... Tudo o que se disser a respeito dele deve ser colocado em dúvida. Primeiro porque não se sabe se ele existiu. Segundo porque não há mais ninguém para duvidar de ninguém. Ficou no ar uma brisa sobre seu interesse pela poesia de Manoel de Barros. De fato, parece que ele (caso tenha mesmo existido) se dissolveu a água ou se transformou em pedra. Depois, consta que passou a gostar (também ou apenas) de João Cabral de Melo Neto. Ele teria se encantado por “Educação pela pedra”. Mais uma vez, pairam dúvidas sobre sua existência e suas preferências. Cabe desconfiar dessa breve página, pois não restou ninguém para escrever. Parece que estas linhas foram escritas antes do fim, que também não se sabe qual. Dele (se é que houve), restaram rochas, água, plantas, vermes, conchas. Elas desconhecem nossas palavras. Ainda bem. Ou talvez não, num mundo em que não há quem diga e não há quem ouça. Pelo menos, as palavras inventadas por um certo bicho.
As minhocas que caminham pelas estradas, agora sem asfalto e sem pedras, têm encontrado papeis com rabiscos. Elas não sabem ler e os devoram. Transcrevem- se algumas páginas para o futuro, sem nenhuma certeza de que haverá alguém para ler.
Seguiu a trilha aberta por João Cabral de Melo Neto e Paulo Henriques Brito. No final, encontrei uma clareira completamente desabitada. Não havia mais gente. Só o espírito de Manoel de Barros, pedras, água, plantas de bichos. Eles estavam iluminados pela luz da poesia e deles nasciam poemas.
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O eu se dilui No mesmo lugar Onde nasceu. Não me nem mim, Pois todo sujeito Chega ao fim. Não há mais ninguém Que diga não ou sim. * Poema autocriado Da água, da pedra, do ar Para ninguém ler, Pois não há mais ninguém. O poema podia ser escrito Em qualquer língua, Com qualquer coisa, De preferência na areia da praia
Para o mar apagar. * No poema sobre a mesa, Há latidos e miados. Não se sabe quem o escreveu. Não existe mais quem Para saber quem. O cachorro e o gato Também se foram. O pó cobriu o poema Com espessa pátina. Esse poema não é este, Escrito bem mais tarde Não se sabe por quem. É um poema sobre um poema. * Foi longo o tempo. Já existia água, Já existiam plantas Sem flor. Pululava a vida: Eram pequenos animais Nadando, andando, voando. Eles habitavam o mais belo jardim Já plantado na Terra. Não foi nele que Deus Criou Adão e Eva. Foi bem antes. Mas – que pena! – Um dia ele acabou. * Não ontem, não hoje Nem amanhã. Não voltar ao passado,
Não ficar no presente, Nem fugir para o futuro. Apenas desabitar o tempo e o espaço. * Escrever por linhas tortas Um torto poema, vazio. Amontoar palavras a esmo, Com significado, Pois toda palavra tem sentido. O todo, porém, Não tem nexo. Fica o dito pelo não dito. * Chegou a hora do poeta se recolher, Talvez até de sumir. Sutilmente, ele mergulha na escuridão e se senta. Desaparece a sua sombra. Ele silencia para sempre. Não há sequer pessoa; Portanto, não há poema. Ao entrar na caverna Ele deixa seu corpo E sua sombra, Suas ideias e suas palavras. O que foi dito está dito, Seja em que língua for. Ele deixou para trás Apenas palavras, Nada mais que palavras, Signos verbais ou escritos Em qualquer língua. Sinais que não fazem mais sentido. *
Ausentes os seres, Ausentes os músculos, Os nervos e os ossos, cabe ouvir a pedra Sem veias nem sangue Só veios e lascas Quase indiferentes ao tempo. A pedra aqui estava Quando emergiram os vegetais E os animais. A pedra aqui está Depois que eles foram, A pedra não sente Nem pensa, Mas escreveu este poema * Depois de tudo, A lesma atravessa A estrada sem se queimar. Não há mais pés humanos Em seu caminho. O asfalto está esburacado. Ela evita os fragmentos restantes. Usa a terra úmida E chega do outro lado. Aliás, não existe mais lado. * Um título para o poema? Não é necessário. Não há mais quem leia poemas Ou qualquer escrito.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras (ACL)