A maratona sub-2 e a tentação de explicar o inexplicável
Marcos Almeida 28/04/2026 16:06 - Atualizado em 28/04/2026 16:16
A cada grande performance na maratona, surge quase um movimento automático: cada área tenta reivindicar para si a explicação do feito.

Uns apontam para a revolução dos supertênis.

Outros para a nutrição — e, de fato, há uma transformação importante em curso. Se antes protocolos com 60 g de carboidratos por hora já eram considerados agressivos, hoje se discute 100, 120 g por hora, estratégias individualizadas, blends glicose-frutose e até compostos voltados à fadiga central.

Há também os que olham para os métodos de treinamento: zonas mais refinadas, controle de carga, especificidade e microajustes.

A fisioterapia e a ciência da recuperação destacam o papel do recovery — sono, regeneração, capacidade de sustentar qualidade em blocos sucessivos.

A psicologia do esporte chamará atenção para a dimensão cognitiva: tolerância ao sofrimento, foco e regulação do esforço.

E todos têm razão. Mas talvez parcialmente.

Porque existe uma provocação que me parece inevitável: e se o fator primordial ainda for genética?

Em alto nível, quase todos treinam muito parecido. Quase todos têm acesso a boa nutrição, ciência aplicada, materiais avançados e excelentes estruturas.

Mas poucos possuem aquilo que não se fabrica: economia de corrida extraordinária, eficiência metabólica rara e tolerância fisiológica incomum.

Cada área tende a puxar a narrativa para si: foi o tênis, foi o gel, foi o recovery, foi o trabalho mental. Mas talvez pai, avô e bisavô tenham participado mais do que se admite.

Outro ponto pouco comentado é que muitos desses grandes maratonistas são, antes de tudo, homens da pista. Vieram dos 5.000 e 10.000 metros. E talvez isso importe muito.

Porque a maratona continua sendo, em grande medida, uma expansão dessa base. Curiosamente, o dado que talvez mais impressione não é o protocolo nutricional ou o tênis — é o negative split. Correr a segunda metade da maratona mais rápida do que a primeira não é marketing. É fisiologia. É sinal de controle, reserva e domínio do esforço.

No fim, tudo importa: tênis ajudam, nutrição ajuda, recovery ajuda, método ajuda.

Mas talvez o fenômeno extraordinário comece em outro lugar. Na genética.

E talvez a verdadeira sofisticação esteja em reconhecer que performance extrema nunca nasce de um único fator — mas da interação entre todos eles.
Por vezes, na maior parte das vezes, o simples tem um papel bem importante, vide o relógio Garmin 55 usado pela fera, recordista mundial na distância. Bons treinos!

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