Folha Letras - O complexo de Edgar Morin
- Atualizado em 03/06/2026 08:18
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Arthur Soffiati*
Morreu, no dia 29 de maio último, há pouco mais de um mês para completar 105 anos de idade, o pensador francês Edgar Morin. Ele se tornou conhecido pelo desenvolvimento de um método pós-cartesiano que denominou de complexidade. De 1977 a 2004, ele escreveu os seis volumes de “O método”, sua obra máxima. Nela, ele sistematiza a proposta de um método complexo de conhecimento da realidade, ultrapassando o método de conhecimento cartesiano e positivista.
Como em todo o processo de conhecimento, Morin reconhece um sujeito e um objeto. O sujeito é o polo que conhece, enquanto o objeto é o polo conhecido. Numa perspectiva cartesiana, que ainda vigora, o sujeito não se questiona. Ele procura livrar-se de si mesmo para melhor conhecer. Ou seja, o sujeito busca despir-se da sua humanidade, das suas paixões, da sua individualidade no ato de conhecer, preconizando um método para todos os sujeitos do conhecimento em que a individualidade se apague em nome da objetividade. Por outro lado, o conhecedor despe o objeto de sua complexidade para melhor conhecê-lo. Assim munido, o sujeito conhecerá o objeto de forma absoluta.
Morin propôs um método complexo, em que o sujeito deve se observar enquanto observa o objeto. Ele se dirige mais aos cientistas sociais, que continuam, em grande parte, alheios ao que mostram a termodinâmica e a física subatômica, mas não descura dos cientistas da natureza. O objeto muda segundo o observador. Este, por mais que busque um método objetivo de conhecimento, sempre carrega sua subjetividade.
Assim, ele mostra que a presumível ordem do mundo carrega a desordem e que a interação entre ambas gera a organização, que por sua vez retroage sobre a ordem e a desordem: ordem-desordem-interação-organização-retroação. A seu ver, a natureza física, biológica e humana é complexa. Qualquer abordagem simplista dela empobrece sua complexidade. Ao ler trabalhos acadêmicos sobre a natureza, nos dias de hoje, percebo claramente que o método cartesiano ainda impera. Os produtores de conhecimento têm consciência disso. São treinados a usar esse método fácil. É mais confortável. Mas reconheço, por outro lado, que o método da complexidade proposto por Morin apresenta dificuldades na sua aplicação. Já li trabalhos que tentam utilizar o método da complexidade e percebi que ficaram muito aquém do que Morin propõe. Confunde-se complexidade com Gestalt. Eu mesmo tentei utilizar a complexidade como método de conhecimento na minha tese de doutorado, encontrando dificuldades.
Conheci Edgar Morin em 1972, lendo uma entrevista dele no “Jornal do Brasil”. Ele anunciava o lançamento de “O paradigma perdido” na França, livro que chegou ao Brasil em 1975 com o título de “O enigma do homem”. Eu o li fascinado com a inteligência do seu autor, com o vigor, com a abertura para um novo método de conhecimento. Eu era, então, professor dos cursos de história e de comunicação da Faculdade de Filosofia de Campos. Tive a desastrada ideia de propor como tarefa do curso de Comunicação a leitura do livro. Ninguém entendeu nada e Morin passou a servir como alicerce para qualquer posição, desde a proteção da natureza até a sua completa destruição.
Nunca mais pedi a leitura do livro, mas passei a procurar outros livros do autor e a lê-los. A leitura sempre me proporcionava prazer e alegria pela forma que Morin tinha de analisar um objeto. Suas conclusões sempre me fascinaram. Por exemplo, a ideia (não sei se conceito) de emergência. Exemplo: a mente, a inteligência, a reflexão são emergências do cérebro, que, por sua vez, emerge do corpo, que, por sua vez, emerge da natureza. O cérebro pode ser tocado e pesado. A mente não. Ela é abstrata. Assim, ele ultrapassava a psicanálise e entrava no campo das neurociências, mostrando que a psicanálise não basta a si própria.
O método da complexidade permitiu a Morin mostrar a intrínseca relação entre o não vivo e o vivo. Um está no outro. Um não existe sem o outro, estando ambos relacionados por um anel recursivo. A evolução biológica leva à complexidade, mas não é finalista. O conhecimento da realidade não é exclusividade do ser humano. Uma bactéria tem capacidade de conhecer o mundo em que vive para nele sobreviver. A evolução produziu o hipercomplexo cérebro humano, muito superior à inteligência artificial porque dotado de paixões e sentimentos. Porque capaz de errar. Morin escreveu que é um erro descartar o erro.
Assisti a duas palestras de Edgar Morin no Rio de Janeiro. Ele amava o Brasil, onde era mais reconhecido que na França. Ele gostava do mundo extra-acadêmico, onde as pessoas não estão adestradas por teorias e métodos enrijecidos. Nas duas vezes, entrei na fila para conseguir autógrafos. Mas meu inesquecível encontro com ele ocorreu na casa de um sobrinho em Búzios durante um jantar. Hélio Coelho Filho, meu sobrinho por afinidade, encontrou Morin e esposa andando pelas ruas da cidade e lhes perguntou se aceitariam jantar em sua casa. Morin era muito simples. Confiando na sinceridade das pessoas, ele prontamente aceitou. Imediatamente, meu sobrinho me convidou. Uma caravana saiu de Campos para o jantar.
Passei horas conversando com ele no meu fraco francês e ele no seu fraco espanhol. Ele foi muito atencioso comigo e se surpreendeu com o conhecimento que eu tinha da sua obra e do seu pensamento. Tanto que, numa dedicatória lavrada num dos seus livros que levei, escreveu: “Pelo nosso encontro, caro Arthur, em que descobri uma pessoa que conhece muito bem a minha obra”. Este encontro mágico aconteceu em 2014. Morin contava com 93 anos. Conservava a lucidez e a mobilidade.
Sua morte me entristeceu como a causada pela morte de um ente querido. Mas logo passou quando pensei que todos nós morremos. Morin estava com 104. Ele não apenas pensou e escreveu, mas viveu intensamente. Judeu sefaradita, ele foi membro do Partido Comunista Francês. Lutou contra a Alemanha de Hitler, criticou Stalin num tempo em que ele era endeusado pelos comunistas do mundo todo. Não demonizou os alemães, mas o regime que os dominou. Posicionou-se na Guerra da Argélia e nos movimentos revolucionários da Hungria e da Checoslováquia. Posicionou-se com surpreendente lucidez nos movimentos de 1968. Posicionou-se contra o sionismo e foi considerado traidor pelo governo de Israel. Manteve postura lúcida acercada da Covid-19, quando vários intelectuais apresentaram dificuldade em compreender a pandemia.
Creio ter lido todos os livros de Morin que chegaram ao Brasil. Creio que outros ainda chegarão. Seus últimos foram “Lições de um século de vida” (2021), “Histórias de vida” (2023), “Despertemos!” (2023), “De guerra em guerra” (2024), “Só um instante” (2025), “Lições da história (2025), com título original de “Há lições da história?” (2025), “Sementes de sagacidade” (2025), com seus pensamentos apresentados de forma curta no Twitter, e “O método do método: o original perdido” (2025), terceiro volume dos seis de “O método” que o autor perdeu, tendo de escrever outro. O original foi descoberto e publicado.
Edgar Morin morreu com quase 105 anos, lúcido e produtivo. Ele não podia viver para sempre, embora esse fosse meu desejo. Ele morreu como morreram Montaigne, Spinoza, Pascal e Bachelard, pensadores que ele muito admirou. O corpo se vai, mas o pensamento continua vivo. O de Morin pede ainda muitos anos para ser relativamente compreendido.
*Professor, historiador, escritor, ambientalista e acadêmico da Academia campista de letras

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