Folha Letras - Poesia final
*Arthur Soffiati - Atualizado em 30/09/2026 07:54
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Arthur Soffiati*

... Tudo o que se disser a respeito dele deve ser colocado em dúvida. Primeiro
porque não se sabe se ele existiu. Segundo porque não há mais ninguém para duvidar
de ninguém. Ficou no ar uma brisa sobre seu interesse pela poesia de Manoel de
Barros. De fato, parece que ele (caso tenha mesmo existido) se dissolveu a água ou
se transformou em pedra. Depois, consta que passou a gostar (também ou apenas) de
João Cabral de Melo Neto. Ele teria se encantado por “Educação pela pedra”. Mais
uma vez, pairam dúvidas sobre sua existência e suas preferências. Cabe desconfiar
dessa breve página, pois não restou ninguém para escrever. Parece que estas linhas
foram escritas antes do fim, que também não se sabe qual. Dele (se é que houve),
restaram rochas, água, plantas, vermes, conchas. Elas desconhecem nossas
palavras. Ainda bem. Ou talvez não, num mundo em que não há quem diga e não há
quem ouça. Pelo menos, as palavras inventadas por um certo bicho.
As minhocas que caminham pelas estradas, agora sem asfalto e sem pedras,
têm encontrado papeis com rabiscos. Elas não sabem ler e os devoram. Transcrevem-
se algumas páginas para o futuro, sem nenhuma certeza de que haverá alguém para
ler.
Seguiu a trilha aberta por João Cabral de Melo Neto e Paulo Henriques Brito.
No final, encontrei uma clareira completamente desabitada. Não havia mais gente. Só
o espírito de Manoel de Barros, pedras, água, plantas de bichos. Eles estavam
iluminados pela luz da poesia e deles nasciam poemas.
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O eu se dilui
No mesmo lugar
Onde nasceu.
Não me nem mim,
Pois todo sujeito
Chega ao fim.
Não há mais ninguém
Que diga não ou sim.
*
Poema autocriado
Da água, da pedra, do ar
Para ninguém ler,
Pois não há mais ninguém.
O poema podia ser escrito
Em qualquer língua,
Com qualquer coisa,
De preferência na areia da praia

Para o mar apagar.
*
No poema sobre a mesa,
Há latidos e miados.
Não se sabe quem o escreveu.
Não existe mais quem
Para saber quem.
O cachorro e o gato
Também se foram.
O pó cobriu o poema
Com espessa pátina.
Esse poema não é este,
Escrito bem mais tarde
Não se sabe por quem.
É um poema sobre um poema.
*
Foi longo o tempo.
Já existia água,
Já existiam plantas
Sem flor.
Pululava a vida:
Eram pequenos animais
Nadando, andando, voando.
Eles habitavam o mais belo jardim
Já plantado na Terra.
Não foi nele que Deus
Criou Adão e Eva.
Foi bem antes.
Mas – que pena! –
Um dia ele acabou.
*
Não ontem, não hoje
Nem amanhã.
Não voltar ao passado,

Não ficar no presente,
Nem fugir para o futuro.
Apenas desabitar o tempo e o espaço.
*
Escrever por linhas tortas
Um torto poema, vazio.
Amontoar palavras a esmo,
Com significado,
Pois toda palavra tem sentido.
O todo, porém,
Não tem nexo.
Fica o dito pelo não dito.
*
Chegou a hora do poeta se recolher,
Talvez até de sumir.
Sutilmente, ele mergulha na escuridão
e se senta.
Desaparece a sua sombra.
Ele silencia para sempre.
Não há sequer pessoa;
Portanto, não há poema.
Ao entrar na caverna
Ele deixa seu corpo
E sua sombra,
Suas ideias e suas palavras.
O que foi dito está dito,
Seja em que língua for.
Ele deixou para trás
Apenas palavras,
Nada mais que palavras,
Signos verbais ou escritos
Em qualquer língua.
Sinais que não fazem mais sentido.
*

Ausentes os seres,
Ausentes os músculos,
Os nervos e os ossos,
cabe ouvir a pedra
Sem veias nem sangue
Só veios e lascas
Quase indiferentes ao tempo.
A pedra aqui estava
Quando emergiram os vegetais
E os animais.
A pedra aqui está
Depois que eles foram,
A pedra não sente
Nem pensa,
Mas escreveu este poema
*
Depois de tudo,
A lesma atravessa
A estrada sem se queimar.
Não há mais pés humanos
Em seu caminho.
O asfalto está esburacado.
Ela evita os fragmentos restantes.
Usa a terra úmida
E chega do outro lado.
Aliás, não existe mais lado.
*
Um título para o poema?
Não é necessário.
Não há mais quem leia poemas
Ou qualquer escrito.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras (ACL)

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