*Edgar Vianna de Andrade
- Atualizado em 14/01/2026 07:35
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Filme: Frankenstein – Quem começa a assistir a Frankenstein, de Guillermo del Toro (2025), estranha. O monstro de seu criador no círculo polar ártico? A grande maioria dos que conhecem a história do monstro adquiriu esse conhecimento por filmes, não pelo romance de Mary Shelley. E, sim, a história, no livro, continua no círculo polar ártico. O Dr. Frankenstein, que criou o monstro, sai em seu encalço pelo mundo e termina sua jornada nas águas geladas.
Guillermo del Toro, na sua versão de Dr. Frankenstein, começa pelo fim: Dr. Frankenstein é resgatado em estado lastimável por um navio nórdico. Ele começa, então, a narrar sua história num longo flashback. Depois de muitos estragos, o monstro também narra a sua em flashback mais curto. Mary Shelley tinha apenas 21 anos de idade quando lançou o romance. Ela não esperava tanto sucesso. O que ela quis destacar era o perigo representado pela ciência ao não respeitar limites. O monstro criado pelo Dr. Victor Frankenstein com pedaços de cadáveres tinha, apesar de tudo, sentimentos humanos. Sofria por não ter pais e queria uma companheira. Sendo maltratado, ele se torna destruidor. Seu criador se arrepende da criação e sai em seu encalço pelo mundo.
Del Toro conta a história a seu modo. Nada contra. Um artista é livre para interpretar. A figura do pai, em Del Toro, é muito forte, como aconteceu na sua animação de “Pinocchio”. Em “Frankenstein”, a infância de Victor foi marcada por um pai severo e por uma mãe amorosa. O conflito entre mundo e ciência se enfraquece. A ênfase recai sobre as relações pessoais do Dr. Frankenstein com o monstro que ele criou. Atualmente, o conflito se dá entre a humanidade e a economia, o que não deixa de ser continuação do conflito que assustou Mary Shelley. O mundo ocidental criou o Frankenstein da economia de mercado, que ameaça o mundo. Por mais que governos e empresários propalem arrependimento, eles não convencem. Assim, essa dimensão não mereceu destaque na versão de Del Toro. A ênfase recai sobre o drama pessoal do médico e o monstro. O segundo tem seu drama contado. Mary Shelley não descurou esta faceta, mas enfatizou o conflito entre ciência e mundo.
Na versão de Del Toro, a história do Dr. Frankenstein torna-se piegas e lacrimosa, além de perder seu aspecto gótico. Foi o que aconteceu com “Pinnochio”: de comédia, transformou-se em drama pesado, que parece contar a história do próprio diretor: sua fixação no pai. Enfim, a psicanálise explica.