Folha Letras - Encontro com Jane Austen
Dora Paula Paes - Atualizado em 21/01/2026 07:52
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A contemporaneidade da escritora inglesa Jane Austen, que viveu de 1775 a 1817 em plena era georgiana, levou a um convite da Folha Letras a duas jovens escritoras campistas Bella Prudêncio e Eryka P.S. As duas decorreram sobre a obra mais famosa da escritora que completou 250 anos de nascimento, em 2025: "Orgulho e Preconceito". A temática da romancista, com seu olhar aguçado, ainda encanta jovens leitores, sejam em seus livros ou nas adaptações para o cinema. Eryka lembra a humanidade na obra. Bella se questiona como seriam Elizabeth Bennet e Mr. Darcy (personagens do livro) em plena era do "Tinder".
Austen viveu em um período de grandes mudanças sociais, incertezas e transformações, bem retratadas em suas obras. No recorte histórico, seu país vivia o início da Revolução Industrial e ainda sobre o efeito das Guerras Napoleônicas. Era um tempo difícil. Porém, situações foram tratadas de forma sarcástica pela autora.
"Razão e Sensibilidade" foi seu primeiro romance. Na sequência vieram "Orgulho e Preconceito", "Mansfield Park", "Emma", "A Abadia de Northanger" e "Persuasão", são obras que até hoje são reconhecidas como clássicos da literatura. "Sanditon" foi seu livro inacabado. Suas protagonistas são jovens moças, que assim como ela, com poucas oportunidades e sob vigilância de membros mais velhos; uma liberdade bem limitada. Porém, ela soube retratar com graça e precisão os meandros da elite e nobreza do Reino Unido do final do século 18 e início do 19. Sua história de vida mostra como seu olhar aguçado foi capaz de observar os romances e interesses da sociedade da época.
Ela morreu com 41 anos em um 18 de julho e desde então descansa na Catedral de Winchester, na cidade inglesa de mesmo nome.
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Por Eryka P.S. 
Autora de romance juvenil, fala do seu primeiro contato com obra "Orgulho e Preconceito"
"Eu não conhecia diretamente o trabalho de Jane Austen até ser convidada para compor essa matéria que me aproximou de uma das obras mais famosas da autora, que é “Orgulho e Preconceito”. Me impressionei com a mágica da escrita de Austen que, apesar de ser do século XIX, conversa muito com os tempos atuais, trazendo questões das relações românticas que são ciclicamente construídas, desconstruídas e reconstruídas entre pessoas.
A protagonista Elizabeth Bennet tem seu jeito autêntico no meio de uma sociedade com padrões e ideias conservadoras, e ela não abre mão de sua identidade para atingir o que é esperado dela como mulher. Em contraste, temos o Mr. Darcy, que seria a personificação daquilo que é certinho demais.
Ao conhecer Elizabeth, realidades diferentes se colidem, transformando a relação movida por conversas afiadas, mas, apesar das diferenças, isso abre o espaço para o romance. Mr. Darcy escuta e absorve o que é dito por Elizabeth, o fazendo refletir sobre seu próprio caráter, impactando em suas ações futuras, o que obrigou Elizabeth a reconhecer a essência de Mr. Darcy.
Enquanto Elizabeth abria mão de seu orgulho, Mr. Darcy desfazia seu preconceito. Nesta era, sabemos que errar faz parte de existir, e lidar com nossos defeitos para construir um relacionamento é um ato de amor. O livro retrata o amor de sua forma mais real e sincera, por isso uma obra tão antiga se torna atemporal quando traz a nossa humanidade."
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Por Bella Prudêncio
Escritora e poeta, diz que é uma grande fã da obra de Jane Austen
"Eu às vezes me pego devaneando sobre Elizabeth Bennet, de "Orgulho e Preconceito", em minha mente a vejo caminhando por salões iluminados por velas, julgando Darcy antes de conhecê-lo de verdade. Quantas vezes não fizemos isso nos aplicativos de namoro? Deslizando o dedo numa tela, julgando pessoas em três fotos e uma bio (que muitas vezes é mal escrita). Mudam os cenários, mas aqui a ideia é a mesma. Orgulho e preconceito são sentimentos que nunca saíram de moda; só o contexto mudou.
Conversando com um amigo “rato de Tinder” vejo claramente como as relações hoje nascem já cansadas. Bauman chamaria de amor líquido, eu chamo de exaustão. A gente aprendeu a descartar pessoas como quem troca um celular que já não atualiza mais. A bateria acaba, a promessa falha, surge a novidade do momento, e pronto, substituição feita. Mesmo ainda havendo amor, ainda assim parecia mais fácil começar de novo do que sustentar a permanência.
Às vezes me pergunto se Darcy sobreviveria ao Tinder. Reservado demais, pouco performático. Talvez fosse ignorado por não saber se vender. E Elizabeth? Talvez o descartasse no primeiro silêncio mal interpretado. Conseguimos nos conectar rápido, ninguém mais espera cartas ou sequer relê palavras. Tudo precisa ser imediato, responsivo, eficiente, e isso tange inclusive o afeto.
O mundo começa a bocejar diante da própria pressa. As pessoas estão voltando ao offline como quem volta pra casa depois de se perder na cidade. A gente que sabe a delícia que é tropeçar em alguém num evento qualquer, ouvir a voz antes do texto, sentir o tempo se alongar outra vez. Talvez porque, no fundo, a gente saiba que o amor, assim como os clássicos da literatura, não funciona em atualização constante.
"Orgulho e Preconceito" nunca foi sobre escolher um bom esposo. Foi sobre aprender a ver. Ver além da primeira impressão, além da defesa automática, além do medo de parecer vulnerável. E eu falo isso quase pra mim mesma: talvez amar hoje seja um ato de resistência. Ficar quando tudo ensina a ir embora. Sustentar quando o mundo inteiro sussurra que existe algo melhor logo ali, depois do próximo deslizar de dedo.
E o silêncio fica. Não como falha, mas como convite. Tal qual as gostosas pixações poéticas do centro da nossa cidade, não pedem pressa, pedem leitura."

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