Meus primeiros versos, alguns de “pé quebrado”, foram publicados no jornal “A Cidade”, que era um jornal aberto aos leitores e, principalmente, colaboradores. Graças ao meu pai, João Antunes de Freitas, conhecido pela alcunha de “João Poeta”, amigo do dono do jornal, comecei a escrever e hoje estou aí entre os bons da escrita.
O jornal “A Cidade”, bastante popular, praticamente exclusivo em “Classificados”, era dirigido pelo jornalista Júlio Nogueira, também conhecido por “Capitão” Júlio Nogueira. Ele pertenceu à Guarda Nacional, extinta pelo presidente Getúlio Vargas. Júlio foi membro do Conselho Administrativo da AIC - Associação de Imprensa Campista - e integrante do Grupo “Topa Tudo”, pois sabia levar a vida e era uma divertida pessoa.
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Com Alcides Carlos Maciel, presidente na década de 30 da AIC, tabelião, jornalista, escritor, tradutor, entre outras da peça “Conchita”, de Pierre Louÿs, e membro-fundador da ACL; ele, Júlio, frequentou algumas vezes a ACL (Academia Campista de Letras), entidade que contava em seu quadro de membros com a participação do ilustre intelectual-presidente e figuras destacadas da intelectualidade cultural campista. Velhos tempos!...
Muitos não sabem que Júlio, já no final da vida, por interferência de um grupo de amigos, foi eleito vereador. Júlio era aquele amigo de palavra fácil e dessa forma chegou a ocupar uma cadeira no Legislativo. Cumpriu o mandato e acabou redator no Departamento de Imprensa da PMCG, onde eu dirigia, na gestão do prefeito José Carlos Vieira Barbosa, o popularíssimo Zezé Barbosa, três vezes prefeito de Campos dos Goytacazes, fato inédito na política local.
O poeta João Antunes de Freitas e o escritor Gipson Antunes de Freitas, respectivamente pai e filho, e também progenitor do autor desta matéria, eram amigos de Júlio e autores de vários artigos e sonetos publicados em “A Cidade”. Os dois citados acima eram bastante ligados e admiradores do “Capitão” que, sozinho, era tudo no jornal, contando com o apoio comercial da senhora Rosita (era irmã de um famoso toureiro, quando havia touradas em Campos) e, nas horas vagas, participava de encontros sociais e sempre que era solicitado empolgava a todos com uma bela oratória. Considerados por eles acima citados como “um grande jornalista”.
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Júlio, no campo jornalístico, passou por vários jornais no passado, inclusive foi um dos fundadores do jornal “A Notícia”, com Sílvio Fontoura, Sílvio Tavares, Thiers Cardoso, Gastão Machado e outros. E mais: escreveu duas peças teatrais que foram encenadas, com sucesso, sob os títulos “Zezé Leoni em Campos” e “O homem da Light”.
Júlio criou “Matias”, desenho de Luís Balbi, mais tarde aperfeiçoado por Gastão Machado, que era desenhista também. Através de “Matias”, Júlio criticava as autoridades e, principalmente, fazia queixas, apelos e reclamações. “A Cidade” sempre esteve a serviço da população. E “Matias” saia na primeira página do jornal.
Para os curiosos, Júlio era aquele homem alto, claro, figura simpática e comunicativa. O jornal, como era popular, tinha uma boa venda e era procuradíssimo para “Compras” e “Vendas”. E ele, realmente uma simpatia de pessoa.
Um detalhe importante: o jornal deu os seus primeiros passos quando a cidade completava 100 anos de sua emancipação. No dia 10 de março de 1934, circulava pela primeira vez em Campos o jornal ”A Cidade”, fundado em homenagem à evolução da comunidade campista. Na verdade, segundo os historiadores, era um pré-lançamento, pois a data que passaria a prevalecer oficialmente como a de sua fundação seria a de 28 de março – “Dia de Campos”.
Mesmo enfrentando os avanços da tecnologia, o jornal “A Cidade” permaneceu ativo durante quatro décadas até ser vendido para o jornalista Vivaldo de Belido de Almeida (da ACL). A continuação sofreu inúmeras mudanças.
O jornal e o “Capitão” fazem parte da história do jornalismo campista. Aliás, é bom lembrar que o nome do “Capitão” é rua na cidade, mais precisamente em Guarus.
E por fim, um fato inédito para muitos e irônico: eu que comecei no jornal “A Cidade”, tive a felicidade de chefiar o “Capitão” no final da vida, no Departamento de Imprensa da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes (PMCG), que, infelizmente, durou pouco tempo, porque o “Capitão” logo adoeceu e, hoje, faz parte do grupo de jornalistas que estão ao lado do Senhor.
*Acadêmico e ex-presidente da Academia Campista de Letras