Mulheres assumem papel de destaque na segurança pública de Campos
Catarine Barreto 08/03/2023 08:11 - Atualizado em 08/03/2023 08:52
  • Delegada Pollyana Henriques

    Delegada Pollyana Henriques

  • Adriana Karkow

    Adriana Karkow

  • Madeleine Dykeman

    Madeleine Dykeman

Na semana do Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta quarta-feira, dia 8 de março, dois crimes de feminicídios comoveram a população de Campos. Nos dois casos, um solucionado em menos de 24 horas e o outro com dois homens presos pelo crime, as ações foram dirigidas por mulheres, sendo elas a titular da 146ª Delegacia de Polícia (Guarus) Polyana Henriques e a titular da 134ª Delegacia de Polícia (Centro), Natália Patrão. Além disso, em um dos casos, a Delegacia Especializada de Atendimento a Mulher (Deam-Campos), participou das diligências através da titular, Madeleine Dykeman.
As investigações relacionadas a execução de Letycia Peixoto da Fonseca, de 31 anos, na noite de quinta-feira (02), no Parque Aurora, teve um desfecho. A grávida de oito meses foi morta a tiros dentro de um carro por dois homens em uma moto.
Na sequência, policiais civis da 146ª DP com apoio da Deam, Polícia Militar (PM) e Polícia Rodoviária Federal (PRF), prenderam o principal suspeito pela morte de Flaviana Teixeira de Lima, de 23 anos, morta a facadas dentro de seu bar em Travessão, na madrugada de domingo (05).
Nos dois casos, as delegadas apresentaram soluções rápidas com a prisão de todos os envolvidos no caso Letycia e com a prisão do principal suspeito pela morte de Flaviana. Uma das delegadas que mostrou seu trabalho e solucionou o caso de feminicídio em Travessão foi Polyana Henriques. Delegada desde 2013, Polyana assumiu uma grande responsabilidade em se tornar a titular da Delegacia de Polícia de Guarus, onde se concentra o maior número de casos de crimes relacionados a guerra entre facções na cidade.
Mesmo lidando com uma realidade complexa de violência, conta nunca ter sofrido preconceito por ser mulher. Polyana destacou que embora não haja um preconceito em relação a mulher, a sociedade passa por um momento onde existe um padrão, principalmente nas carreiras policiais, que está sendo desconfigurado.
— Embora não haja preconceito em relação a figura da mulher, a sociedade como um todo, ainda está se adequando a questão da feminilidade, porque muitas vezes nós olhamos para trás e observamos que muitas mulheres da Polícia Civil principalmente ocupando o cargo de chefia, elas acabam abrindo mão da feminilidade delas, da vaidade, da elegância delas, para não ser uma figura tão chocante dentro desses órgãos policiais. Então hoje em dia, a fase do processo que eu considero estar vivendo é essa — destacou.
A delegada contou sobre seu trabalho desenvolvido à frente da 146ª DP e dos grandes resultados que obteve desde que assumiu a titularidade no final de 2022.”Temos hoje a redução do número de homicídios tentados e consumados em 45%, no primeiro bimentre deste ano, são os menores números dos últimos 20 anos desde 2003. Além disso, temos o número de elucidação de autorias seja parcial ou total, de 85%, também em 2023. Então por mais que exista esse preconceito na sociedade, os números falam por si”, destaca.
Além disso, também existe um trabalho importante desenvolvido pela Deam em casos de violência contra mulher, delegacia comandada por Madeleine. Delegada da Polícia Civil há 15 anos, ela contou sobre sua trajetória dentro da instituição. "Comecei minha trajetória na capital, trabalhando em algumas delegacias da Zona Norte e em 2011 voltei para Campos, minha cidade natal, e aqui eu fiquei um tempo como adjunta da Delegacia de Polícia de Guarus e em seguida assumi a titularidade na Delegacia de São João da Barra, onde fiquei por longos anos. Depois desse período eu fui para Quissamã e depois de lá, eu voltei para atender ao plantão da Delegacia de Polícia do Centro e posteriormente assumi como adjunta em Guarus e atualmente estou como titular da Deam- Campos", contou.
Madeleine falou sobre os desafios que este novo ciclo de trabalho apresenta. A Deam-Campos é especializada no atendimento a mulheres vítimas de violência e requer um cuidado ainda maior com a vítimas que procuram a unidade. "É um desafio diferente de todos as delegacias distritais. Eu costumo dizer que quando alguém é assaltado e vai a delegacia, ela vai se restringir a contar aquele fato. A mulher que é vítima de uma violência doméstica, quando ela tem coragem de vir até a delegacia, provavelmente ela já vem sofrendo violência há muito tempo ou há anos. E esse momento que ela vem aqui fazer essa catarse é muito mais complexo do que o registro comum", disse.
Até o fechamento, a Folha não conseguiu o retorno da delegada Natália Patrão. Natália, na noite desta terça, finalizou as investigações do caso Letycia, com a prisão de cinco envolvidos.
Policial relata uma situação de “machismo”
Além das delegadas de Campos, as mulheres também ocupam cargos em outros órgãos de segurança pública na cidade, como na Polícia Rodoviária Federal (PRF). Adriana Karkow é uma dessa mulheres que atuam no combate aos crimes cometidos no âmbito que cobre a BR 101 e BR 356. São 10 anos de serviço público na área da segurança, sendo oito anos e 11 meses na Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), como policial penal e um ano e dois meses na PRF.
— Trabalhei no Presídio Carlos Tinoco da Fonseca, na Casa De Custodia Dalton Crespo De Castro e no Presídio Feminino Nilza da Silva Santos, todos de Campos, minha cidade natal, antes de entrar na PRF, onde entrei através do concurso de 2021, e consegui ser lotada inicialmente em São Gonçalo, na delegacia de Niterói e depois vim para a delegacia de Campos — contou.
Adriana trabalha no regime de plantão e no setor de comunicação da delegacia de Campos. Ela conta que nunca sofreu preconceito por parte dos colegas, mas sente que precisa se impor para obter o respeito com os usuários das rodovias.
— A PRF é uma instituição que respeita muito os direitos das mulheres e preza muito pela igualdade e isso é espelhado em seus profissionais. Porém, nós sentimos uma diferença no trabalho com o usuário das rodovias. Então, a população em geral, ela tem sim um machismo estruturado e isso faz com que ao estar trabalhando ao lado de um policial homem, eu sinto uma diferença na abordagem do usuário que vem pedir alguma informação, por exemplo. Muitas vezes ele vê uma policial mulher ali e prefere pedir informações ao policial homem. Infelizmente, nós como mulheres, ocupando esses cargos que são cargos vistos pela sociedade como sendo para homem, estando ali como minoria, porque nós somos minoria, temos que nos impor mais. O que eu sinto de percepção pessoal, é que eu tenho que impor mais o meu respeito, a minha entonação ao falar com uma pessoa que esteja me desrespeitando em um momento de abordagem por exemplo — disse.
Ela contou um caso que à marcou durante o trabalho. “Eu estava fazendo uma fiscalização na BR 356, estrada que liga Campos a São João da Barra, e estava fiscalizando um veículo e meu colega estava na minha retaguarda. Em determinado momento, parou um outro veículo no acostamento, onde uma senhora desceu e veio na minha direção. Eu estava olhando para ela, mas a mesma passou reto e não parou para falar comigo e foi direto ao meu colega que estava fazendo a minha retaguarda. Por estar fazendo a minha segurança, ele não pode se distrair, falar com alguém, ele tem que estar ali fazendo a segurança do local. Perguntei para ela se ela queria alguma informação e ela veio e disse que iria falar com o policial. Eu informei que poderia passar a informação para ela, porque eu também era uma policial e assim foi feito. Isso é reflexo do machismo social porque ela não enxergou que eu também era uma policial e que poderia atender à solicitação dela — relatou. 

Ações em Campos marcam o Dia Internacional da Mulher

De acordo com as informações passadas pela Prefeitura de Campos, várias ações estão sendo realizadas na cidade. Entre as ações desenvolvidas pelas secretarias municipais pelo Dia Internacional da Mulher, a Subsecretaria de Políticas para Mulheres, em parceria com o programa Empoderadas, promove para as assistidas, nesta quarta-feira (8), palestras, aulas de defesa pessoal e um espaço de beleza no Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam), a partir das 13h.

Nesta quarta, haverá às 10h uma palestra na Deam, sobre “violência contra as mulheres e meninas” com a delegada Madeleine Dykeman; às 13h evento Ceam para assistidos e para alunas do Programa Empoderadas com tarde de beleza, palestras, dinâmicas, aula de ritmos e lanche. Já às 21h um Podcast Goytacast falando sobre o dia da mulher.

A subsecretária da pasta, Josiane Viana, explica que o Ceam promove acolhimento e atendimento especializado para fortalecimento da mulher em situações de violência e construção de cidadania. “É bom lembrar que a subsecretaria trabalha com a mulher em sua totalidade, independentemente de ser vítima de violência doméstica. Somos referência para encaminhamento e orientação para as mulheres que precisam de nosso apoio, seja na área da saúde, qualificação ou jurídico”.
 

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