*Felipe Fernandes
- Atualizado em 14/10/2026 07:56
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Filme: Louca obsessão - Lançado em 1987, Angústia (Misery, no original) chegou às livrarias com uma tiragem bastante alta, comprovação de que, já naquela época, Stephen King era um fenômeno literário. O autor sempre teve uma relação particular com o sucesso e chegou até mesmo a criar um pseudônimo para pôr à prova se suas altas vendas estavam atreladas ao seu nome. O livro rapidamente chegou aos cinemas: Louca Obsessão foi lançado três anos depois, um suspense claustrofóbico e intimista que traz a relação entre obra, autor e público como peças centrais.
Existe uma crítica bem interessante por trás da relação entre o autor, seja de que obra for, e seu público (fã). Paul começa como refém antes mesmo do acidente. Ele é refém do sucesso e da necessidade de prosseguir uma história que o paralisa enquanto autor, mas sustenta sua bem-sucedida carreira. Portanto, encerrar essa história funciona como um ato de libertação.
Quando sofre o acidente e é salvo por Annie, ele acaba encarcerado em outra situação, muito mais complexa. Annie acredita conhecer Paul porque conhece seus livros. Ela constrói uma intimidade imaginária com o autor e, a partir dela, sente-se autorizada a determinar suas escolhas.
A violência física do filme pode ser entendida como a manifestação extrema de uma violência simbólica: a tentativa de retirar do artista o direito de decidir o que fazer com sua própria criação. É a máxima de que, uma vez lançada, a obra deixa de ser do autor e passa a ser do público, levada às últimas consequências.
Gosto de como toda aquela situação ganha, gradativamente, outros contornos, com a amável Annie revelando aos poucos sua natureza violenta e controladora. Nesse sentido, o longa é um grande embate entre dois excelentes atores, que apresentam atuações fantásticas em um espaço limitado e uma situação muito particular.
O experiente James Caan constrói um personagem fascinante com muito pouco com que trabalhar, já que Paul passa praticamente todo o filme deitado sobre uma cama. Mas o grande destaque fica por conta da atuação de Kathy Bates. Sua aparente cordialidade, seus modos infantis e sua devoção exagerada coexistem com uma violência assustadora. A atriz consegue passar de uma expressão afetuosa para uma explosão de fúria sem que a personagem perca a coerência.
Conforme a situação se estabelece, a escrita do novo livro passa a ser um elemento de sobrevivência. Mais uma vez, surge uma metalinguagem interessante sobre a condição do escritor e a disputa pelo controle da narrativa.
No fim, Louca Obsessão é um comentário sobre a perigosa transformação da admiração em posse. A casa se torna a prisão física, enquanto o livro que Paul é obrigado a escrever representa a prisão criativa. O artista pode ser capturado não apenas pelo corpo, mas também pelas expectativas daqueles que acreditam ter direito sobre sua criação. É justamente quando Paul recupera o controle da narrativa que começa a recuperar o controle sobre si mesmo.