Felipe Fernandes - Envelhecimento, distopia e liberdade
*Felipe Fernandes - Atualizado em 21/01/2026 07:51
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Filme: O último azul - O diretor e roteirista pernambucano Daniel Mascaro traz, por meio de seu cinema, um olhar atento para questões sociais muito presentes no cotidiano da sociedade brasileira, sempre a partir de uma perspectiva singular e particular.

Desde seu último filme, Divino Amor (2019), o cineasta trabalha a ideia de um Brasil distópico que, embora ficcional, se aproxima inquietantemente da nossa realidade. É por meio dessa distopia que Mascaro busca discutir temas profundamente enraizados em nossa sociedade.

Se em Divino Amor ele debate a influência da religião na vida sexual, na construção familiar e na própria fé individual, em O Último Azul o diretor aborda questões como etarismo, dignidade humana e liberdade individual. O filme se passa em uma sociedade regida por um governo autoritário, que prega a otimização da produtividade dos mais jovens e tem como um de seus projetos a exclusão das pessoas idosas: ao completarem 75 anos, elas são enviadas para colônias de localização desconhecida, onde são obrigadas a passar o resto de suas vidas.

O filme estabelece uma sociedade em que a velhice é vista como um fardo econômico e um obstáculo ao desenvolvimento. Mascaro utiliza essa distopia para refletir sobre o tratamento dado aos idosos e sobre o papel do envelhecimento na sociedade contemporânea. No entanto, o foco da obra não está na construção detalhada desse universo distópico, mas sim na jornada intimista de fuga, liberdade e redescoberta que se desenvolve a partir dele.

Interpretada por Denise Weinberg, a protagonista Tereza é uma mulher independente, trabalhadora, mãe e avó que, da noite para o dia, tem sua vida desmontada e perde toda a sua autonomia. Ela passa a ser tratada como uma menor de idade, tendo suas decisões submetidas à autorização da filha.

É curioso perceber como os idosos são definitivamente associados à ideia de problema, a ponto de existir uma espécie de polícia especial voltada à sua fiscalização, que utiliza um veículo chamado “cata-idoso”. Na iminência de seu destino final, Tereza parte em uma jornada pluvial pela região amazônica, fugindo do sistema que a oprime e em busca de sua liberdade.

A motivação declarada para essa jornada é o desejo de voar. A escolha não é aleatória, a sensação de voo está diretamente ligada à ideia de liberdade, que, no fundo, é o verdadeiro anseio da personagem. Mascaro constrói uma poética visual marcante nos barcos que cruzam os rios e nos momentos lisérgicos envolvendo o caracol de baba azul, sempre em conexão com a natureza.

De certa forma, a transformação da protagonista ocorre justamente em sua reclusão na natureza, na fuga de uma sociedade que não lhe permite ocupar seu próprio espaço. Resta-lhe a natureza e a clandestinidade como formas de existência.

Cada encontro ao longo do caminho parece costurar uma nova possibilidade de vida, na qual o imponderável se faz presente. Seja no deslocamento pelos rios ou no duelo que marca o clímax do filme, em que criaturas tão pequenas determinam o destino da protagonista, há uma cena particularmente bonita, de plasticidade singular.

A água e os rios, em diversas tradições, simbolizam o fluxo do tempo, a mudança, o renascimento e a purificação. No contexto do filme, funcionam como espaços de liberdade e de afirmação da vida diante de uma sociedade que marginaliza seus idosos.

A jornada de Tereza revela que não existe idade para viver, para reencontrar sonhos, desejos e o amor. A vida não termina quando a sociedade impõe o seu fim. Tal qual um rio, ela segue em movimento, mudança e renovação.

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