Folha Letras - A vida e a obra de José Cândido de Carvalho
- Atualizado em 05/08/2026 08:03
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Carlos Augusto Souto de Alencar*
No dia 05 de agosto, comemoramos o nascimento de José Cândido de Carvalho, escritor, advogado e jornalista campista. Por ser importantíssima referência literária de nossa Campos dos Goytacazes, José Cândido merece ser lembrado e reverenciado. Sua contribuição para a cultura brasileira é inestimável e se configura como fundamental para a análise das relações sociais no Brasil e, de forma evidente, para a construção de uma identidade campista.

José Cândido de Carvalho nasceu em 1914. Era filho de lavradores que vieram do norte de Portugal, Bonifácio de Carvalho e Maria Cândido de Carvalho. Ao chegarem no Brasil, seus pais se dedicaram ao pequeno comércio. Chegaram a ir para o Rio de Janeiro, onde José Cândido trabalhou como estafeta, mas retornaram para Campos dos Goytacazes pouco tempo depois. Foi aqui onde o futuro escritor trabalhou, primeiramente, no comércio de açúcar e aguardente. Ou seja, o primeiro trabalho de José Cândido em sua cidade natal foi no comércio, vendendo produtos produzidos em larga escala na região. Até em seu trabalho inicial, Campos estava presente de forma indelével.

No final dos anos 1920 inicia seu trabalho no jornalismo. Foi revisor do jornal “O Liberal” e redator de diversos outros jornais da cidade. Ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e concluiu o curso em 1937. Em 1939 publica seu primeiro romance, “Olha para o céu, Frederico”. Em 1942, convidado pelo interventor do estado, Amaral Peixoto, tornou-se diretor do jornal “O Estado”. Como a capital do estado do Rio de Janeiro, à época, era Niterói, acabou se mudando para lá. Em 1957, passou a trabalhar para a importante revista “O Cruzeiro”.
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Em 1964, publica “O coronel e o lobisomem”, certamente sua obra prima. E, sobre esse livro, é preciso uma avaliação um pouco mais elaborada. Ao contar a história da personagem ficcional Ponciano de Azeredo Furtado, proprietário de fazendas de gado que, encantado com o comércio e a vida urbana, se muda para a cidade e, por não conseguir se integrar ao novo estilo de vida, perde toda a sua fortuna e enlouquece, José Cândido não só imortaliza expressões visceralmente campistas como critica a modernidade e as relações sociais cercadas de negociatas. Critica, também, as elites econômicas que sempre surgem com ares autoritários e desassociadas da realidade da maioria da população que as rodeia. Ao fazer isso, mostra como a cidade de Campos dos Goytacazes e a região se constituíram em suas relações sociais e em sua dinâmica econômica. O livro tem vários méritos que merecem grande destaque (e, para tal, sugiro que se procurem os diversos trabalhos universitários e livros que fazem profunda análise dessa obra ímpar), mas quero citar um que me é muito caro: em “O coronel e o lobisomem”, José Cândido constrói a identidade do “ser campista”, como também descreveu, em forma de poema, Gastão Machado.

Guardando todas as devidas proporções, assim como William Shakespeare “inventou o humano” em sua vasta obra teatral, conforme afirmam vários críticos artísticos, podemos afirmar que José Cândido “inventa o campista” em forma de literatura. Imortaliza uma forma de ver o mundo que tem Campos dos Goytacazes como centro, com suas peculiaridades e seu linguajar, com tudo aquilo que faz nossa cidade e nossa região serem tão diferenciadas a ponto de podermos nos referir a uma cultura campista que abarca, inclusive, a Baixada, onde viveu José Cândido. Claro que podemos debater o papel, nessa construção da identidade campista, de nomes como Azevedo Cruz, Alberto Lamego, Waldir Pinto de Carvalho, Nilo Peçanha ou José do Patrocínio, mas é muito claro para mim que, do ponto de vista da prosa literária, José Cândido de Carvalho é aquele que dá a identificação plena da “campistice”, do jeito “tisgo” e “lamparão”, do trato doce do chuvisco e, ao mesmo tempo, da potência da cachaça de milhomem (feita com cipó-mil-homens no distrito de Santo Amaro, que deixarei para minha nobre confreira Sylvia Paes explicar o processo de produção, posto que não tenho competência para tal) que o campista traz em si.

José Cândido de Carvalho, na década de 1970, publica várias obras. Em especial, livros de contos, como “Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon” (o conto que dá nome ao livro é um primor de bom humor e crítica aos políticos tradicionais) e “Um ninho de mafagafos cheio de mafagafinhos”, entre outros. O escritor campista foi diretor da rádio Roquete Pinto, dirigiu o Serviço de Radiodifusão do Ministério da Educação e Cultura e foi presidente da Fundação Nacional de Arte (FUNARTE). No ano de 1974, foi eleito para assumir a cadeira de número 31 da Academia Brasileira de Letras. No dia 01 de agosto de 1989, faleceu em Niterói.

Pelos motivos citados acima, o dia 05 de agosto foi declarado dia da Literatura Campista e, deste dia até o dia 12 de agosto, comemoramos a Semana Campista de Letras, conforme lei municipal. Assim homenageamos esse grande escritor, criativo e talentoso, que imortalizou sua terra e a identidade de seu povo, dando a Campos dos Goytacazes e ao campista um lugar de destaque na cultura e na literatura do Brasil.
 
*Membro da ACL e atual presidente da Academia Pedralva Letras e Artes.

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