Cinema - Conflito interior
*Edgar Vianna de Andrade 01/03/2023 08:24 - Atualizado em 01/03/2023 08:24
Os apelos da sociedade de consumo aumentam progressivamente com os meios de comunicação e as redes sociais. Eles viciam e frequentemente causam ansiedade. Então, a medicina entende que o ansioso desenvolve uma doença psíquica inata ou hereditária. Será que essa observação vale para o filme “Pearl”? Ou será o filme apenas uma tentativa de Ti West, seu diretor, exercitar o virtuosismo. Ele já dirigiu o elogiado “X: a marca da morte” (2022).
Não se trata de um filme de terror. É muito comum alojar no gênero “terror” e seus sub-gêneros filmes em que mistério, violência e morte sejam seus ingredientes. Um filme de terror deve, invariavelmente, recorrer ao sobrenatural e provocar medo. “O sexto sentido”, de Shyamalan, e “Os outros”, de Amenabar, recorrem ao sobrenatural mas não pretendem causar pavor. Já se tentou situar “Pearl” na linha de “O iluminado”. Ambos enfocam o processo progressivo de enlouquecimento de uma pessoa, mas “O iluminado” contém um elemento sobrenatural no fim que a muitos passa despercebido. “Pearl” tem mais pontos de contato com “Repulsa ao sexo”, de Polanski. Não pelo roteiro, mas pelo processo de enlouquecimento da mulher que interpreta o papel principal.
O ambiente do filme é uma fazenda dos Estados Unidos no ano de 1918. O mundo se contorce na Primeira Guerra Mundial e sofre com a Gripe Espanhola. Na fazenda, habita uma família de origem alemã. São imigrantes. Apenas três pessoas. O pai sofreu uma doença contagiosa e ficou quase imobilizado. A mãe é muito religiosa, mas carrega um grande ressentimento por sua situação. Ela conversa em alemão com a filha e repudia seu desejo de ser dançarina. O cinema exerce fascínio sobre ela, principalmente os filmes com cenas de dança. Jovem, ela é casada com um homem que foi lutar na guerra.
Aos poucos, seu conflito interior vai crescendo e se traduzindo em violência associada a alguma psicose. Seu melhor amigo é um jacaré que habita um rio próximo de sua casa. Ela começa a matar pequenos animais, como a exercitar a insensibilidade diante da vida. Ela sofre. Não é perversa. Até certo ponto, ela está consciente dos seus atos, mas não se sente culpada por eles. Seu desejo de ser atriz e se mudar para a Europa aumenta progressivamente e se choca com a realidade do seu cotidiano. Ela deve obedecer a mãe autoritária e cuidar do pai invalido.
Mia Goth domina o filme no papel de Pearl. O ponto alto do seu desempenho é o diálogo mantido com a cunhada na parte final do filme. Aos poucos, sua fala passa de uma pessoa “normal” para a de uma pessoa em que a loucura violenta se manifesta. O cinema açula seu desejo reprimido. Haverá alguma tentativa de apontar a influência do cinema pelos conflitos interiores de Pearl? Parece não haver dúvida que o cinema causou impacto na vida das pessoas, bem mais que a literatura.
O crítico Mario Abbade considera “Peal” uma pequena pérola cinematográfica. Estamos esquecendo que cinema é arte. Ele envolve imagem, roteiro e desempenho. O segundo e o terceiro componentes estão presentes. Mas busquei alguma virtude na imagem e não encontrei. Estará o filme a serviço de uma narrativa que poderá ilustrar uma aula de psiquiatria ou psicanálise? O cinema, atualmente, conta com muitos recursos para realizar truques, mas todos a serviço do roteiro e não da imagem.

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