Dia Mundial da Água
21/03/2017 | 19h51
Dia Mundial da Água
Arthur Soffiati
 
No dia mundial da água, existe muita hipocrisia, assim como nos outros dias dedicados a outros componentes da indivisível natureza. É hipocrisia porque enaltecemos a água num dia especial para a destruirmos efetivamente durante os outros dias do ano. Na verdade, mesmo no dia consagrado à água, as atividades econômicas que dependem dela, e praticamente todas dependem, deixam de explorá-la em sua homenagem.
Nós, humanos, todos integrantes de uma civilização globalizada, o que significa ocidentalizada, ficamos felizes por existir água doce, pois não vivemos da água salgada. Mas não nos interessa saber que a água doce representa uma ínfima parcela de toda a água do mundo, superficial e subterrânea. A bacia do Amazonas, a maior do mundo, é insignificante se comparada à água dos oceanos.
Além do mais, pelo ciclo da água, a dependência entre água salgada e água doce é íntima. A água doce corre pelos continentes e chega aos mares, tonando-se salgada, mas o calor do sol e os ventos produzem a evaporação da água dos oceanos, que se transforma em nuvens, que se precipitam como chuvas e voltam aos continentes.
Como é bela a natureza! Exclamarão os românticos. Deus a criou perfeita. E nós estamos estragando tudo. O ser humano não é destruidor por natureza. É a economia de mercado, que domina o mundo todo, que o torna imediatista, individualista e consumista. Existe o individualismo, o imediatismo e o consumismo de empresas. O chamado agronegócio consome a maior parte da água doce do mundo enquanto os governantes pedem para cada indivíduo fazer a sua parte. Economia de água é coisa para cachorro pequeno. O consumo de grandes porções dela é para cachorro grande sob o pretexto de produzir alimentos para matar a fome da humanidade. Outra grande mentira. Trata-se de usar a água para produzir alimentos e ganhar dinheiro com eles. Quando não estragados e contaminados.
Por um lado, a água doce se torna um bem natural e coletivo cada vez mais raro. No século XIX era considerado um bem abundante e, portanto, fora do mercado. Hoje, a tendência é cada vez mais transformar a água doce em mercadoria, mesmo em estado bruto. Além do mais, este bem indispensável para toda a forma de vida está sendo impiedosamente poluído. Leiam a história de rios límpidos no passado que se transformaram em valas negras. Hoje, um rio é destino de esgoto e lixo, transporta fertilizantes químicos e agrotóxicos.
Por outro lado, as águas oceânicas também são fundamentais à vida. Os humanos retiram delas muitos bens e serviços. Mas, além de contaminadas, elas estão sendo esvaziadas de vida. Se os rios são conspurcados, todos os dejetos lançados neles terminam no mar, que, por sua vez, recebem resíduos diretamente. Além do mais, estão sendo esvaziados pela acidez cada vez maior e pela sobrepesca.
O drama das águas parece distante de nós, mas ele está bem perto. O que nos falta é interesse pelo que existe ao nosso redor, pela nossa história e geografia. Os naturalistas que passaram pelo norte e noroeste fluminenses há duzentos ou cento e cinquenta ou mesmo há cem anos ficaram deslumbrados com a quantidade e a qualidade das águas continentais, com as florestas e com a fauna nativa.
Na zona serrana e nos tabuleiros, a água estava nos rios e no solo. As florestas a protegiam. Na planície fluviomarinha, ela se acumulava em extensas lagoas. No século XVII, colonos de origem europeia, os Sete Capitães, optaram por converter a imensa planície deltaica em terras para a agropecuária. Era o que o mercado queria. Para isto, contudo, era preciso drenar as lagoas. Só no século XX, foi possível mover uma guerra impiedosa contra as lagoas sob pretexto de combater endemias.
Grandes volumes de água foram lançados ao mar. De extremamente úmida, a planície fluviomarinha tornou-se semiárida. Assim, foram extintos fabulosos ecossistemas aquáticos e a atividade pesqueira foi drasticamente afetada. Se, no passado, o grande problema para a agropecuária e a agroindústria era o excesso de água, agora é escassez dela. O sul capixaba e o norte/noroeste fluminense sofreram uma descomunal hidrorragia.
Mesmo assim, há sinais claros de que continuamos considerando a água como um bem abundante e inesgotável. No entanto, a notícia difusa de que se pretende construir uma barragem no trecho final do Paraíba do Sul para a acumulação de água é sinal de que entramos em outro tempo. A barragem será desastrosa. No nosso imediatismo, queremos resolver um problema criando muitos outros no futuro, sem nenhuma preocupação com eles. Que nossos herdeiros resolvam amanhã os problemas que criamos hoje.
Há como minorar a crise hídrica que assola o norte/noroeste fluminense, o sul capixaba e toda a Região Sudeste, mas os herdeiros daqueles que provocaram a destruição não permitirão que tais medidas, que reduzam os problemas, sejam implementadas.
Portanto, não festejo o dia mundial da água. Pelo contrário, cubro-me com trajes de luto nele.
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Moonlight: sob a luz do luar
21/03/2017 | 09h12
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 21 de março de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Lua negra
(Moonlight: sob a luz do luar)
Edgar Vianna de Andrade
 
Uma boa obra de arte não carece de revelar a variedade fenotípica (chamada de raça antigamente) do seu autor. Já houve intelectual racista declarado sustentando que só o branco puro (isso existe?) cria obras de valor estético. Mas houve também, entre nós, quem defendesse que os mulatos (expressão politicamente incorreta) são criativos por natureza. Exemplos: Aleijadinho, Mestre Valentim, José Maurício, Domingos Caldas Barbosa, Mestre Valentim, Machado de Assis e muitos outros.
O negro mestiço no Brasil não era mais escravo nem era branco livre. Sua situação indefinida o empurrou para as artes. A explicação é social, não racial. No cinema idem. Se é pequeno o número de cineastas negros em todos os países, a situação se deve a questões culturais, não raciais. Spike Lee é um bom exemplo de cineasta. Barry Jenkins é outro. Ele dirigiu “Moonlight”, escolhido como o melhor filme no Oscar de 2017. O roteiro se baseia numa obra do escritor Tarell Alvin McCraney, também negro.
Todo o elenco é negro. Chiron, o personagem central, é mostrado na infância, na adolescência e na fase adulta por Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes sucessivamente. Mahershala Ali é coadjuvante e mereceu o Oscar nessa categoria. Janelle Monáe, além desse filme, teve ótimo desempenho em "Estrelas além do tempo", também selecionado para o Oscar de 2017. Além de atriz bela, Janelle é também cantora. Mas quem atravessa o filme de ponta a ponta é a talentosa e experiente Naomie Harris, no papel de mãe de Chiron. Para fazer justiça, mencione-se também Andre Holland.
Notei que os brancos não aparecem no filme. Pareceu-me uma ausência intencional do diretor e roteirista. Atores negros, bairros negros, escolas negras. O branco está presente sem aparecer. Os negros parecem viver numa situação de apartheid disfarçado.
“Moonlight” tem uma fotografia nervosa e invasiva. O branco James Laxton é um corpo estranho no conjunto do filme. A câmara registra os personagens bem de perto, como a mostrar sua intimidade. Mas sugere situações, como a masturbação de um homem em outro, já que Chiron é homossexual. O filme todo enfoca a descoberta do homossexualismo. Mostra também que negro não é herói nem bandido. É comum o tráfico e o consumo de drogas entre eles, tanto como o bullyng de negro contra negro e agressão física praticada por negro em negro.
Embora a Academia tenha procurado demonstrar que não tem ranços racistas no país governado por Trump, ainda penso que “La,la, land” foi o melhor filme, já que dirigido pelo melhor diretor.
Esperemos agora que os descendentes de índios mereçam uma indicação ao Oscar em 2018. Se não merecerem é porque nada produziram.
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De Campos a Santos
19/03/2017 | 10h02
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 19 de março de 2017
De Campos a Santos
Arthur Soffiati
 
Pela televisão, fiquei sabendo que a cidade de Santos, em São Paulo, está no topo quanto a condições apropriadas para idosos. Mais que rapidamente, escrevi ao meu amigo Gilberto Pessanha Ribeiro, nascido em Campos e atualmente residindo em Santos. Gilberto é cartógrafo. Deu aula na UFF em Niterói e foi aprovado num concurso em Santos.
Ele logo me respondeu, dizendo que já sabia das qualidades de Santos. Embora ainda não tenha ingressado na terceira idade, ele já está se preparando para isto na melhor cidade do Brasil. Santos é menor que São Paulo, mas está mais bem estruturada. É maior e bem melhor do que Campos. Minha mulher e eu conversamos muito a respeito da possibilidade de nos transferirmos para Santos e termos uma velhice saudável. Filhos e netos não gostaram da ideia, mas acabaram concordando.
Alugamos nosso apartamento em Campos e fomos morar em Santos, perto do tríplex que se acredita ser de Lula. Nosso apartamento é pequeno e fica de frente para o mar. Vista panorâmica. Depois de acomodados, procurei logo um geriatra. Santos conta com excelente estrutura de saúde. O médico me examinou da cabeça aos pés e diagnosticou que eu estava bastante estragado nos meus setenta anos. Como de hábito, fez as recomendações clássicas: cortar carne vermelha, gordura, sal, açúcar, álcool e cigarro. Respondi-lhe que nunca fumei, bebia só ocasionalmente e tinha uma dieta rigorosa, além de fazer exercícios físicos. Ele se espantou por examinar um corpo tão envelhecido apesar de todos os cuidados que eu tomava.
Perguntei-lhe se eu podia ter vida sexual. “Na sua idade, o senhor ainda pratica sexo?” “De vez em quando”, respondi. “Pois pode cortar também. Sexo exige muito esforço do corpo e acelera o envelhecimento.” Saí do consultório meio abatido, achando que o geriatra era taoísta.
Comprei duas raquetes de frescobol e uma bola. Passei a frequentar a praia. Enxerido, ofereci-me logo a um grupo de idosos para fazer parte dele e jogar. Eu sempre perdia. Se fosse um esporte coletivo, tenho certeza de que seria excluído. Também nos aproximamos de uma senhora viúva que morava no apartamento do andar superior e fazia muito barulho. Ele vivia apenas na companhia de nove cachorros. Tinha 60 anos e passeava diariamente com aquela cachorrada toda. Foi ela que nos convidou a integrar um clube da melhor idade.
Aceitamos. No clube, uma fisioterapeuta e uma assistente social jovens cuidavam dos velhos. “Sorriam e sempre demonstrem felicidade”, elas nos recomendavam com frequência. Confesso que eu me sentia meio infantilizado com elas. As reuniões ocorriam as terças e quintas-feiras. Um velho (desculpe, idoso) era escalado para levar doces ou salgados a cada encontro. Então, todos riam e demonstravam estar felizes. Depois, todos dançavam. Minha mulher adorava. Eu nem tanto. Nunca aprendi a dançar. A vizinha do andar superior se ofereceu para me ensinar. “Sorria, o mundo é lindo”. Ela me pareceu meio assanhada. Rodava muito comigo. De vez em quando, me soltava e dançava sozinha. Sempre sorrindo, notei que ela usava uma dentadura que se deslocava de um lado para outro. “Sorria, a vida é bela”.
Todos demonstravam alegria e felicidade. Todos comiam e dançavam. Tentei puxar assunto com alguns idosos que me pareciam menos sorridentes. Tentei conversar sobre o século XV, modernidade, globalização e temas correlatos. Ninguém me dava ouvidos. Comecei a perceber que, ali, as pessoas nem sabiam direito em que século vivemos. Fui sendo invadido por um tédio que contrastava com a alegria ao meu redor. “Sorria. Demonstre sempre felicidade, seu Soffiati. Aqui, tristeza é proibida”, repreendiam-me as moças.
Nas manhãs, eu jogava frescobol na praia com idosos. Duas vezes por semana, eu frequentava o clube da melhor idade, sorria, transparecia felicidade, comia e tentava dançar. Passei a andar pela cidade nas tardes em que não havia reunião no clube. Comecei a admirar os canais de drenagem concebidos pelo engenheiro campista Saturnino de Brito. Encontrei numa livraria o projeto que ele traçou para Santos. Comecei a escrever artigos. Procurei os jornais da cidade, oferecendo meus escritos. Fui recusado em todos. Mantive meu blog em Campos, mas ninguém se interessava por assuntos relacionados à baixada de santista.
Comecei a sentir saudades de ambientes periféricos e degradados. Fui a Cubatão. Um dia cheguei em casa com as pernas cobertas de lama negra até os joelhos. Minha mulher logo exclamou: “Não acredito, não posso acreditar que você tenha entrado num manguezal!” Contraí estafilococos e tive que tomar Bezentacil.
Deixei o frescobol e abandonei o clube da melhor idade. Passei a perambular pela cidade. Tive uma conversa demorada com minha mulher. No fundo, ela sentia muita saudade dos filhos e netos. Decidimos voltar para Campos. Valeu a experiência, mas, já que estou aposentado, prefiro excursionar pelas áreas degradadas daqui e escrever meus artigos sobre problemas locais. Meus adversários não gostaram muito do meu retorno. Que me aguentem.
 
 
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Chuva no lugar e no tempo errados
14/03/2017 | 19h24
Chuva no lugar e no tempo errados
Arthur Soffiati
 
Se os insignificantes 10 milímetros de chuva que se abateram sobre Campos hoje (14 de março de 2017) mais cedo, tivessem caído na área rural – sobre a lagoa Feia, por exemplo – eles não causariam a mínima alteração. Pareceriam uma pulga picando um elefante. Se caíssem no século XVII sobre o embrião de Campos, também não se notaria qualquer alteração importante. Caso se precipitassem sobre Campos no início do século XX, também não. Creio que não seriam muito notados nos anos de 1970, quando vim morar nessa cidade.
Agora causam. Toda vez que chove, podem anotar, rapidamente se alagam a descida da ponte Leonel Brizola do lado de Campos, os arredores do mercado, a rua Formosa na altura do 8º BPM, a rua Edmundo Chagas, o entorno do edifício Salete, a Avenida Pelinca, a rua Baronesa da Lagoa Dourada, o novo Jóquei e a rua Tomaz Coelho quase Alberto Torres. É que, nesses pontos, havia lagoas outrora. Na descida da ponte e arredores do Mercado, a lagoa do Osório; nas adjacências do 8º BPM, a lagoa de Santa Ifigênia; na rua Edmundo Chagas e Edifício Salete, a lagoa João Maria; na Avenida Pelinca, um extenso brejo; na Baronesa da Lagoa Dourada e Tomaz Coelho, a lagoa Dourada; no Jóquei, a lagoa do Goiabal.
No século XVII, a Baixada dos Goytacazes de fabuloso pantanal começou a ser convertida em terra para a agropecuária e para os núcleos urbanos. Muitas lagoas foram drenadas a um preço ambiental e econômico muito alto. Já que era para implantar uma cidade das dimensões de Campos, o serviço deveria ser bem feito. Mas não foi. As lagoas cercadas pela cidade foram mal drenadas. As ruas, pontes, praças e edificações se ergueram sobre essas lagoas, soterrando-as ou comprimindo-as. Seus leitos não foram nivelados, mas foram impermeabilizados. O resultado de qualquer chuvinha insignificante é promover a volta dos fantasmas das lagoas. Campos é uma cidade de fato assombrada. Matou as lagoas, mas seu espectro nos assombra.
O engenheiro campista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito concebeu um sistema de canais para garantir a drenagem dessas lagoas e não o retorno delas. Um canal sairia do local onde hoje existe o CEPOP, passaria pela rua Formosa e pela Edmundo Maciel, seguindo pela 28 de Março até o Canal Campos-Macaé (Valão). Ele esgotaria as lagoas do Goiabal, Santa Ifigênia e João Maria. Outro começaria na rua Baronesa da Lagoa Dourada, cortaria a Avenida Pelinca e alcançaria o Valão na altura da descida da ponte Leonel Brizola. Ele drenaria a Lagoa Dourada, o brejo da Avenida Pelinca e o que sobrou da lagoa do Osório.
Se esses dois canais tivessem sido construídos pela municipalidade, os problemas de alagamento urbano talvez não ocorressem. Mas Saturnino de Brito era um homem de forte caráter e demasiadamente honesto. Ele entendia que os canais devem ser mantidos sempre abertos e limpos. Caso isso acontecesse, muitas áreas privatizadas pela especulação imobiliária seriam públicas. Contudo, nosso individualismo taparia os canais e construiria prédios sobre eles. Ou badulaques como os que Rosinha ergueu sobre o Valão.
Para os ruralistas, é necessária a limpeza dos canais de Coqueiros e Cambaíba. Para a cidade, nem tanto. É um desafio à administração pública que continua sem resposta. Estamos comprovando que os piscinões não resolvem.
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Angústia à beira-mar
14/03/2017 | 10h00
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 14 de março de 2017
(CINCO MATEUSINHOS)
Angústia à beira-mar
“MANCHESTER À BEIRA-MAR”
Edgar Vianna de Andrade
 
Saí do cinema com a forte impressão de “Manchester à beira-mar” foi escrito e dirigido por Kenneth Lonergan para o desempenho de Casey Affleck no papel de Lee Chandler. Com mais de duas horas de duração, creio que o filme poderia passar por alguns cortes na montagem. De fato, Affleck ocupa o filme todo com excelente interpretação. Ele representa um homem comum, casado e com filhos. Uma tragédia familiar muda radicalmente o rumo da sua vida. Ele se torna solitário, antissocial, agressivo no trabalho e no dia a dia.
Seu único irmão, com problemas cardíacos crônicos e também separado, morre. Lee tem de cuidar de tudo. A morte o colheu num momento inoportuno. Qualquer momento seria inoportuno para um homem com uma dor moral profunda. Mas só ele pode agir. Sua situação fica pior com a abertura do testamento do irmão morto. Ele fica como tutor do seu único sobrinho, com 16 anos.
Ambos se entendem e se desentendem o tempo todo. O tempo de viagem entre a cidade em que mora Lee e a cidade em que mora o sobrinho é de uma hora e meia. A mudança de um ou de outro não seria complicada. A ex-mulher de Lee casou-se novamente. A ex-cunhada também se casou de novo. Está estabelecido o impasse: cuidar do sobrinho e de sua herança até que ele complete 21 anos.
Não sou dos que elegem um ator como o melhor ou como o pior do mundo. Existem bons e maus atores e atrizes no mundo todo. Acontece que a maioria não consegue se desenvolver nem ganhar a notoriedade que Hollywood pode proporcionar. De todos os filmes selecionados para a premiação do Oscar, há atuações esplêndidas. Nos não selecionados, também há. Assim como, em todos, há desempenhos fracos.
“Manchester” é um filme dos Estados Unidos para um público estadunidense. Não é um filme a respeito dos Estados Unidos liderando uma luta para salvar o mundo nem um filme para exaltar o heroísmo dos nativos do país. É muito comum encontrarmos filmes em que os Estados Unidos procuram mostrar que têm de tudo, desde o herói ao anti-herói. Manchester foge aos padrões. Não existe herói nem anti-herói. Apenas um homem comum que padece de uma dor imensa e que não consegue superá-la. Daí a sua angústia profunda. O drama podia acontecer com qualquer pessoa. Por esse motivo, o filme pode ser apreciado por um público não estadunidense.
Os critérios de seleção para recebimento do Oscar não são os meus. Parece que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas procura atender a todos os selecionados a fim de evitar críticas. Em 2016, ela foi alvo de recriminações por não ter indicado nenhum negro. Em 2017, os negros dominaram a cena. É vez agora dos índios protestarem. Com todos os méritos apresentados pelos filmes premiados, não preciso fazer média. Não sei como um filme recebe o Oscar por ser o melhor e o melhor diretor é responsável por outro filme. Por isso, continuo com “La, la, land”.
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Modernidade mestiça
12/03/2017 | 10h55
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 12 de março de 2017
Modernidade mestiça
Arthur Soffiati
 
Meu exame atento da história humana conclui que nunca uma cultura se afastou tanto da natureza como a ocidental. Todas as outras, em níveis distintos de complexidade, sempre mantiveram relações estreitas com o que chamamos de natureza. Os povos nativos de todos os continentes se consideravam parte dela.
Dirão os leitores que os povos não ocidentais desmatavam, caçavam e até eram canibais. Em todas as culturas, não existe natureza intocada. No entanto, os limites de exploração eram respeitados. Claro que algumas passaram dos limites, provocando crises. Mas tais crises eram locais e reversíveis. O ocidente desenvolveu a concepção de que a natureza é uma coisa sem limites para ser explorada em benefício da humanidade. Trata-se, talvez, da maior ideologia já formulada até hoje. A exploração desenfreada tem o lucro por finalidade.
Um dos traços característicos do mundo ocidental e ocidentalizado é o desejo de promover grandes projetos. De certa maneira, o intelectual alemão Goethe demonstrou esse desejo em seu poema Fausto. Um homem faz pacto com o demônio para se tornar imortal e senhor e possuidor de tudo, como preconizou o filósofo francês René Descartes no século XVII.
O desejo de obras grandiosas se universalizou com a dominação ocidental de todos os continentes. O historiador Alfred Crosby explana em “Imperialismo ecológico”, seu mais conhecido livro, que a Europa criou dois tipos de colônia pelo mundo: as neo-Europas, colônias semelhantes à matriz, e as outras, que chamo de neo-Europas mestiças. O Brasil é uma neo-Europa mestiça. Ele foi fundado para ser explorado pela metrópole. Daí o grande contingente africano para trabalho escravo. As riquezas produzidas no país destinavam-se a Portugal. Hoje, a historiografia mostra que grande parte dessas riquezas ficava no Brasil.
Quanto ao pensamento também. Havia quem pensasse na colônia. As ideias circulantes na Europa chegavam em todo mundo. Um dos projetos fáusticos da Modernidade, na primeira metade do século XIX, era abrir canais de navegação. Vários autores escreveram sobre a importância dos canais para transporte de passageiros e de cargas.
No norte fluminense, o hidroviarismo contou com vários entusiastas. Na passagem do século XVIII para o XIX, o bispo campista José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho propôs, sem detalhes, a ligação de Campos a Macaé por um canal. José Carneiro da Silva, logo em seguida, escreveu memórias sobre a importância dos canais para a civilização e sobre a abertura do canal Campos-Macaé. O trabalho mais completo e mais atual sobre esse canal foi escrito por Ana Lucia Nunes Penha. Mais outros três foram construídos na região, embora um deles não fosse concluído.
Graças ao amigo Genilson Paes Soares, tive acesso a uma proposta à altura da megalomania da Modernidade no Brasil. Ela está na “Memória sobre canais e sua utilidade”, de José Silvestre Rebello, publicada no “Auxiliador da Indústria Nacional” de 1840. Depois de passar em revista os grandes canais do mundo (os de Suez e do Panamá ainda não haviam sido construídos). Ele propôs nada menos que a ligação de Porto Alegre a Belém do Pará por uma sequência de canais, batizando o conjunto com o pomposo nome de “Canal Imperial”. Ele escreveu na memória: “sempre me animo a descrever um canal imperial, que comunique a cidade de Porto Alegre no Rio Grande com a cidade de Belém na Província do Pará”.
Daí em diante, ele passa a descrever, em linhas gerais, o traçado dos vários canais que formariam o grande canal. O canal Campos-Macaé ainda não começara a ser aberto, mas ele reforça sua importância. Como originalmente foi concebido, o canal ligaria a baía da Guanabara a Campos. Daí, aproveitaria o canal do Nogueira e de Cacimbas. Se fosse construído, o canal imperial seria o maior e o mais caro do mundo, para, logo em seguida, ser substituído pela ferrovia, que seria substituída pela rodovia.
Por que a Modernidade é tão ambiciosa? Por que abrir um canal dessa magnitude? Bastava um pouco de humildade para perceber que uma tão grandiosa obra era desnecessária. Bastava olhar para o mar e dar-se conta de que existe uma hidrovia dada de graça pela natureza. Era só promover a navegação de cabotagem pelo mar para ligar todos os núcleos urbanos costeiros.
Até hoje, as grandes obras nos impressionam. Continuamos a desejá-las. O regime militar brasileiro construiu a rodovia Transamazônica ao lado do rio Amazonas, a maior via hídrica natural do mundo. Esses projetos e obras suntuosos estão nos arquivos ou sendo consumidos pelo tempo porque tudo que é sólido desmancha no ar.
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Uma vida partida
07/03/2017 | 09h51
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 07 de março de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Uma vida partida
(Lion - Uma jornada para casa)
Edgar Vianna de Andrade
 
Toda criança pobre adotada por ricos num mesmo país ou em país diferente tem um drama de vida que daria um filme. Acontece que a maioria das pessoas que passou por essa experiência não escreveu sua história nem a narrou a alguém que a escrevesse. Saroo Brierley foi um dos poucos a registrar sua trajetória em livro. Ele nasceu na Índia, no seio de uma família pobre em que só aparecem a mãe, um irmão mais velho e uma irmã mais nova. A miséria na Índia é comum. O passado religioso convive com a modernidade sem manutenção. Assim, ao lado de homens e mulheres em seus trajes tradicionais e na prática de seus ritos, aparecem os trens, os famosos trens que transportam pessoas do lado de dentro e de fora, cortando todo o país.
A aldeia de Saroo está perdida dentro do subcontinente. Ele sai de casa para ajudar o irmão mais velho a ajudar na economia doméstica. Ele se perde do irmão e viaja muitos quilômetros de trem, escapando de situações perigosas. É muito comum vender-se crianças nos países pobres. É muito comum comprar-se crianças nos países ricos. Assim, Saroo (Sunny Pawar, quando criança, e Dev Patel, quando adulto) acaba parando na Austrália, adotado por um casal rico constituído por Sue (Nicole Kidman) e John (David Wenham). E lá cresce ao lado de um irmão também adotado e também indiano, mas “desajustado” no comportamento. Saroo também é um desajustado existencial.
Essa a história mostrada no filme dirigido por Gaeth Davis, roteirizado por Luke Davies a partir de relato do próprio Saroo, levado ao público pela luminosa fotografia de Greig Fraser e embebido na mágica música de Dustin O’Halloran. Fica difícil comentar apenas o filme sem descambar para observações sociológicas sobre a adoção. Normalmente, quem cede uma criança para ser adotada não tem condições de criá-la. Muitas famílias, porém, não querem se desfazer dos filhos, mantendo-os junto a si.
Por outro lado, o ocidente, que criou mais miséria que riqueza para pobres de outros continentes, é habitado por casais ricos que se consideram bem intencionados ao se oferecerem para adotar crianças pobres, negras, sujas, subnutridas das antigas colônias ocidentais. A trajetória de Saroo ilustra os dramas dessas crianças, que podem aceitar a adoção como forma de se livrar da vida de miseráveis, viver com serenidade após conhecerem seu destino ou se tornarem dividas como o caso de Saroo. Ele é uma criança nascida num meio de miséria, mas não preterido pela família. Sua sorte, porém, é parar nos braços de um casal australiano rico que lhe proporciona uma vida confortável e uma formação de nível superior.
Nada impedia o casal de ter seus próprios filhos. Mas, por opção política, ele quis ajudar os pobres. Renunciou aos próprios filhos para ajudar os carentes. O filme parece fazer a apologia da adoção, mas a mim me fez pensar sobre o drama deste instituto. O ocidente domina um país com cultura muito diferente da nossa, desmonta a estrutura social dele, aumenta as desigualdades, exacerba a miséria, produz crianças paupérrimas e oferece casais seus para adotá-las. Talvez fosse melhor nunca ter dominado esses países, sempre considerar que levava a desgraça para eles. A dúvida, no mundo ocidental, é uma atitude rara. Mesmo a dúvida sistemática, de Descartes, tem por fim acabar com as dúvidas.
E, no entanto, chama a atenção o contraste entre duas culturas. No ocidente, a vida é asséptica e privada. Na Índia, todas as dimensões da existência são socializadas. O grupo social participa da vida de um casal da fecundação à morte, passando pela criação dos filhos, iniciação religiosa, casamento e novamente o ciclo todo de vida. Talvez a passagem mais emocionante do filme seja a do reencontro da Saroo, com sua família verdadeira, na verdade com sua aldeia e com sua cultura. Alegria, barulho, festa é o que marcam esse encontro.
O filme quase consegue passar ao largo dos padrões hollywoodianos, mostrando uma forma de narrativa distinta da que conhecemos. O herói é um ser angustiado que nos incomoda.
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Carnavalesco tardio
05/03/2017 | 10h42
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 05 de março de 2017
Carnavalesco tardio
Arthur Soffiati
 
Minhas duas tentativas de ser carnavalesco foram desastrosas. Da primeira, não lembro. Tenho dela apenas uma foto. Minha mãe e minha tia me fantasiaram de turco. Dizem que fiquei lindo. Jogaram-me num baile de carnaval em Campinas. Contam que eu fiquei emburrado num canto do salão. Contaram-me também que moças bonitas jogavam confete em mim e mexiam comigo. Minha reação era a de jogar o confete de volta na cara delas.
Na segunda, eu tinha 22 anos. Minha primeira namorada queria ir a um baile carnavalesco. Por dentro recusei, mas por fora consenti simulando alegria. Quando a gente está apaixonado, faz coisas de que até Deus duvida. Na festa, uma moça graciosamente fantasiada aproximou-se de mim e fez mesuras com um leque. Entendi que se tratava de um convite para dançar. Sem hábito de frequentar festas carnavalescas, entendi que deveria retribuir com gentileza o seu convite. Ensaiei uns passos de mestre-sala com ela. O tempo fechou. Minha namorada me pegou pelo braço e me arrastou. Do lado de fora, ela me disse que a moça tinha sido muito assanhada e eu também. Não adiantaram minhas justificativas. No dia seguinte, saí pelas ruas da cidade com meu ex-futuro cunhado, tocando tamborim. Apenas os dois numa demonstração pública ridícula.
Em 2016, pensei: completo 70 anos em 2017. Não custa uma nova tentativa. Quem sabe não passo a gostar de carnaval? Passei o ano juntando dinheiro. Comprei passagens aéreas com antecedência, nos momentos de promoção. O carnaval chegou. Comecei por São Paulo. A cada ano, o carnaval se torna mais sofisticado na cidade que não pode parar. Mas só fiquei assistindo ao desfile de escolas de samba e ao show da onipresente Ivete Sangalo.
Aqueci-me em São Paulo para começar a pular no Rio de Janeiro. Tentei brincar no Cordão do Bola Preta. Para tanto, dei propina ao diretor do bloco. Estava tudo certo para eu participar do Bola, clube outrora muito frequentado pelos meus tios maternos. Quando ensaiei os primeiros passos, Leandra Leal, rainha do bloco, foi desleal comigo. Não me deixou entrar. Desesperado, procurei a Banda de Ipanema. Entrei e levei um soco. Caído no chão, o cara que me bateu disse que o soco não era pra mim, quem mandou eu ficar na frente.
Procurei o Bloco da Facilita, quero dizer da Favorita. Assim que me viu, Juliana Paes me barrou. “Estou cansada de sofrer assédio sexual, ainda mais de velho safado!”, ela exclamou. Corri para o “Bloco das Mulheres Rodadas”. Elas me impuseram uma prova: rodar um bambolê e demonstrar que eu também rodo. Meus problemas lombares não me permitiram. “Não posso perder esse carnaval”, pensei, e fiz uma tentativa no “Bloco Mulheres de Chico”. Fui barrado. Elas disseram que, de homem, só entrava o próprio Chico. Perguntaram-me se, ao menos, eu era parente dele. Falei da minha admiração pelo músico. Tudo inútil.
Já que eu estava no Largo do Machado, tentei o bloco “Balança meu Catete”. Tive de passar por um teste. Examinaram meu Catete e concluíram que era muito pequeno. Aleguei minhas relações afetivas com o bairro, invoquei Machado de Assis. Tudo embalde, como diria o mestre da literatura. Tentei o “Carvalho em pé”. Resposta: “seu carvalho está deitado. Aqui, não, violão”. Busquei os blocos “Confraria do peru sadio”, “Picada de primeira”, “Balanço do pinto”, “Se me der eu como”, “Peru pelado”, “Perereca vadia”, “Perereca sem dono”, “Banda das quengas”, “Broxadão” etc. Podem pensar que é mentira minha, mas esses blocos existem. Todos eles me recusaram por motivo de idade.
Enfim, acabei na Visconde de Sapucaí vendo o desfile. Mais uma vez, me encontrei com Ivete Sangalo e quase fui atingido por um carro alegórico desgovernado. Rumei para Salvador. Tentei brincar, mas fui brincado. Tirei um pé do chão e não pude mais voltar ao solo. Tirei o segundo e fiquei no alto ao balanço dos pulos. Parecia até trem da Central. Só pude ver a Ivete em cima de um trio elétrico. Quando consegui sair da multidão enfurecida, eu estava exausto e suado. Com o suor alheio. Rumei para Pernambuco. O “Galo da madrugada” já havia passado. Ensaie alguns passos de frevo. Meu corpo ficou cheio de distensão muscular. Só pude participar de uma roda de Ciranda, com mulheres idosas. O que salvou minha passagem por Pernambuco foi a apresentação da Ivete Sangalo.
Não me dei por vencido e rumei para Fortaleza, última cidade do meu roteiro. Não entendi nada do que as pessoas falavam. Todos me detestaram. Perguntei a mim mesmo o que eu fazia ali. Por que não fui para Natal brincar no bloco dos Cão, cujos participantes se lambuzam na lama de manguezal?... Familiar para mim, em Fortaleza, só a apresentação da Ivete Sangalo. Decepcionado, voltei para Olinda tentando brincar no “Bacalhau com batata”. Acabei num restaurante comendo bacalhau com batata. De vota à casa, desisti finalmente de ser carnavalesco. Agora estou internado numa clínica, de onde escrevo esta página triste. Os médicos me proibiram de fazer nova tentativa de ser folião.
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Sobre o autor

Aristides Soffiati

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