar num bairro só para negros, estudar numa escola só para negros, não pode circular livremente como os brancos. Mesmo assim, ela se destaca como uma vocação muito forte para matemática e consegue, com duas amigas, trabalhar na poderosa NASA, reduto de homens brancos arrogantes e racistas. Lá dentro, existe um setor só para negros em que vi apenas mulheres. Será que homens negros não trabalhavam na NASA?
Katherine (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) formam um trio de negras contestadoras na NASA. A primeira deixa o departamento de mulheres negras e vai trabalhar no setor de homens brancos, onde só existe uma mulher branca. Ela se revela de grande importância nos cálculos para voos de naves espaciais, mas não encontra ambiente receptivo. Se deseja ir ao banheiro, precisa deixar seu setor e atravessar um amplo espaço externo para chegar ao banheiro feminino para negras. Aos poucos, ela conquista a simpatia do chefe Al Harrisson (Kevin Costner), que acaba suprimindo a distinção de urinas. Diz ele que a urina de brancas e negras tem a mesma cor.
A luta interna das três mulheres negras (afrodescendente me parece um racismo envergonhado) é, na medida do possível, vitoriosa. Uma tem seus talentos matemáticos reconhecidos por todos os brancos. A outra acaba ingressando numa universidade só para homens brancos. A terceira se torna supervisora de um departamento. As três existiram de fato e foram homenageadas pela NASA futuramente e mesmo por Obama. A NASA e a NOOA deixaram de ser órgãos limitados aos interesses dos Estados Unidos e se tornaram mundiais, desenvolvendo pesquisas sobre mudanças ambientais que desagradam os governos do país.
Mas, que diabo, como diria Montaigne, as três mulheres lutam pelo direito a serem mulheres como as brancas e serem reconhecidas por seu valor intrínseco. Conseguem, mas não questionam a grande luta que é a Guerra Fria na qual elas combatiam. O chefe de todos chega a suspeitar que Katherine seja espiã russa. Claro, é preciso encontrar algum defeito naquela mulher. Negra que sabe muito deve ter algum problema. Mas, tudo bem, é difícil ter consciência além de seu tempo. As lutas necessárias foram travadas por elas.
No final, mais do que três negras vitoriosas, temos o individualismo dos Estados Unidos vitorioso. O livro que dá origem ao roteiro mostra três negras que lutam pelos seus direitos e vencem. O diretor Theodore Melfi não facilita. Todos que estão por trás do filme querem compensar os danos do preconceito e tratam as três mulheres como heroínas. Mostram uma NASA dependente de uma só pessoa, que pode salvar uma operação ou levá-la ao fracasso. Ninguém no mundo, trabalhando individualmente, garantiria o êxito de uma viagem espacial tripulada, nem homem nem mulher, nem branco, nem negro nem amarelo. Eis a falha do filme-documento: ter exagerado na dose. Não aparece nem um flash dos grandes impasses políticos dos anos 1960. A luta de Martin Luther King é uma nota de pé de página. As mulheres, os negros e os imigrantes legais ou ilegais avançaram nos Estados Unidos, de fato. Basta dizer que muitos apoiam o racista Donald Trump.
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Sobre o autor

Aristides Soffiati

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