Vinte e quatro
11/04/2017 | 09h12
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 11 de abril de 2017
TRÊS ESTRELINHAS
(Fragmentado)
Vinte e quatro
Edgar Vianna de Andrade
 
Percebo um traço comum aos filmes de M. Night Shyamalan: o caráter infanto-juvenil. Mesmo que crianças e adolescentes não figurem como atores, o caráter está presente. O diretor indiano radicado nos Estados Unidos se declara admirador de Alfred Hitchcock. Acredito. Acho mesmo que ele é tão fã do cineasta britânico que imita a assinatura dos seus filmes. O genial Hitchcock costumava aparecer rapidamente em suas produções. Shyamalan, mais vaidoso que o mestre, costuma desempenhar papel temporário nas suas produções.
Mas, voltando ao caráter infanto-juvenil do diretor, podemos notar essa caraterística mesmo nos filmes mais adultos dele. Em “O sexto sentido”, Bruce Willis contracena com um menino detentor de sabedoria maior que o adulto. Em “Corpo fechado”, não aparecem crianças. No meu entendimento, esses dois filmes traziam a promessa de um diretor criativo. Mas, bastou lhe dar corda para que ele expressasse sua imaturidade. Steven Spielberg também revela tendência ao infantilismo, mas sabe sair dela quando necessário. Aliás, a imaturidade de Spielberg se torna mesmo indispensável quando seus filmes se voltam para público infanto-juvenil. Shyamalan só fez filmes voltados para adultos, sempre os tratando como crianças. “O último mestre da água” continua insuperável neste aspecto.
“A visita”, de 2016, é um drama com suspense imediatamente anterior a “Fragmentado”. Este, lançado em 2017, é um “thriller” com três núcleos narrativos que se relacionam. No principal, um psicopata sequestra três adolescentes e as mantém prisioneiras num porão. No segundo, o psicopata conversa com sua analista. Ele sofre de transtorno dissociativo de identidade. Tem 23 personalidades numa só pessoa e anuncia a aproximação da vigésima quarta.
O terceiro núcleo gira em torno de Anya Taylor-Joy (Casey Cooke), uma das adolescentes sequestradas em mantidas em cativeiro. Ela tem um passado traumático por ter sido estuprada pelo tio. É das três, portanto, a mais madura e mais fria para lidar com o psicopata. Ela será a principal interlocutora dos 23 personagens e vítima do 24°. Até aí, Shyamalan se esforça para ser adulto. Uma das personalidades é infantil e talvez represente melhor o diretor.
Não é o final inesperado que assusta os espectadores. Todos os filmes do diretor, costumeiramente também roteirista, têm final inesperado. Creio que, sabendo introduzir o inesperado, o filme ganha interesse. Mas depende de que tipo de inesperado se trata. A nova personalidade de Kevin, o psicopata com muitas personalidades muito bem representadas por James McAvoy, é uma fera. Pode-se esperar que seja uma faceta violenta de Kevin ainda oculta. Mas é uma espécie de Hulk que sobe pelas paredes. Nesse momento, o final inesperado vem carregado da única personalidade do autor: a infanto-juvenil.
A crítica, porém, está elogiando o filme. Argumenta-se que, depois de “A vila”, o diretor caiu muito. Com “A visita”, ele começa a se erguer. Com “Fragmentado”, mais ainda. Um autor sempre amadurece. Rápido ou lentamente. Shyamalan é lento.


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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (III)
09/04/2017 | 10h33
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 09 de abril de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (III)
Arthur Soffiati
 
Quando os primeiros europeus chegaram ao futuro norte fluminense, nos séculos XVI e XVII, a ecofisionomia da região era muito diferente. Havia então um mundo caótico de água doce em torno de dois eixos. O rio Paraíba do Sul era o mais importante. Ele ainda é. Por sua margem direita, as águas de transbordamento das cheias vertiam em direção à lagoa Feia, a maior de um universo infinito de lagoas, alimentando distributários e lagoas. O outro era representado por um conjunto misto de rios e lagoas. Podemos situar esse eixo como tendo início no rio Imbé, coletor dos pequenos rios que ainda descem da Serra do Mar por sua vertente atlântica, formador da lagoa de Cima com o rio Urubu. Essa lagoa escoa suas águas pelo rio Ururaí que, por sua vez, dilata-se na lagoa Feia, também alimentada pelo rio Macabu. Por uma infinidade de canais naturais, a grande lagoa vertia suas águas até a lagoa do Lagamar. A partir de então, saía do Lagamar um canal denominado rio Iguaçu, que recebia vários distributários do rio Paraíba do Sul, alargava-se no banhado da Boa Vista e chegava ao mar.
Pero e Gil de Gois não deixaram nenhum relato desse aranhol de ecossistemas hídricos. A umidade era tanta que a vegetação não adquiria porte arbóreo, com raras exceções, como a tabebuia, por exemplo. Apenas nos pontos mais altos e nas restingas, formavam-se matas. Nos estuários, os manguezais formavam bosques expressivos, como no caso de todos os rios da área baixa: Itapemirim, Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul, Iguaçu e Macaé, entre eles, pequenos córregos também formavam estuários favoráveis ao desenvolvimento de manguezais.
Não contamos com documentação robusta para demonstrar que pescadores de Cabo Frio chegaram em 1622, instalando-se na atual praia de Atafona e fundando posteriormente a vila de São João da Praia, depois São João da Barra. Eles teriam iniciado a colonização contínua da região dez anos antes dos sete capitães, que empreenderam expedições em 1632, 33 e 34 para tomar posse efetiva de terras requeridas à Coroa Portuguesa como sesmarias, a fim de criar gado para atender à cidade do Rio de Janeiro. A colonização pelo gado e logo a seguir pela agricultura foi rápida. Em 50 anos, Campos já se destacava como polo significativo da colonização e da globalização europeias.
O século XVII coloca uma opção de desenvolvimento econômico para os colonos estrangeiros. Os grupos indígenas que viviam no futuro norte fluminense sustentavam-se com uma economia de subsistência baseada na coleta, na pesca e na caça, com uma agricultura rudimentar e complementar. O mais completo estudo sobre o modo de vida dos povos nativos da região foi redigido pelas arqueólogas Tania Andrade Lima e Regina Coeli Pinheiro da Silva sobre o arquipélago de Santana, defronte a foz do rio Macaé (Zoo-arqueologia: alguns resultados para a pré-história da ilha de Santana. Revista de Arqueologia 2(2). Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1984).
A pesca seria um caminho a seguir? Hoje, existem países com forte economia pesqueira. Podemos mencionar Dinamarca, Japão e Taiwan. Inseridos num contexto capitalista, a pesca, nesses países, visa o mercado. Trata-se de uma atividade industrial sobre organismos aquáticos. Tendo a extração um caráter de progressão geométrica sobre animais que se reproduzem em progressão aritmética, o resultado é a extinção de espécies. Além do mais, nesses países, a pesca é praticada no mar, não em águas interiores.
Como seria a baixada dos Goytacazes se, em vez da agropecuária, a colonização fosse promovida pela pesca? É de se esperar que não fosse praticada nos moldes da economia de subsistência dos povos nativos, mas em moldes de uma economia de mercado. Isso significa que a atividade pesqueira exigiria transformações no sistema hídrico original, a introdução de espécies exóticas e o extrativismo acima de seus limites. De certa forma, a pesca interior e marítima praticada no norte fluminense ainda não pode ser considerada industrial. Mesmo assim, produz danos aos ecossistemas e à fauna extraída, com desrespeito aos períodos defesos e tantas irregularidades mais. A pesca que se pratica nas lagoas, rios e mares, aqui, não é exemplo de uma atividade ecologicamente sustentável.
Além do mais, no século XVII, este dilema não se colocava aos colonizadores. Certamente, os sete capitães, seus descendentes, jesuítas, beneditinos e Assecas não estavam imbuídos de motivações ambientais. O interesse de todos era o ganho fácil e rápido. Não era de peixes que careciam o Rio de Janeiro e a Europa. A planície do Rio de Janeiro não tem área grande e foi ocupada pela agroindústria açucareira, com campos plantados e engenhos. Aconteceu no Rio de Janeiro o que aconteceu com o Brasil litorâneo: o gado foi empurrado para o interior para que a cana fosse cultivada na zona costeira. No Rio de Janeiro, o gado foi expulso para o norte fluminense.
Para a criação de gado numa zona extremamente úmida, seria necessário a sua conversão em terras apropriadas para a agropecuária. Como não houvesse tecnologia para grandes obras de drenagem, os colonos se conformaram a plantar e a criar nas terras mais altas, não completamente sujeitas às águas. A umidade foi um fator limitante à agropecuária por séculos. Comparada à que se prática atualmente, ela era pífia. E observe-se que a região não tem peso expressivo na produção nacional. As demandas também não eram tão grandes no século XVII como hoje, em que o mundo está cada vez mais globalizado pelo capitalismo nascido no ocidente.
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Futuro sombrio - A vigilante do amanhã: ghost in the Shell
04/04/2017 | 09h09
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 04 de abril de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
A vigilante do amanhã: ghost in the Shell
Edgar Vianna de Andrade
Futuro sombrio
 
“A vigilante do amanhã” é mais um filme visando bilheteria. Creio que Rupert Sanders, seu diretor não percebeu o que eu percebi no filme, adaptação de um famoso jogo japonês. A partir da obra original criada por Shirow Masamune, também visando lucros, William Wheeler e Ehren Kruger redigiram o roteiro. Para garantir bilheteria, Scarlet Johansson foi escalada para o papel principal. Ela representa Major Mira Killian, a princípio uma refugiada quase totalmente mutilada por terroristas. O filme procura se situar numa realidade conhecida nos dias atuais, embora se passe num futuro concebido em 1989.
A cidade em que ele é ambientado parece ser Hong-Kong ou em qualquer grande cidade do mundo. Edifícios altíssimos com hologramas de pessoas fazendo propaganda de produtos. As pessoas que circulam pelas ruas se vestem à moda ocidental e oriental. A tridimensionalidade, realçada pelos óculos 3D, é tributária do antigo “Metropolis”, de Fritz Lang, datado de 1927. Também Lang envereda por um caminho que revela a natureza mais profunda do capitalismo, mas desiste em nome do humanismo.
Depois de atacada por terroristas, de Killian só resta o cérebro. Ele ganha o belo corpo de Johansson, que não continuou o flerte com Woody Allen, voltando aos filmes sem expressão, mas que rendem dinheiro. Como vigilante do amanhã, ela se vale de vários artifícios conferidos pela ciência futura. Aliás, não se sabe que é humano, cyborg ou mecânico. Ela é a primeira criatura cibernética, mesclando humano e robô e podendo ser regenerada se sofrer lesões no corpo que não comprometam o cérebro.
Eu não estranharia que a economia de mercado globalizada chegasse a um ponto em que até mesmo patrões e empregados não sejam mais humanos. Um mundo assim mostra mesmo o aspecto irracional do capitalismo: a máquina de gerar lucros continha funcionando mesmo sem pessoas.
O filme caminha para esta direção, mas não se pode criar um game ou um filme arrasa quarteirão sem uma mensagem ética. Assim é que o lucro a qualquer custo por uma empresa representa o mal. Os valores de um Estado regulador com um ministro, a percepção de que matar é eticamente condenável e os dramas pessoais representam o bem. Killian, Batou (Pilou Asbaek), Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano), Dra. Oulet (Juliette Binoche) e Kuze (Michal Pitt) representam o bem numa infindável luta contra o mal. Killian sai à procura de sua história pessoal, deletada ao ser reconstruída.
De todos os atores, destaco o excelente desempenho de Takeshi Kitano, de longe o melhor de todos no filme. Bastaria ele para restaurar a humanidade e o senso de humor perdidos. Quanto três assassinos tentam matá-lo, ele reverte o confronto e mata os três. “Desde quando mandam coelhos para matar uma raposa”, exclama. Parece que se está a ver novamente o excelente diretor e ator de Zatoiche. Foi a melhor escolha para o elenco.
Nesse mundo em que as pessoas se tornam supérfluas diante das grandes corporações econômicas, é preciso introduzir alguma humanidade. A cidade fria comporta uma periferia sem lei. O crime comum foi enclausurado. Só o crime de colarinho branco domina a sociedade. Mas esse futuro sombrio, frio e a-humano precisa de vida, de princípios, de valores morais. É por isso que Johansson procura lutar. Como dirigida por um piloto automático, ela empreende uma guerra hercúlea e talvez inútil na vida real contra o avanço do capital.
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História das doenças
03/04/2017 | 15h32
Saúde Press ano 7, n° 84, Campos dos Goytacazes, março de 2017
História das doenças
Arthur Soffiati
 
Nossa primeira impressão é a de que as doenças sempre existiram, antes mesmo que os seres humanos tenham habitado a Terra. Impressão enganosa. As doenças dependem do meio. Se mais pessoas se concentram nesse meio, mais facilmente as doenças se desenvolverão. Entre os povos nativos da América, por exemplo, a incidência de doenças era menor, apesar da escassez de remédios, de médicos, de postos de saúde e de hospitais. O tempo de vida era menor, contudo, e os riscos corridos pelo ser humano eram grandes. A longevidade natural das pessoas não era aumentada com remédios. E havia a ameaça de acidentes, de guerras e de caçadas.
Nas regiões mais povoadas do planeta, no século XV, por exemplo, a destruição do meio já avançava vertiginosamente. As doenças transmissíveis dos europeus não funcionaram como arma de extermínio entre os muçulmanos do Oriente Médio por ocasião das Cruzadas entre os séculos XI e XIII. No Oriente Médio também havia aglomerações e destruição do ambiente natural. Havia, portanto, muitas doenças que os europeus trouxeram para a Europa.
A famosa Peste Negra, que causou a morte quatro milhões de pessoas numa população de dez milhões veio do oriente. Ela prosperou por encontrar uma população sem defesas naturais e debilitada pela grande fome do século XIV. Os europeus foram desenvolvendo anticorpos para muitos micróbios. Todavia, eles não eram extintos e sim controlados pelo organismo. Eles continuavam nos corpos das pessoas esperando oportunidades de se manifestar em corpos ainda virgens de doenças.
Foi o que aconteceu com a expansão da Europa pelos oceanos. Mais perigosa que um canhão era uma caravela. Dentro dela, havia homens infectados que resistiam às doenças. Eles usavam armas brancas e armas de fogo desconhecidas pelos povos nativos da América. Além do mais, eles transportavam cachorros, cavalos, bois, cabras e outros animais também carregados de micróbios. Vinham também plantas e sementes nessas embarcações. Por fim, até mesmo animais indesejados pelos navegantes, como ratos e insetos.
Os nativos estavam acostumados a doenças e a traumas causados por caçadas e guerras. Seus remédios vinham diretamente da natureza, sem manipulação da indústria farmacêutica. Os xamãs eram os médicos. As crenças religiosas ajudavam consideravelmente nas curas feitas normalmente com ervas. Usando um sistema semelhante ao de vacinas, os nativos inoculavam em seus corpos, em doses homeopáticas, venenos mortais, como o de cobras, desenvolvendo resistência a eles.
A chegada dos europeus à América e à Oceania representou uma catástrofe para os povos indígenas. Eles não tinham anticorpos para as doenças transmissíveis dos europeus. Essas doenças foram mais letais aos nativos que as armas. Na Nova Zelândia, os nativos entravam em pânico ao verem a mosca europeia porque ela indicava a presença de europeus.
Na América, uma das doenças europeias mais temidas era a varíola. Os europeus já eram resistentes a ela, mas os nativos americanos não. Quando, num grupo indígena, ela se manifestava, as pessoas aparentemente sãs fugiam com medo de contraí-la. Tais pessoas não sabiam que já estavam contaminadas e que a doença iria se manifestar mais tarde, quando ela já estava em outro grupo humano, julgando-se salva.
As chamadas doenças tropicais são, na verdade, doenças da pobreza e da miséria. A maioria esmagadora delas desenvolveu-se no “Velho Mundo” depois do Neolítico e da revolução urbana, em função da sedentarização de algumas sociedades. No Paleolítico, os grupos humanos eram atacados por ecto e endoparasitos, como piolho, sarna e vermes, além de algumas doenças contagiosas. Contudo, seu modo de vida não acarretava a produção de esgoto e lixo, o que limitava a proliferação de organismos vetores de enfermidades. A sedentarização acarretada pelo Neolítico e pelas primeiras cidades trouxe o problema do lixo, do esgoto e da poluição da água para consumo. A concentração demográfica favoreceu a disseminação de morbidades.
Vários grupos nativos da América já haviam se sedentarizado. Mas, além dos remédios domésticos, havia o controle de transmissores de doenças pelas florestas principalmente. Além do mais, as concentrações populacionais não apresentavam grande densidade. Com os europeus, desembarcaram na América o sarampo, a rubéola, a disenteria, a icterícia catarral, a coqueluche, a caxumba, a amigdalite, a meningite meningocócica, a gripe, a difteria, a varíola, o tracoma, a catapora, a peste bubônica, a malária, o tifo, a cólera, a febre amarela, a dengue, a escarlatina, a amebíase, as doenças venéreas e muitas outras.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (II)
02/04/2017 | 10h22
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 02 de abril de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (II)
Arthur Soffiati
 
Depois que Gil de Gois devolveu oficialmente a Capitania de São Tomé à Coroa portuguesa, terras suas foram requeridas a título de sesmarias. Uma sesmaria era uma gleba de terra doada gratuitamente a quem já tivesse posses. Ela não conferia poder político a seu detentor, apenas poder econômico. Nas terras da capitania, Pero e Gil de Gois deixaram apenas arranhões da cultura europeia que se autorregeneraram. Restaram apenas ruínas do porto e engenho em Limeira, que podem ser vistos ainda hoje.
Os jesuítas e sete fidalgos requereram sesmarias na antiga capitania em 1627. Os fidalgos chegaram primeiro. Eles partiram da baía do Rio de Janeiro, hoje Guanabara, passando por Cabo Frio. Onde hoje fica a cidade de Macaé, já existia um arraial bastante precário. Numa embarcação de tipo sumaca, a expedição rumou para o cabo de São Tomé. O guia da expedição jogou-se no mar e conseguiu chegar à costa num mar bravio. A sumaca voltou a Macaé e, de lá, a expedição rumou a pé para tomar posse de suas terras, que se estendiam da foz do rio Iguaçu, hoje reduzido à lagoa do Açu, ao rio Macaé.
A expedição contava com um escrivão. Ela fez contato com um grupo indígena às margens da lagoa Feia. Quando a conheceram, os membros da expedição ficaram pasmos com o “mar interior de água doce”. Recebeu o nome de Feia por ser conhecida em dia de condições climáticas feias, ou seja, de forte temporal. Daí o seu nome.
Seguindo viagem, a expedição dirigiu-se ao cabo de São Tomé. Todos foram com os dedos nos gatilhos de suas armas, temendo a ferocidade dos índios goitacás. Não foi necessária violência explícita. As sentinelas avançadas da civilização europeia na sua versão portuguesa foram bem recebidas pelos índios. Entre eles, viviam náufragos e foragidos da justiça. Havia, inclusive, um negro que os capitães julgaram ser um escravo foragido.
O guia foi reencontrado e os índios receberam a expedição muito bem, com grande fartura de peixes e animais caçados. Os capitães foram informados que os “maus” goitacás se transferiram para a margem esquerda do rio Paraíba do Sul. O imaginário, o fantasioso, o perigo foram sempre deslocados para mais distante, mas eles existiam.
Consta que, em 1622, dez anos antes dos capitães, portanto, pescadores de Cabo Frio liderados por Lourenço do Espírito Santo instalaram-se no local que futuramente corresponderia a Atafona e deram origem a São João da Barra. Precisamos de mais fontes para confirmar essa outra forma de colonização. Os sete capitães tomaram posse de suas terras para a criação de gado, com o fim de fornecê-lo ao Rio de Janeiro. Seja como for, parece que a colonização contínua do norte fluminense em moldes europeus foi iniciada por pescadores e pecuaristas.
A planície deltaica apresentava condições mais apropriadas para a pesca que para a agropecuária, mas esta suplantou aquela. Os capitães tomaram as primeiras providências para dividir a sesmaria em sete lotes. Reflitamos sobre a incorporação definitiva da região à globalização: criação de gado para abastecimento do Rio de Janeiro, povoação portuguesa que já nasceu com o estatuto de cidade ligada à corte portuguesa, por sua vez integrada à Europa nos primórdios de sua expansão pelo mundo. O futuro norte fluminense não apenas começava a ocidentalizar-se e a incorporar-se à economia capitalista.
Na segunda expedição, os capitães batizaram os acidentes geográficos que foram encontrando na região com nomes de origem tupi e portuguesa. Foi, das três expedições, a que mais permitiu o reconhecimento das terras. Nessa segunda viagem, foi erguido o primeiro curral, na localidade correspondente a Campo Limpo, confiado aos cuidados do índio mestiço e cristianizado Valério da Cursunga. Também um oratório em louvor a São Miguel foi erguido em terras da atual Quissamã. A terceira e última expedição foi promovida em 1634. Os capitães não se se fixaram em suas terras. Coube a seus herdeiros promover a colonização. Logo depois, sabedores da fertilidade delas, embora a maior parte estivesse no fundo de lagoas, os Jesuítas também ocuparam as glebas reivindicadas.
Salvador Correia de Sá e Benevides, governador da Capitania do Rio de Janeiro, requereu a Capitania de São Tomé para sua família. Ela passou a ser conhecida como Capitania de Paraíba do Sul. Campos começou a se erguer. A região dividiu-se em quatro grandes domínios rurais: morgado de Capivari, Jesuítas, Beneditinos e Assecas. Estes eram os descendentes dos Sá e Benevides. Um conflito secular instalou-se entre os herdeiros dos Sete Capitães e os Sá é Benevides. A região avançava na globalização.
O texto que melhor registra os primeiros momentos da colonização contínua é o “Roteiro dos Sete Capitães”, na versão de Adelmo Henrique Daumas Gabriel e Margareth da Luz (Orgs.); Carlos Roberto B. Freitas; Fabiano Vilaça dos Santos; Paulo Knaus; Arthur Soffiati (notas explicativas) e Marcelo Abreu Gomes. Macaé: Funemac Livros, 2012.
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Uma escritora em dois mundos
31/03/2017 | 09h28
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 31 de março de 2017
Uma escritora em dois mundos
Aparício Torres
 
Maria Valéria Rezende lançou dois livros recentemente: “Quarenta dias” (Rio de Janeiro: Objetiva, 2014) e “Outros cantos”. (Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016). Ela não é marinheira de primeira viagem. Não é uma aventureira das letras, que lança um livrinho qualquer em meio a muita festa e a pouca qualidade literária. A literatura mundial está cheia de autores superficiais.
Maria Valéria já fincou pé na literatura brasileira com os romances “O voo da guará vermelha” (2005) e “Vasto Mundo” (2001), assim como com os livros de contos “Modo de apanhar pássaros à mão” (2006) e a “A utilidade da cobra”. Ela participou ativamente da resistência contra o regime militar brasileiro, estudou letras e educação no Brasil e na França. Trabalhou em educação popular. Mora na Paraíba. O que mais surpreende na autora é o fato de ela ser freira. Uma freira ficcionista com grande cultura literária.
É ela que reclama do rótulo de literatura regional para aqueles que escrevem fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. De fato, o regionalismo não tem mais muito sentido hoje no Brasil. Ou ele está no passado ou na memória dos escritores. Ronaldo Correia de Brito talvez seja o autor que mais se aproxime do regionalismo atualmente. Mas o sertão que ele visita em suas obras está em frangalhos. Sua ficção transita entre o sertão descaracterizado e a cidade.
Em “Quarenta dias”, Maria Valéria Rezende sai da sua amada Paraíba na pessoa de Alice e vai transitar em Porto Alegre, já uma grande cidade. Ela mostra que sabe construir personagens. A filha de Alice se casou e foi morar em Porto Alegre. Alice é uma professora aposentada que gosta de ler, embora não tenha uma grande biblioteca. Como mora sozinha, só conta com amigas e com um diário redigido num caderno escolar com Barbie na capa. Em seus apontamentos, ela conversa com Barbie, que deve ter a sua idade, mas permanece sempre jovem e bonita.
De repente, sua filha Norinha monta uma armadilha para a mãe. Ela é praticamente sequestrada por sua filha e seu genro para Porto Alegre a fim de cuidar de um neto planejado pelo casal de universitários. Numa narrativa original, a autora mostra Alice rebelando-se contra os planos traçados para ela. O estilo é rápido, com diálogos inseridos na própria narrativa na primeira pessoa, representada por Alice. Toda intervenção é embutida no texto, à moda de Saramago. Ela se inicia sempre com letra maiúscula. Quando os parágrafos não concluem o pensamento, deixando a suposição para o leitor, não há ponto.
Todo capítulo do diário começa com o pensamento de um autor a guisa de epígrafe. Talvez esse artifício extraia um pouco a condição de diário. Também aparecem notas de compras e anúncios, que bem poderiam ser papeis recolhidos por Alice e guardados no diário. A narradora não apela para o que se considerava há pouco tempo como palavrão nem para erotismo. Ao contrário, quando recorre a algo parecido, acaba exclamando “Ave-Maria, Quanto nome feio acabei de escrever!, eu que nunca fui disso!”
Em Porto Alegre, Alice é acomodada num apartamento confortável, mas que não a agrada por não ser o seu, na Paraíba. Ela consegue uma diarista do Nordeste de quem fica íntima, pois ambas se sentem desterradas na cidade. Num belo dia, sua filha Norinha e seu genro Umberto a convidam para jantar e lhe dão a notícia de que vão viajar para o exterior por quase um ano para continuar os estudos. Alice se sente abandonada e se revolta. Logo em seguida, uma amiga da Paraíba lhe informa que o filho da manicure de ambas foi para Porto Alegre e nunca mais deu notícias. Alice é convocada a procurar Cícero. Essa busca incessante leva Alice a percorrer os bairros, as favelas, os hospitais e as cidades vizinhas à procura de Cícero. A narrativa ganha um segundo fôlego.
Na procura, Alice conhece muitas pessoas. Descobre que há muitos nordestinos morando em Porto Alegre. Aprende o linguajar do sul. Passa a falar duas línguas: a nordestina e a sulista. Várias gafes de Alice são hilariantes. Ela tem humor. Seu diário e suas conversas com Barbie passam a ter um caráter metalinguístico no livro. Os registros não se dirigem a ninguém a não ser a ela própria, mas se trata de um livro para leitura de outros.
Com filha e genro no exterior, a vida de Alice ganha sentido com a procura de Cícero em Porto Alegre. Ela conhecerá a cidade e seus habitantes nessa procura. Enquanto o encontro de Cícero é uma esperança. A narrativa é densa. Mas sua força começa a arrefecer quando a procura não rende o fruto esperado.
Ao longo do romance, Alice compara Porto Alegre a sua terra natal, o presente ao passado. À educação, à medicina de seu tempo com as dos dias atuais. “Agora, até parece não haver mais médicos, só engenheiros de órgãos isolados, muitos nem olham pra cara do paciente nem perguntam nada, passam uma batelada de exames eletro-ultrassônico-cibernéticos, olham pros papéis e pro computador, escrevem em uns e no outro, e a gente mesmo tem de fazer o próprio diagnóstico pra saber em que especialista vai.”
Na sua humanidade, Alice humaniza Barbie. Uma leitura atenta do livro dá a impressão de que o diário de Alice não é escrito no dia a dia, mas no final da grande aventura de sua vida. Lembra de seus avós. Tem uma história antiga atrás de si. Tem memória. Escreve de forma coloquial. Nas suas buscas, acaba se transformando numa moradora de rua quase até o final do romance. Maria Valéria coloca em Alice sua experiência de freira.
Sobre o viciante celular, ela é perspicaz: “Não aguento gente que, mesmo sentada num restaurante com quem lhe fez um convite pra almoçar, se essa coisa tocar, larga você, sozinha, bestando, olhando pras moscas, esperando respeitosamente, a presença eletrônica mais forte e exigente do que a presença de uma criatura de carne e osso.”
Sobre sua ficção: “Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a única maneira de voltar inteiramente, se é que dá pra fazer meia-volta-volver (...) deixar escorrer tudo do corpo pra caneta e pro papel.” Ela zanza tanto por Porto Alegre e arredores que “Toda a energia que eu tinha exibido atravessando a pé quilômetros daquela cidade pareceu escorrer pro chão pelos meus pés agora doloridos, deixando atrás de si um desânimo enorme.” A grande cidade se transforma para ela num não-lugar. Será que ela conhece o antropólogo Marc Augé?
No premiado “Outros Cantos”, Rezende volta, quarenta anos depois, a Olho d’Água, lugarejo em que iniciou sua vida de professora pelo Mobral. A personagem Maria, que parece ser a autora, parte do leste em direção a oeste. Ela saiu do lugarejo por razões políticas durante a vigência da ditadura militar. Viajou ao México e ao Saara na Argélia, lugares que lhe servirão de referências nas suas comparações com o sertão nordestino. Quarenta anos remete ao título do romance “Quarenta dias” e a um número bíblico, ligando a autora a sua condição de freira.
O romance avança em cortes. Um capítulo narra a viagem com suas paradas e suas andanças num ônibus em direção a Olho d’Água. O capítulo seguinte aborda suas lembranças do lugarejo. “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar. As casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d’Água?” Pergunta-se durante a viagem.
Contrastando passado e presente, ela toma o exemplo da música: “... liga uma traquina eletrônica qualquer e me oferece as vozes em terça da agora chamada música sertaneja, inteiramente alheia ao meu antigo sertão. Não é só o fast-food no estômago, é o fast-food no cérebro...”
O tempo todo está presente a tensão entre passado e presente, entre o antigo e o moderno. A integridade do sertão, mesmo com suas perversidades, foi estilhaçada. Essas perversidades eram a condição feminina, com maridos tendo o direito de bater nas esposas, a autoflagelação coletiva de homens por motivos religiosos etc. Maria se sentia na Idade Média. Era uma citadina extraviada no sertão. Mas ela não relata como é o novo sertão. Não chega ao lugarejo de seu passado, que está na sua memória. O novo está na sua imaginação. Talvez seja uma técnica ficcional: deixar o lugar em suspenso para o leitor.

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Envelhecimento e morte de super-heróis
29/03/2017 | 12h10
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 28 de março de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
(Logan)
Envelhecimento e morte de super-heróis
Edgar Vianna de Andrade
 
Super-homem nasceu como todos os mamíferos: da barriga de sua mãe. Já nasceu com o corpo de aço. Mesmo assim, cresceu e veio parar na Terra. Ele ama. Será que se casará um dia? Como serão as relações sexuais de um corpo de aço com uma mulher de carne e osso? E o envelhecimento e a morte do herói? No filme “Esquadrão suicida”, anuncia-se que Super-Homem está morto. Deve ter sido por kriptonita, já que ele está condenado a ser sempre jovem e imortal.
Com os heróis da Marvel, o destino é diferente. Eles são trágicos. Nascem com mutações genéticas que lhes conferem poderes. São mutações aleatórias que não apontam para uma tendência da humanidade. Esta – a humanidade – discrimina e teme os novos seres. Eles não queriam nascer com diferenças. Então, procuram se defender. Como tudo o que é produzido nos Estados Unidos, há sempre a polarização bem-mal. Professor Xavier é o líder do bem. Magneto é seu arqui-inimigo.
Outra diferença deles em relação aos super-heróis da primeira geração é que os da Marvel envelhecem e morrem. É o que se assiste em “Logan”, com roteiro de James Mangold, Michael Green e Scott Frank, sendo que Mangold é também seu diretor. Logan/Wolverine (Hugh Jackman) provê com dificuldade o nonagenário Professor Xavier (Patrick Stewaert), com suas perigosas crises de hiperatividade mental, e o albino Caliban (Stephen Merchant). Os três moram precariamente na periferia. Os outros se foram. Não há maiores explicações sobre eles, mais novos que os sobreviventes. Velhice e morte de super-heróis produzem empatia com o público até o momento formado por humanos.
E os heróis da Marvel não foram de todo uma ameaça. As forças armadas dos Estados Unidos começam a produzir mutantes para a guerra. Como sempre, o serviço sujo do país é feito em outro país. Nesse caso, no México. Com a política externa do fanfarrão e retrógrado Donald Trump, talvez eles passem a ser fabricados nos Estados Unidos para gerar empregos.
Essa a vertente política do filme, mostrada em tom de crítica. A vertente filosófica é o acaso, o erro. Nem sempre, os militares e cientistas detêm controle absoluto sobre suas criações. Há mutantes que se rebelam e fogem. O principal é a menina Laura Kinney (Dafne Keen), com muito bom desempenho. Ela é filha de Logan. Seu poder é o mesmo e ela é muito ágil. Na nova geração de mutantes, agora com produção induzida, há também os bons e os maus.
Assim como outras crianças, ela foge e tenta se reunir a elas. As fronteiras nacionais ainda existem, embora estejamos em 2029. Notei que o mundo não mudou muito em 12 anos. Logan ainda mantém um corpo sarado para sua idade. O mundo continua muito o mesmo. Talvez seja uma crítica infundada. Doze anos é pouco para grandes mudanças, mas também é muito. A década de 1990 testemunhou mudanças muito rápidas.
Mas não cobremos o que não nos devem. O filme é o último de Hugh Jackman no papel de Wolverine. Ele fez três e podia fazer mais. A mutilação que o matou não me convenceu em virtude de seu passado de regenerações profundas. Ele podia viver mais. No entanto, talvez o próprio Jackman tenha entendido que já é hora de representar papeis de avô.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (I)
26/03/2017 | 09h50
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 26 de março de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (I)
Arthur Soffiati
 
Para compreender o processo de integração de áreas não europeias a uma economia global, é preciso recordar minha interpretação da Modernidade porque há várias teorias sobre ela. Para mim, toda civilização, ou seja, toda cultura com cidades e divisão social e regional do trabalho, produziu excedentes apropriados por uma atividade comercial. Se o comércio não crescia, o motivo era a produção limitada de excedentes.
A civilização ocidental, na Europa, foi a única em que uma atividade comercial começou a ultrapassar os limites da produção feudal de excedentes, exigindo o aumento dela. Entre os séculos XI e XV, o comércio europeu promoveu as Cruzadas para derrubar o monopólio dos muçulmanos sobre o comércio oriental. Não conseguiu. Então, buscou duas saídas: construir um modo de produção de mercadorias e se expandir pelo oceano Atlântico.
A expansão marítima do século XV representa o início do processo conhecido como globalização. Na verdade, trata-se da ocidentalização do mundo. Entendo também que a modernidade começa com a globalização. Portugal, nessa primeira fase, é um país pioneiro da globalização, embora existissem fortes interesses econômicos de outros países que impulsionavam a expansão lusa.
No que seria o norte-noroeste fluminense, a globalização começou no século XVI. Durante os trinta anos após a chegada de Pedro Álvares Cabral, o Brasil não representou muito interesse para Portugal. O oriente era bem mais interessante. O principal produto do Brasil era o pau-brasil, comercializado com os nativos, que viviam de uma economia de subsistência. Os nativos trocavam pau-brasil por quinquilharias. A costa entre os rios Itapemirim e Macaé não contava com população expressiva dessa planta.
Portugal começou a perceber que o Brasil devia ser colonizado quando o país passou a receber visitas frequentes de estrangeiros, sobretudo franceses, também em busca do pau-brasil. Adotou, então, uma solução bem conhecida atualmente: a terceirização. Dividiu o Brasil em lotes que foram doados a nobres e comerciantes para que eles promovessem a colonização. Tratava-se de uma empresa de risco em que o aquinhoado com um ou mais lote (donatário) tinha direitos, mas muitos deveres.
O sistema recebeu o nome de capitanias hereditárias. Pero de Gois recebeu a capitania de São Tomé, correspondente ao norte-noroeste fluminense e ao sul capixaba atuais. Depois de negociações com o donatário vizinho do norte, a capitania de São Tomé tinha como limites, ao norte, o rio Itapemirim. Ao sul, aproximadamente, o rio Macaé.
Consta que Pero de Gois tentou instalar a sede da capitania numa das margens do rio Paraíba do Sul, mas que teria mudado de ideia por causa do terreno: pantanoso e sujeito a inundações. Decidiu, então, construir a sede na margem direita do rio Itabapoana (chamado então de Managé), junto à foz.
Consta que ele ergueu dois núcleos populacionais. Na foz, a vila da Rainha (homenagem à rainha de Portugal) e, na última queda d’água do rio, um porto e um engenho. Nenhum vestígio restou da Vila da Rainha, onde hoje existe Barra do Itabapoana. Quanto ao porto, as ruínas permanecem lá, em Limeira.
Com Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral, a Europa inicia o processo de incorporação da América a uma economia de mercado. Enquanto os nativos trabalhavam apenas para obter sustento próprio, sem projetos para promover o que denominamos “desenvolvimento”, os europeus estavam imbuídos de uma visão de exploração e de acumulação de capital.
Foi esse o espírito que animou a colonização. Pero de Gois ergueu um povoado e dois engenhos de açúcar não com o fim de criar melhores condições de vida para os nativos (eles não precisavam disso), mas para ganhar dinheiro. Sem capital suficiente para “tocar a capitania”, ele se associou ao comerciante português Martim Ferreira. Pelo nome, Gois devia ser judeu convertido ao cristianismo por conveniência (cristão novo). Sua correspondência com Martim Ferreira mostra confiança no futuro da capitania. Claro, ele não podia mostrar as dificuldades enfrentadas ao sócio que detinha o capital. Para o rei de Portugal, todavia, a choradeira era grande. Este estratagema é usado até hoje.
A tentativa de Pero de Gois de incluir a região na Modernidade globalizadora fracassou. A Vila da Rainha viveu entre 1539 e 1546. A capitania de São Tomé foi abandonada. Em 1619, ela foi reativada por Gil de Gois, filho do donatário. Consta que ele teria fundado a Vila de Santa Catarina, na foz do rio Itapemirim. A segunda tentativa também malogrou. A capitania foi devolvida para a Coroa portuguesa até a chegada dos Sete Capitães, em 1632, que iniciarão uma colonização contínua da região. Com eles, a região se integra efetivamente na globalização.
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Agonia das águas no norte-noroeste fluminense
25/03/2017 | 17h50
Agonia das águas no norte-noroeste fluminense
Arthur Soffiati
 
Nos dias 18 e 19 de fevereiro, percorri a bacia da lagoa do Campelo, acompanhando a professora Sandra Cunha, da UFF/Niterói, o professor José Maria Miro e a doutoranda Leidiana Alves. O rio Paraíba do Sul estava com nível para lançar água no canal do Vigário, mas as comportas estavam fechadas, impedindo que o rio abastecesse a lagoa do Campelo. O Comitê de Bacia do Baixo Paraíba do Sul defende o princípio de que as águas do grande rio só alcancem a lagoa por este canal. Era de se supor, então, que a lagoa estivesse cheia.
Em Mundéus, numa das margens dela, adultos e crianças banhavam-se em suas águas. Moitas de vegetação que cresceu por ocasião da estiagem de 2014-15, estavam à mostra. Como o Departamento Nacional de Obras e Saneamento estabeleceu um nível máximo para a lagoa ao construir um vertedouro na sua ponta norte, lançando a água considerada excedente num canal aberto pelo órgão, só se podia considerar a lagoa cheia vistoriando-a nesse ponto. Chegando lá, verificamos que a água estava muito distante do vertedouro, sinal de que a lagoa não atingiu o nível imposto pelo DNOS.
Outra constatação: dentro da lagoa, à direita do canal, cujo nome é Engenheiro Antônio Resende, um proprietário local, segundo informações de moradores, abriu uma vala dentro do leito para obter terra e erguer um dique. Sua intenção é impedir que a água da lagoa, em caso de cheia, ocupe todo seu leito. É uma prática antiga para apropriação ilícita de terra pública muito praticada na lagoa Feia até 2008, quando quatro diques foram implodidos por liminar da Justiça Federal.
Mais irregularidades foram encontradas. As quatro comportas do córrego da Cataia estavam abertas, permitindo que água preciosa fluísse para o Paraíba do Sul. Mas adiante, no canal de Cacimbas, um absurdo: alguém arrancou as duas comportas. A água acumulada em terra fluía livremente para o Paraíba do Sul. No canal de Cacimbas, bloqueado para atender a interesses de ruralistas da margem esquerda do rio, a remoção de comportas é uma contradição. Caso o rio suba de nível, não será possível evitar a contento a entrada de água pelo canal. Um morador local nos informou que a remoção delas resultou de um desentendimento entre proprietários rurais. O vândalo, como INEA e ruralistas gostam de chamar quem pratica esse tipo de ato, tem nome. É um ruralista, não um pescador.
Visitando a barragem de Funil, no canal Engenheiro Antonio Resende, verificou-se que a pouca água proveniente da lagoa do Campelo está retida ali em ponto muito abaixo do vertedouro. Nas proximidades de sua foz no mar, a água está parada e sua barra em Guaxindiba está assoreada.
No dia 24 de março deste ano (2017), três pesquisadores, eu entre eles, foram ao canal da Flecha e a Retiro, adiante dele. As comportas do canal do Quitingute estão fechadas. Por segurança, foi erguida ainda uma barragem de terra à montante das comportas. Idem para as comportas do canal de São Bento. No canal da Flecha, todas as comportas estão arriadas. Mas adiante, no rio do Espinho ou Furadinho, também as comportas estão fechadas. A água doce está retida a montante de todas as comportas. A água do mar invadiu o canal da Flecha. Comportas abaixadas indicam que a atividade rural precisa de água doce e que a cunha salina deve ser detida no seu avanço superficial (porque considero difícil detê-la no seu avanço subsuperficial).
Indo em direção a Quissamã, para entrar em Retiro, verifica-se que os rios Velho, Novo do Colégio e Barro Vermelho estão secos. Nos seus leitos, as gramíneas tomaram conta. Quem olha do alto, ainda pode se impressionar com os espelhos d’água. As lâminas d’água, porém, estão delgadas.
Barrada a água doce no canal da Flecha, o Comitê de Bacia do Baixo Paraíba do Sul quer detê-la também no curso do Paraíba do Sul, adiante do canal de São Bento por meio de uma barragem. Objetivo: elevar o nível do rio para que ele forneça água aos canais laterais, aqueles canais que foram abertos para drenagem. Uma tal barragem pode correr a fio d’água, mas afetará a foz. A cunha salina pode penetrar mais longe rio acima, deslocando o estuário e obrigando o manguezal a mudar sua posição. O aumento de salinidade no rio comprometerá o tratamento de água para consumo humano. Uma barragem reterá sedimentos que antes chegariam ao mar e impedir o livro trânsito da fauna aquática, afetando a atividade pesqueira.
Não estou aqui tomando partido dos pescadores contra os ruralistas. Apenas condeno a visão imediatista, pragmática e individualista que domina o Comitê. Os pescadores também se tornaram individualista, imediatistas e predadores. Contudo, o Comitê é rude. A maioria dos seus membros quer soluções imediatas para o curso final. Os culpados pela situação em que nos encontramos são sempre os outros. Eles, os outros, também têm culpa pelo estado geral da bacia. Mas nós não estamos perguntando que estragos causamos ao delta. Não estamos discutindo o que podemos fazer para melhor as condições do rio. Não queremos admitir que também provocamos muitos danos. Não queríamos água porque ela ocupava a terra para plantar e criar. Pedimos drenagem. O DNOS drenou demais. Agora queremos água. Quando os rios Paraíba do Sul e Ururaí enchem, não contam mais com reservatórios naturais para acumulação. E a destruição continua, como verificado na lagoa do Campelo.
E ainda pedimos ajuda ao herói trapalhão Chapolim Colorado. Como dizia Saturnino de Brito, é preciso recomeçar com humildade e paciência. É preciso parar de chorar e fazer a nossa parte. Os escândalos dominam o Brasil. Petrolão, governo federal fraco e golpista, operação Carne Fraca... Tudo isso desvia nossa atenção de mudanças sorrateiras que nos parecem insignificantes e inócuas. São mudanças estruturais e em longo prazo que vão tornar a região ainda mais pobre. As coisas vão mudar, mas para pior.
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Sobre o autor

Aristides Soffiati

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