Terror no necrotério
09/05/2017 | 10h00
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 09 de maio de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
A autópsia
Terror no necrotério
Edgar Vianna de Andrade
 
André Ovreal (não encontro no computador uma forma de cortar o O inicial do seu nome com uma barra) tem uma filmografia magra, mas um bom domínio da câmara. Seu mais recente filme enquanto diretor é “A autópsia”. Olwen Catherine Kelly, a atriz principal, fez três filmes. Seu papel em “A autópsia” é singular. Ela passa o filme inteiro representando uma bela moça morta apenas movimentando discretamente o dedão do pé. Não sei o que dizer. No Face book o que mais aparecem são mulheres mostrando o rosto, o corpo, as unhas pintadas, passando-me a sensação de que é apenas isso que elas têm a apresentar.
Talvez seja difícil passar 85 minutos nua, exibindo a beleza corporal, mexendo apenas o dedão do pé rapidamente no final do filme. Talvez seja mais difícil do que se movimentar, falar, interpretar. Mexer o dedão do pé por cinco segundos, se tanto, deve ser uma operação cansativa. Mas “A autópsia” não se limita a uma mulher jovem e nua. O cenário principal é uma sala de autópsia com gavetas para conservar cadáveres. O ambiente em si já é tétrico. O tratamento dos corpos sem vida pelo médico Tommy Tilden (Brian Cox)e por seu filho Austin (Emile Hirsch) é prosaico. Eles destrincham cadáveres como as crianças desmontam brinquedos. A rotina das autópsias deve ser essa mesmo. Médicos que trabalham nessa área tornam-se materialistas e frios mesmo que sejam religiosos.
Nesse aspecto é que se nota o grande contraste: vida (ou morte) natural e vida sobrenatural. O cadáver de Jane Doe (Olwen Catherine Kelly) esconde segredos que transcendem o espaço, o tempo e a vida. O filme mescla a racionalidade do presente com crenças antigas, como as bruxas de Salem, assunto para outros filmes. Dois homens racionalistas e frios por sua profissão acabam sendo obrigados a acreditar em fantasmas por todos os fenômenos que vivenciam na própria carne.
Depois de toda a destruição causada pelo exame do corpo de Jane Doe, a polícia tem de lidar com outro mistério. O primeiro foi um massacre inexplicável numa casa onde Jane foi encontrada. O segundo foi o massacre no necrotério onde Jane também estava. O roteiro de Ian B. Goldberg e de Richard Naing tem suas virtudes. A música de Danny Bensi também está adequada ao filme, que apela para os sons a fim de criar a atmosfera adequada; sons repentinos, mortes inesperadas, aparelhos elétricos e eletrônicos que não aceitam comando humano, a presença de um gato, tempestades. São os ingredientes conhecidos dos filmes de terror ocidentais.
O final parece deixar claro que onde está o cadáver de Jane há confusão, há mortes estranhas. Parece anunciar também o início de uma franquia. Depois de esquartejado, o corpo de Jane volta a ser íntegro e vai para outro necrotério. Dentro da ambulância, seu corpo é mostrado em seu todo pela câmara, que, aos poucos, fecha a lente nos seus pés. O dedão se movimenta, então, como se comicamente se despedisse dos espectadores e anunciasse um próximo encontro. Hasta la vista, Jane.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (V)
07/05/2017 | 09h56
Folha da Manhã, 07 de maio de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (V)
Arthur Soffiati
 
Antes de André Martins da Palma, não houve um projeto organizado para a ocupação das terras que futuramente receberiam o nome de norte fluminense. Pero e Gil de Gois procederam como qualquer outro donatário. Lourenço do Espírito Santo (admitamos sua existência) não fez diferente. Instalou-se na margem direita da foz do Paraíba do Sul com seus companheiros e dali se transferiu para o local hoje correspondente à cidade de São João da Barra. Os Sete Capitães fizeram três excursões às terras que requereram em sesmarias, instalaram currais nela e iniciaram uma colonização contínua.
André Martins da Palma encontrou terras extensas, planas e férteis muito irrigadas, um enorme rio (Paraíba do Sul), uma vasta lagoa (Feia), bosques densos (na margem esquerda do Paraíba do Sul), índios semiaculturados, canaviais já consideráveis, pastos nas áreas secas e engenhos de açúcar e aguardente. Já existia uma vila, ainda não elevada a esta condição oficialmente pelo poder de direito.
Em 1657, sua representação ao rei de Portugal trabalha com esses dados. Daí sua proposta de construir uma fortaleza na foz do rio Paraíba do Sul para defender a região de estrangeiros, sobretudo holandeses; a elevação da vila informal diretamente à condição de cidade; a criação de uma vila na foz do rio; o uso das águas do rio e da lagoa como fonte de energia; o domínio e a catequese dos índios; a cobrança de tributos; o estímulo à agricultura e a pecuária, com a experiência do plantio de trigo, e à indústria de açúcar e aguardente.
No final da representação, André Martins da Palma enfatiza: “... tendo V. Majestade a dita cidade e vila com justiças, e sua câmara, haverá logo livro de sesmaria, no qual se registram todas as datas que V. Majestade tem dado e der aos moradores dos ditos campos, e havendo o dito livro, por ele saberá V. Majestade o que se lhe tem usurpado e poderá vir a tanto crescimento de moradores que o que hoje vem a ser de três pessoas poderosas venha redundar em tantas que tenha V. Majestade de direitos com que possa sustentar grandes exércitos e armadas só com o rendimento dos ditos reais direitos.”.
Havia, na baixada, quatro grandes propriedades: o morgado de Capivari, de José de Barcelos Machado, os domínios dos Jesuítas, as terras dos beneditinos e a grande fazenda dos viscondes de Asseca. Parece que Palma é favorável aos domínios alodiais, ou seja, de pequenos lotes de terra entre as grandes propriedades. Mais produtores equivaliam a mais produção e a mais impostos. Daí a ênfase do representante sobre a importância de elevar Campos diretamente à condição de cidade, com sua câmara e suas leis, mas, ao mesmo tempo, com o controle direto da coroa portuguesa, com a indicação de um representante direto dela.
A opção hipotética entre pesca, agropecuária e agroindústria já havia sido ultrapassada. Entre o primeiro curral, instalado em 1633, e a representação, em 1657, o gado e a cana se alastraram na região. Em nenhum momento, André Martins da Palma se refere à atividade pesqueira como importante. O silêncio fala mais que as palavras. No final do século XX, um importante engenheiro do Departamento Nacional de Obras e Saneamento dirá que a pesca era uma atividade subalterna e que não gerava riquezas para a região. Mas ela sempre existiu. Ela era praticada pelos povos nativos da região. Portanto, a pesca é mais antiga que a agricultura, praticada apenas em caráter suplementar pelos indígenas.
No início da colonização portuguesa contínua da região, no século XVII, a pesca era muito mais expressiva que hoje. A existência de um povoado com predomínio de pescadores em São João da Barra, bem como a enorme quantidade de rios e lagoas na planície deltaica, aponta para uma atividade pesqueira bem mais significativa que hoje. A pesca era praticada nos ecossistemas de água doce e tudo indica que no mar. Reza a tradição que Lourenço do Espírito Santo era pescador em Cabo Frio e chegou à foz do Paraíba do Sul por navegação marítima. Assim, a pesca era uma atividade tradicional paralela à agropecuária e complementar a ela. Até a crise geral da cana na região, ela suplementava os trabalhadores rurais na safra e na entressafra.
Mas a atividade pesqueira não apontava para nenhum desenvolvimento futuro da região. A cana era usada para a produção de açúcar e aguardente. O gado em pé atendia ao Rio de Janeiro. A agropecuária estava atrelada aos interesses de desenvolvimento de Portugal. A pesca podia ser praticada para atender às necessidades locais dos pobres, mas nunca para desenvolver a região. Até hoje, ela é vista com os mesmos olhos de há quase quatrocentos anos: uma economia tradicional, paralela e subalterna, com alcance apenas local.
Mas, André Martins da Palma quer ser mais convincente para a coroa portuguesa. Não bastava acenar ao rei com riquezas oriundas da agropecuária. O que as monarquias europeias mais desejavam eram metais preciosos. Pero Vaz de Caminha acena com ouro e prata para atrair os olhos do rei para o Brasil em sua carta de registro da chegada ao Brasil. André Martins da Palma faz o mesmo em relação ao futuro norte fluminense: “Há mais no sertão muitas minas de prata e ouro...”.
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GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2
02/05/2017 | 09h29
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 02 de maio de 2017
(TRÊS MATEUSINHOS)
GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 2
Modernidade comprimida
Edgar Vianna de Andrade
Em 37 anos, passa-se da fita cassete para a conquista da galáxia sem que se esqueça o passado. “Guardiões da galáxia vol. 2”, filme roteirizado dirigido por James Gunn (II), tem por base personagens criados por Stan Lee, responsável pelos heróis da Marvel. Os cinco integrantes do grupo de guardiões são típicos personagens de Lee: seres divididos, sem muitos escrúpulos, meio mercenários, mas quase unidos por laços de família. No caso de Peter Quill (Chis Pratt) e Gamora (Zoe Saldana), por um amor enrustido. “Implícito”, como ambos o tratam. O grupo é estranhamente constituído de um semideus, uma mulher com poderes sobre-humanos, um homem extremamente forte (Drax – Dave Bautista), um guaxinim superperigoso e um vegetal.
Em plena atividade mercenária, no espaço da galáxia, a ação é acompanhada de melodias anteriores a 1980, ano em que começa a história, executadas em long-play e em cassetes. Entre 1980 e 2017, etapas são queimadas. No curso de minha vida, percebi aceleração nas transformações nas décadas de 1960 e de 1990. Nunca algo como no filme. Assim, a modernidade se comprime, a ponto de, no curso de uma vida, partir-se de tecnologias hoje superadas para uma nova expansão territorial, agora não mais sobre oceanos, permitindo alcançar continentes, mas no plano espacial, permitindo alcançar a galáxia.
O filme tem um ambiente parecido com o de “Guerra nas estrelas”: povos diversos em contato, vigaristas, ladrões, assassinos, monarcas, sacerdotes... Foi assim por ocasião da expansão marítima. Ainda não deixou de ser um pouco assim, apesar da ocidentalização uniformizadora do mundo. E dinheiro, muito dinheiro a mover as ações de humanos e não humanos.
Não foram necessários mais de dois filmes da franquia para que aparecesse o pai do abandonado e sequestrado Peter Quill. Trata-se de Ego (Kurt Russell), novamente com desempenho excelente. Trabalhando quase ao longo do filme, ele rouba a cena, representando um personagem poderoso, extremamente ambicioso e ególatra. Ele se assemelha a muitos empresários e políticos da Terra. Um Napoleão, um Stalin, um Hitler, um Trump, um Eike Batista... Personagens bem típicos do ocidente moderno. Avança-se no tempo e no espaço, mas os padrões são os mesmos.
Nos seus 137 minutos, o filme cansa. Pelo menos, cansei-me das fórmulas surradas, dos resultados previsíveis, do humor fácil. Na verdade, trata-se de uma ficção científica cômica. Mas a crítica da grande imprensa o avaliou como muito bom e ótimo. Na minha avaliação, trata-se de um filme razoável. Assisti-o numa sessão apinhada de jovens e de adultos com espírito adolescente. Público de gosto e riso fáceis e de pouca exigência. Público que se contenta com pilotos automáticos que tornam secundários roteiro e direção. Efeitos especiais em profusão, sem qualquer preocupação e dosá-los. Quase ninguém hoje estranha tais filmes. O estranho sou eu. Daí uma avaliação menor que a corrente e maior que minha sensibilidade.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IV)
30/04/2017 | 10h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 30 de abril de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IV)
Arthur Soffiati
 
André Martins da Palma saiu do Rio de Janeiro em direção a Campos na segunda metade do século XVII por motivo de castigo. Durante sua permanência, ele procurou conhecer as terras da baixada e escrever um projeto para promover o seu desenvolvimento. Que se saiba, é o primeiro documento em que figura a palavra “desenvolvimento”. O título do projeto é “Representação sobre os meios de promover a povoação e desenvolvimento dos campos dos Goitacazes em 1657”, publicado na “Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil” tomo XLVII, parte I. Rio de Janeiro: Laemmert, 1884.
O autor observou o ambiente natural da região e notou a fertilidade da terra: “... pela muita fertilidade da terra há nela muitos canaviais de canas de açúcar e a terra em si com tanto assento para engenhos de água que todos se meterão no emprego delas...”. O rio Paraíba do Sul não podia lhe passar despercebido: “... rio tão grandioso que poderá mover mil engenhos sem lhes fazer falta água, carnes, lenhas, por tudo ser em tanta abundância, e a terra tão fecunda que para tudo há sem detrimento...”
A lagoa Feia o impressionou: “Há uma alagoa muito grande para a comunicação dos povos vizinhos, que, sendo de água doce, se não vê terra, navegando-se por muitos dias, e é tão dilatada que por um mês e mais se não corre. Nesta pode V. Majestade mandar, que fazendo-se povoações, se cultivem, podendo-se pôr nela grandes moinhos, com o que haja dilatadas searas de trigo pela terra e dar em muita abundância, e crescendo os moradores nela importarão muita fazenda à real coroa de V. Majestade pela brevidade do comércio, em razão de ser por mar e vir sair duas léguas de sítio, em que advirto a V. Majestade se faça a cidade, além de muitos currais que crescerão com as ditas povoações, importando só o dízimo deles em grande número de dinheiro...” Parece que Palma não navegou a lagoa. Ela era, de fato, enorme, com mais de 400 km², mas não exigia um mês para ser cruzada. É curioso que o autor proponha o cultivo de trigo em terras ocupadas por cana e gado.
Ele também registra a existência de florestas, provavelmente na margem esquerda do grande rio: “tem V. Majestade grandes e dilatados matos de pau de jacarandá, a que chamam pau del rei, que só de direitos, havendo navegação, importará em muitos mil cruzados.” E de índios, que viviam ainda em Campos: “... primeiro que tudo, se celebre e só se catequizem os pagãos gentios, para que, alumiados com o leite da santa fé, fique fácil o poder de domá-los à vista dos reduzidos a ela...”
Colonos de origem europeia e mestiços já ocupavam a região com plantação de cana e criação de gado. Já existia a vila de Campos. Entre 1632, primeira viagem dos Sete Capitães, e 1657, data da representação de Palma, o crescimento foi rápido. Já havia vários engenhos de açúcar e de aguardente instalados.
O estrangeiro propunha ao rei de Portugal auferir “... grandes lucros, que sua real fazenda pode tirar com pouco cabedal e dispêndios nestes campos dos Goitacazes.” Era preciso, antes de tudo, dominar os índios. Palma revela que “...treze anos (...) gastei no propagamento do gentio indômito, que senhoreava estes campos (...) domei a maior parte de todo ele (que) vêm hoje ao resgate, trazendo suas mercancias de cera, mel e mais lavouras da terra, a que sua indústria chega para com elas lavrar a terra e fazer roçarias, que é o pão da terra.”
Embora definitivamente expulsos do Brasil, os holandeses ainda eram vistos como ameaça. Daí o conselho: “V. Majestade deve mandar obrar por provisões suas, pondo ministro de sua real fazenda (...) na barra deste rio (Paraíba do Sul) se faça uma fortaleza real com sua artilharia, que resguarde dela e do inimigo holandês que infecciona esta costa, e não vir a entrar por ela a ser senhor de um tão grande tesouro”.
A necessidade de um forte na foz do rio era completada com o erguimento de um núcleo urbano: “à boca da barra se faça uma vila com suas justiças para as entradas de embarcações (...)” Ao parecer de Palma, Campos já merecia ser elevada à condição de cidade: “onde hoje temos ainda povoação, seja cidade com superioridade de jurisdição sobre a dita vila por ser distante dela mais de 8 léguas, com capitão major independente do governo do Rio de Janeiro.” No fim do século XVIII, Campos não havia alcançado ainda o estatuto de cidade, mas era o centro do Distrito dos Campos Goitacazes.
A preocupação de André Martins da Palma era ganhar muito dinheiro gastando pouco, preocupação da Coroa Portuguesa desde o início da colonização do Brasil: “Os moradores da dita vila ou cidade, aonde há grande número de criadores de gado vacum, concorrerão todos na obra da grande fortaleza à vista do grande interesse que estas terras prometem pela abundância de sua fertilidade e só com V. Majestade mandar um navio carregado de ferro e artilharia bastante para a dita fortaleza, na qual mandará V. Majestade pôr capitão maior com seu soldo sem que a fazenda de V. Majestade diminua de coisa alguma, antes maiores acrescentamentos dela.”
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Vida perigosa
25/04/2017 | 09h34
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 24 de abril de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
“Vida”
Vida perigosa
Edgar Vianna de Andrade
 
Ainda hoje, é muito comum a vitória dos humanos contra a natureza e as máquinas em filmes provenientes dos Estados Unidos. Há um caráter triunfalista, já superado, mostrando que, apesar das batalhas colossais, o ser humano sempre encontra, no fundo da sua Inteligência, um recurso para derrotar a vida e as máquinas que o ameaçam.
“Vida”, com direção de Daniel Espinosa e roteiro de Rhett Reese e Paulo Wernick, alerta para os limites dos projetos humanos. Uma equipe internacional de astronautas trabalha numa estação espacial com material colhido em Marte. Impressionante o fascínio que Marte ainda exerce na imaginação humana. Por mais que os cientistas tenham descoberto planetas extrassolares com possíveis condições de habitabilidade humana, os astros do nosso sistema solar continuam espicaçando nossa imaginação.
Na verdade, não é preciso ir muito longe para encontrar limites. A equipe multidisciplinar de astronautas encontra vida no material colhido em marte. Um simples organismo unicelular, um protozoário, para gerar uma distopia. Muita alegria da equipe com o achado. Informações enviadas à Terra. Participação de crianças e adolescentes na descoberta. O ser vivo é batizado de Calvin. Um ser microscópico, lindo e inofensivo aos poucos se transforma numa espécies de polvo, matando com seus tentáculos a tripulação da estação.
Pareceu um pouco exagerada a capacidade de sobrevivência de um ser vivo a condições extremas. Ele é mesmo um extremófilo, um organismo com resistência superior preparado para enfrentar as mais ingentes vicissitudes, como um tardígrado, por exemplo.
Quanto ao gênero do filme, não há muitas novidades. Um grupo de pessoas escolhidas para a missão. Muita tecnologia dentro da estação e na produção do filme. Um grupo pequeno de atores, representando Estados Unidos, Rússia e China. Uma equipe só concebível em missões científicas, sobretudo fora da Terra. Há muito dos filmes do gênero. Calvin é uma espécie do monstro de “Alien”, que rendeu uma franquia e que está de volta em breve.
Há algo mais, porém, algo ecológico, algo alertando quanto ao perigo de introdução de espécies de um ecossistema em outro. Algo alertando quanto ao risco das doenças transmissíveis. Algo chamando a atenção sobre o processo de globalização que, depois de engolfar a Terra com seus tentáculos, parte para o espaço. Já existem filmes abordando os perigos, mas também as maravilhas de levar a globalização a outros planetas. Este é o tema central de “Passageiros”, lançado neste ano de 2017. Contudo, apesar das agruras vividas por um casal dentro de uma fabulosa nave, “Passageiros” tem um final feliz. “Vida” é pessimista. Na nave, há tripulantes que amam a Terra, a despeito dos problemas que os humanos criaram para si e para ela. Há tripulantes que não desejam retorno.
E o final não é feliz. Na verdade, o que impera é o erro. Morin já alertou para o erro de subestimar o erro dentro da complexidade. O fim de “Vida” enfatiza o erro como algo humano, como algo intrínseco à própria vida. O erro do fim parece uma piada. Mas uma piada trágica.
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No olho do furacão
23/04/2017 | 11h09
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 23 de abril de 2017
No olho do furacão
Arthur Soffiati
 
Suponhamos que os Estados Unidos pressionem tanto a Coreia do Norte que ela, irresponsavelmente, lance seus poucos mísseis com ogivas nucleares em direção à costa oeste do grande país americano. Suponhamos que os Estados Unidos revide o ataque com bombas mães do tipo da lançada sobre o Afeganistão numa demonstração de força para o mundo. Imaginemos ainda que os mísseis norte-coreanos sejam interceptados pelos antimísseis dos Estados Unidos. Tudo explodiria no ar.
Não se trata de um exercício fútil de imaginação, mas sim de realidade. Nenhum governante queria começar a Primeira Guerra Mundial, mas ela foi deflagrada. No caso de uma guerra iniciada por Estados Unidos e Coreia do Norte, outros países, como China a Rússia, poderiam ser arrastados para ela. O mundo esteve perto de uma terceira guerra mundial com a crise dos mísseis de Cuba, em 1962. Está perto de outra com a crise da Coreia do Norte.
O mundo não acabaria nem a humanidade seria extinta com uma guerra nuclear entre um grande e um pequeno país, mas todos sofreriam muito. Assuntos em primeiro plano, como a Operação Lava Jato, o avanço da direita na Europa, a guerra na Síria, o conflito entre Israel e Palestina, a sultanização da Turquia, o drama dos refugiados passariam para segundo ou terceiro plano. Os próprios loucos Donald Trump e Kim Jong-un perderiam importância. As súplicas do Papa e de outros líderes religiosos tornar-se-iam inúteis.
E pensar que o mundo em que vivemos começou a ser construído há seiscentos anos, na Europa Ocidental com a expansão marítima... As armas usadas então eram insignificantes perto das atuais. Basicamente, os europeus contavam com a caravela e a pólvora, nada tão diferente do que tinham outras civilizações. O que impulsionava os europeus era algo inédito na história: um sistema de produção objetivando o lucro. Os textos dos séculos XV e XVI já estão recheados de temas que nos são muito comuns atualmente: dinheiro, lucro, desigualdade social, corrupção...
A caravela, a pólvora e o capitalismo foram se aprimorando com o avançar do tempo. Hoje, contamos com caravelas super-velozes, com caravelas que navegam em baixo d’água, com caravelas que voam, com caravelas que transportam aeroportos. Também com armas altamente letais. E também com grandes organizações voltadas para o lucro. Podemos nos indignar com escândalos, mas não devemos nos surpreender. As delações de diretores da Odebrecht mostram que o capitalismo usa de todos os meios para alcançar lucros. Mesmo que uma empresa não recorra à propina, a tendência para tal está embutida nela. É muito difícil, senão impossível, conciliar economia de mercado com ética.
Apesar de tudo, uma guerra entre um grande e um pequeno país poderiam arrastar todas as atenções para ela e mostrar que, a partir do século XV, começou uma rota de colisão entre países, entre culturas e com a natureza. Tal rota é irracional. Uma guerra no século XVIII matava muitas pessoas, arrasava campos e cidades, mas não acabava com um país, com a natureza. Naquele tempo, uma guerra gerava lucros com a destruição e com a reconstrução, como acontece com as guerras da atualidade. Uma guerra nuclear nos dias de hoje será também lucrativa em se tratando da venda de armamentos. Será lucrativa na reconstrução? Se for, ela gerará muitos lucros, mas será demorada e causará um estrago bem próximo do ponto de não retorno. Os entusiastas do desenvolvimentismo e do progresso não gostam ou não conseguem enxergar que o desenvolvimento e o progresso tão defendidos por países, empresas e pessoas não trazem o bem geral, mas beneficiam empresas e políticos, além de serem contra produtivos.
O uso bélico de armas nucleares atualmente seria mais arrasador que as duas bombas atômicas lançadas sobre o Japão em 1945. Explodindo no solo ou na atmosfera, bombas atômicas afetariam o mundo todo e agravariam mais ainda os problemas que nos afligem.
Se minhas palavras foram entendidas pelo possível leitor, pense-se agora que uma destruição pior está em marcha desde o século XV. Ela não mata apenas humanos, mas também outros seres e os componentes da Terra. Ela é lenta. Destrói em doses homeopáticas, até mesmo imperceptíveis, ao longo de centenas de anos. Seus efeitos estão sobre nossas cabeças, mas não consideramos que sejam significativos. No final das contas, os ricos ficam mais ricos com essa eclosão de pequenas bombas nucleares. Os pobres acabam também sendo lançados no campo de batalha como soldados.
Uma longuíssima guerra de seis séculos foi deflagrada no século XV, atravessa todas as guerras registradas na história e se avoluma cada vez mais. Apesar dos sinais, não acreditamos nesse tão grave conflito.
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Fera ferida
18/04/2017 | 09h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 18 de abril de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
A bela e a fera
Fera ferida
Edgar Vianna de Andrade
 
Não faz muito tempo, pesquisas concluíram que a história da bela e da fera é uma das mais antigas do mundo. Ela teria sido criada pelas tradições populares. Faz sentido. Uma moça bela que se apaixona por uma fera sem saber que, outrora, ela foi um lindo e rico príncipe. O componente da história tem alta voltagem erótica, como outras histórias populares. Mas todas elas foram domesticadas por razões morais pouco antes e durante o movimento romântico.
Gabrielle-Suzanne Barbot e Jeanne-Marie le Prince de Beaumnot incumbiram-se de domesticá-la e deixá-la para o estúdio da Disney/Buena Vista, que colocou à disposição de Bill Condon, seu diretor, todos seus recursos técnicos e financeiros para realizar uma superprodução que superasse a animação de mesmo título e mesmo estúdio lançada em 1991.
Creio que Emma Watson não foi a melhor escolha para representar a Bela. Ela não tem perfil para tanto. É baixa, magra e tem rostinho de buldogue. É bem verdade que a Bela não é uma princesa de sangue. Começou como filha de mercador e se transformou em filha de nobre no século XVIII. Na animação e no filme, volta a ser uma moça pobre, bela, intelectual, sonhadora e filha de um inventor considerado maluco. Gaston (Luke Evans), um homem rude, é apaixonado por ela e se considera irresistível por ser forte e másculo. Bela o recusa. Tanto o pai quanto a filha acabam no estranho palácio habitado por um animal amaldiçoado, desempenhado por Dan Stevens.
A fera da animação em estilo tradicional é mais coerente. Todo seu corpo caracteriza um carnívoro. No filme, ela é um carnívoro com chifres de herbívoro. Mas na fantasia cabe tudo. No desenho, Lumière é um candelabro francês galante e conquistador que não poupa nem mulher casada. No filme, o roteiro foi mantido, mas o conquistador foi substituído por um homossexual bajulador de Gaston. Trata-se de LeFou (Jash Gad), também bajulador no desenho, mas não gay.
O filme escala ainda Kevin Kline, Ewan McGregor, Emma Thompson e Audra McDonald. O roteiro de Evan Spiliotopoulos e Stepehn Chbosky é prudente. Quase não destoa do desenho. Idem para a trilha sonora. Em time que está vencendo, não se mexe. A produção rivaliza com a animação. Muita riqueza, muito luxo e muita alegria. A Bela do conto está entre as princesas da primeira geração e as da terceira. As da primeira representam a mulher que era criada para o casamento, que vivia em função de um homem, sempre desejado como príncipe. As da terceira, não procuram por homens que possam amar. A geração intermediária não está atrás de casamento, mas não está fechada para o amor.
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Meu mal-estar na globalização
16/04/2017 | 10h10
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 16 de abril de 2017
Meu mal-estar na globalização
Arthur Soffiati
 
Nasci em 1947, no quinto século da globalização. É preciso explicar o que entendo por esta palavra. A globalização não é um projeto nascido de um acordo entre as culturas existentes no mundo no século XV. Se houvesse um acordo dessa natureza, talvez o chinês ou japonês, uma língua indiana, o árabe ou o iraniano, o russo, o mexicano e o quéchua tivessem a mesma importância que o inglês.
A globalização não foi promovida pelo Japão, China, Índia, mundo árabe, Rússia, Peru ou México, mas pela Europa ocidental. Daí, o conteúdo da globalização ser europeu ocidental. Também não nasceu por aceitação das demais culturas, mas por imposição de uma cultura sobre as outras. E essa cultura que se impôs ao mundo era e continua sendo impulsionada pelo lucro. No seu alvorecer, ela contou com o forte apelo da conversão de outros povos ao catolicismo romano. Mas não era esse o seu caráter mais profundo. Tanto assim, que a religião não é mais usada como motivação para conquistas e guerras. Portanto, a globalização equivale à ocidentalização do mundo e esta tem como elemento propulsor a economia de mercado.
Nasci num ano não muito feliz. Em 1947, o Fundo Monetário Internacional iniciou suas operações. Também Truman, presidente dos Estados Unidos, anunciou a doutrina que leva seu nome, dando início à guerra fria. Registrou-se também a independência da Índia em relação ao Reino Unido, tendo como líder Mahatma Gandhi, que percebeu como poucos o sentido da ocidentalização do mundo. Ele sonhava em libertar a Índia não apenas do jugo político britânico, mas também da cultura ocidental. Ele queria o retorno da Índia às suas tradições. Seu sonho era a contra aculturação. Não deu certo. Hoje, a Índia profunda ainda é hinduísta, mas as elites são ocidentalizadas.
Nasci no Brasil, periferia do ocidente. Nasci, cresci e me aproximo da morte numa Europa mestiça. Sinto um desconforto muito grande no meu lugar e tempo. Creio que gostaria do lugar onde nasci se fosse antes do século XV. Eu viveria num grupo indígena e talvez praticasse o canibalismo ritual. Acreditaria que humanos e animais têm alma e que todas as almas sobrevivem à morte. Talvez eu fosse abatido em guerra e tivesse minha carne devorada pelos inimigos. Talvez eu morresse jovem ainda para os padrões ocidentais, que prolongam cada vez mais a expectativa de vida das pessoas. Eu não me importaria, pois desconheceria outros modos de viver.
Mas eu seria íntegro de corpo e alma. O ocidente invocou muito o cristianismo para justificar suas conquistas, mas dessacralizou o mundo. Hoje, a ocidentalização continua, mas não se invocam mais motivos religiosos para justificá-la. Nem mesmo o marxismo, uma forma laica de cristianismo, tem mais apelo. Agora, o que está valendo é o liberalismo na sua forma líquida quase gasosa. Não gosto desse mundo. Nasci nele por acidente. Eu queria nascer numa época pré-ocidentalização. Mas não posso negar que sou fruto da ocidentalização. Eu gostaria de ter uma crença religiosa e de viver religiosamente. De ter certezas, mas só tenho dúvidas. Nem ateu eu consigo ser, pois o ateu tem certeza da inexistência de Deus.
Eu gostaria de crer numa outra vida e de morrer com essa crença. Mas eu não gostaria de nascer em qualquer lugar antes da ocidentalização do mundo. Acho que, por motivos muito íntimos, sou tolerante. Por isso, eu não gostaria de ser judaísta, cristão ou muçulmano num tempo em que as civilizações eram íntegras. Eu abominaria matar ou aplaudir a morte de alguém por ter convicções diferentes das minhas. Eu queria crer e deixar que os outros tivessem suas crenças. Quando externo minhas inquietações a alguém, recebo como resposta que devo crer em Deus com fé, como se bastasse o meu desejo para uma conversão na reta final da minha vida. Ou então os entusiastas da modernidade me dizem que eu devia ficar contente com meu tempo, já que não existem mais preconceitos e perseguição religiosa. Será? Que eu devia me alegrar com as conquistas da ciência. Não sinto a mínima falta de saber que o Universo tem um começo e uma história, assim como a vida é fruto da evolução. Esses conhecimentos em nada me ajudam a viver, mas, se vivo, atualmente, num mundo laicizado, não posso prescindir de tais conhecimentos.
Creio que eu gostaria de viver na China antes da globalização, sendo um taoísta convicto. Eu acreditaria que o ser humano é o terceiro elemento, o responsável pelo equilíbrio da natureza. Eu teria uma vida recolhida, uma vida de sábio. Mas ainda assim não teria certezas absolutas que afastassem minhas dúvidas sobre o metafísico. Mas seria melhor viver nesse mundo do que no nosso, que não é o melhor dos mundos, como diria Dr. Pangloss, o célebre personagem de Voltaire, otimista incorrigível. Nosso mundo está povoado de Pangloss, o que muito me atemoriza. Tenho um sonho impossível: voltar ao passado como Woody Allen em “Meia-noite em Paris”, mas não a qualquer passado, e não ser fragmentado como sou. Ansioso como sou.
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Sobre o autor

Aristides Soffiati

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