A Embriaguez do Poder
NinoBellieny - Atualizado em 24/09/2026 15:05

A Embriagues do Poder

Há pessoas que, diante de uma eleição, parecem conhecer perfeitamente o significado das palavras atenção, presença e humildade. Aproximam-se, cumprimentam, sorriem, participam, ouvem, prometem, entregam resultados e fazem questão de estar onde o eleitor está. O cargo ainda não foi conquistado e cada gesto parece importante.

Depois da reeleição, algumas dessas pessoas mudam.

O sorriso diminui. A presença nos lugares onde antes eram figuras constantes passa a ser rara. O telefone que antes atendia começa a permanecer em silêncio. O cidadão que era recebido com atenção passa a esperar. A crítica, antes tolerada, passa a ser vista como afronta. E aquele que ocupava uma função pública começa, em determinados casos, a agir como se tivesse adquirido junto com o mandato uma espécie de propriedade sobre o poder.

É aí que aparece o sabor etílico do poder: a sensação de estar acima dos outros, de não precisar mais explicar cada gesto, de imaginar que a cadeira pertence a quem a ocupa e não à sociedade que concedeu o mandato.

Não acontece com todos. Mas acontece.

O poder pode modificar comportamentos porque altera as relações ao redor de quem o exerce. Pessoas que antes diziam o que pensavam passam a concordar. Críticas desaparecem. A proximidade de antigos aliados pode se transformar em reverência. E, quando quase ninguém diz não, fica mais fácil acreditar que tudo está certo.

A política, entretanto, possui um calendário implacável.

A eleição se aproxima novamente.

E, quando o calendário começa a apertar, alguns comportamentos também mudam. O sorriso reaparece. A agenda volta a ficar cheia. O contato com a população aumenta. A presença em festas, reuniões, inaugurações e encontros torna-se novamente importante. Quem passou anos distante pode reaparecer como se a distância nunca tivesse existido.

Estudos sobre comportamento político mostram que os incentivos eleitorais podem influenciar a maneira como ocupantes de cargos públicos distribuem seu esforço. Uma pesquisa publicada na American Political Science Review, com milhares de legisladores estaduais dos Estados Unidos, encontrou mudanças na atividade legislativa associadas à existência ou não de incentivos para a reeleição. Outra pesquisa, sobre legisladores mexicanos, identificou alterações no comportamento parlamentar conforme se aproximava o ciclo eleitoral. 

A questão, portanto, não está apenas na eleição. Está no que acontece entre uma eleição e outra.

O poder deveria ampliar a responsabilidade, não diminuir a sensibilidade. Deveria aproximar o representante das pessoas, não criar uma distância entre quem governa e quem é governado.

Quando alguém começa a acreditar que é indispensável, corre o risco de esquecer que nenhum mandato é propriedade particular. A cadeira passa. O cargo passa. A eleição passa. O que permanece é a maneira como aquela pessoa tratou os outros enquanto esteve no poder.

Talvez seja essa a parte mais perigosa da embriaguez do poder: não é quando alguém percebe que possui autoridade. É quando começa a acreditar que a autoridade transformou sua pessoa em alguém superior.

E, nessa hora, o sorriso pode até desaparecer.

Mas a eleição, cedo ou tarde, volta a bater à porta. E a ressaca da embriaguez do poder costuma ser colossal.


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