A VERDADE NÃO TEM DONO
Evandro Barros

Há uma expressão que se tornou bastante comum em nossos dias: “Essa é a minha verdade”. Frequentemente utilizada para encerrar discussões, ela revela um problema filosófico fundamental: a verdade pertence a alguém ou existe independentemente das nossas opiniões?

Vivemos em uma sociedade na qual todos parecem ter alguma coisa a dizer sobre política, religião, ciência e justiça. Entretanto, o direito de manifestar uma opinião não transforma essa opinião em verdade. A realidade não possui obrigação alguma de concordar conosco.

Desde a Antiguidade, os filósofos investigam essa questão. Aristóteles, na Metafísica, apresenta uma concepção segundo a qual uma afirmação é verdadeira quando corresponde àquilo que efetivamente é, e falsa quando atribui à realidade uma condição que ela não possui. O filósofo também desenvolve o princípio da não contradição, segundo o qual uma mesma propriedade não pode pertencer e não pertencer simultaneamente a um mesmo sujeito, sob o mesmo aspecto.
Assim, duas pessoas podem apresentar opiniões contraditórias sobre determinado acontecimento, mas a existência dessas opiniões não significa que ambas estejam corretas. Será necessário examinar os fatos para descobrir qual interpretação encontra respaldo na realidade.

Séculos depois, Tomás de Aquino aprofundou essa compreensão ao apresentar a verdade como conformidade entre o intelecto e a coisa conhecida. Nosso pensamento é verdadeiro quando corresponde adequadamente à realidade investigada. Isso permite estabelecer uma distinção importante: acreditar sinceramente em alguma coisa não significa que ela seja verdadeira. A sinceridade de uma convicção não constitui prova de sua correção.
Entretanto, defender a existência de uma verdade objetiva não significa afirmar que o ser humano seja capaz de conhecê-la perfeitamente. Karl Popper, em Conjecturas e Refutações, demonstra a importância da crítica e da possibilidade de erro para o desenvolvimento do conhecimento científico. Nossas teorias podem ser provisórias e sujeitas à revisão, ainda que procurem explicar uma realidade independente delas.

Portanto, devemos distinguir três coisas: a realidade, que existe independentemente de nossas preferências; o conhecimento, que representa nossa tentativa de compreendê-la; e a opinião, que pode ou não corresponder aos fatos.
Também não devemos confundir pluralidade de interpretações com pluralidade de verdades contraditórias. Um historiador, um jurista e um economista podem analisar o mesmo acontecimento sob perspectivas diferentes. Essas abordagens podem ser complementares, desde que respeitem as evidências disponíveis.

A filósofa Hannah Arendt, em Verdade e Política, examinou a vulnerabilidade da verdade factual diante da manipulação política e da mentira organizada. Sua reflexão evidencia a importância dos fatos para a existência de um debate público responsável.
Essa preocupação também se aplica ao Direito. Como advogado, considero que a busca pela verdade constitui uma dimensão indispensável da Justiça. As partes podem apresentar versões diferentes de um acontecimento, mas o processo judicial exige investigação, produção de provas, contraditório e fundamentação racional. Embora o conhecimento processual possua limitações, a Justiça não pode ser reduzida às convicções subjetivas dos envolvidos.

O problema do nosso tempo não está na existência de opiniões diferentes, mas na crescente dificuldade de reconhecer que podemos estar errados. A liberdade de pensamento não nos dispensa da responsabilidade de fundamentar aquilo que afirmamos.

A verdadeira humildade intelectual não consiste em declarar que todas as opiniões são igualmente verdadeiras, mas em reconhecer que nossas próprias convicções devem permanecer abertas à investigação e à crítica.

A verdade não pertence ao filósofo, ao cientista, ao magistrado, ao governante ou a quem fala com maior segurança. Nenhuma autoridade humana possui o poder de transformar uma afirmação falsa em verdadeira simplesmente porque deseja que assim seja.

Podemos desconhecer a verdade, interpretá-la equivocadamente ou alcançar apenas uma compreensão parcial da realidade. O que não podemos é exigir que a realidade se transforme para concordar conosco.
A verdade não precisa de proprietários. Precisa de pessoas dispostas a procurá-la com honestidade, coragem e humildade.

REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannah. Truth and politics. The New Yorker, New York, 25 fev. 1967. Disponível em: https://www.newyorker.com/magazine/1967/02/25/truth-and-politics.
ARISTÓTELES. Metaphysics. Tradução de W. D. Ross. Livro IV, capítulos 3 e 7. Disponível em: https://classics.mit.edu/Aristotle/metaphysics.4.iv.html.
POPPER, Karl R. Conjectures and refutations: the growth of scientific knowledge. London: Routledge & Kegan Paul, 1963.
TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. Prima Pars, questão 16, artigos 1 e 2. Disponível em: https://www.newadvent.org/summa/1016.htm.

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    Sobre o autor

    Evandro Barros

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    Advogado, historiador, escritor (+ de 10 livros) e pesquisador, com especialização em Direito Tributário; mestre em Cognição e Linguagem e Doutorando em Políticas Sociais - UENF, com tese dedicada ao Licenciamento Ambiental. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Congonhas (MG).