Gerente de artistas e repertório da Sony Music Brasil comenta a força da produção independente no interior
Matheus Berriel 22/04/2026 16:24 - Atualizado em 22/04/2026 16:25
Gabriel Marinho participou de rodada de negócios em Campos
Gabriel Marinho participou de rodada de negócios em Campos / Foto: Marimba Produções/Divulgação
Baiano radicado no Rio de Janeiro, o produtor musical Gabriel Marinho (G.a.B.o.) é um personagem importante na cena da indústria fonográfica brasileira. Há um ano, ocupa o cargo de gerente de artistas e repertório (A&R) da Sony Music Brasil, após dois anos como head de marketing estratégico e catálogo. Também é fundador e conselheiro da Mondé, editora e agência musical com selo voltado à valorização de artistas independentes; jurado do Prêmio Multishow e, desde 2024, membro votante da Academia Latina de Gravação, que promove o Grammy Latino. O currículo o credencia a participar de diversos eventos ligados ao mercado da música, como o Festival Para Além das Rimas (PAR), ocorrido no Palácio da Cultura, em Campos, na última semana. Presente para uma rodada de negócios no sábado (18), G.a.B.o. concedeu uma entrevista coletiva em que falou sobre o processo de descentralização da produção musical; o surgimento de novos adeptos a mídias físicas, especialmente aos discos de vinil; e a influência exercida pelo movimento hip-hop sobre outros gêneros.
Confira abaixo a entrevista em tópicos.
 
Descentralização da produção musical

— O povo brasileiro é muito plural, criativo e musical. Em todo lugar tem muita gente fazendo música com qualidade e chegando a locais em que, antes da explosão do digital, não era possível. Eu estive agora em São Paulo, moro no Rio, e essas cidades têm suas cenas culturais, mas também tem muita coisa sendo feita no interior. Com acesso à internet e programas de produção musical, a galera está criando muita coisa inovadora, de vanguarda. E a música urbana muitas vezes é mais democrática do que outras, porque não precisa de tanta estrutura para ser feita. Se a gente pensar em rap, em funk, às vezes o cara faz a música com um computador e um celular. Com a facilidade de subir em uma plataforma independente, um YouTube, por exemplo, ele coloca essa música para o mundo. Então, as capitais ainda são uma vitrine, mas não há mais um polo onde a criação tenha necessariamente que passar por lá. Esse festival aqui é justamente sobre essa potência de criação de arte, de música, fora do eixo de capitais do Brasil.
 
Ressurgimento dos discos de vinil
— É legal falar sobre isso, porque eu voltei com esse projeto do vinil na Sony. A gente não tem um clube de assinaturas, mas tem parcerias com empresas que fazem, como a Noize, a Três Selos, etc. A Sony licencia alguns títulos, e a gente tem visto que há um crescimento do vinil, tanto para músicas de catálogo quanto para lançamentos. Posso citar o exemplo de um projeto que eu toquei agora, que foi o lançamento do primeiro vinil da carreira do Sorriso Maroto. Em 2025, teve a gravação do projeto "Sorriso Eu Gosto no Pagode Vol. 3 - Homenagem ao Fundo de Quintal". Foi gravado em Abbey Road, em Londres, ganhou o Grammy Latino e agora está sendo lançado em vinil. Então, é algo que os artistas estão vendo como validação artística, vitrine também; ver o seu trabalho na prateleira. E existe uma dinâmica de fãs muito grande, ainda mais quando a gente pensa em artistas que alcançam o Brasil como um todo. Tem uma galera que quer ter o produto físico, não quer só ver na plataforma. É legal ter um pouco do artista na mão, e o vinil dá essa possibilidade. E os clubes de assinatura têm muita responsabilidade em relação a outro público, com títulos que já haviam saído de linha e foram retomados. Do Marcelo D2, por exemplo, a gente avançou com o "A Procura da Batida Perfeita" e o "Acústico" (lançados em vinil pela Noize). Então, o vinil é uma frente que, financeiramente, ainda não é tão relevante quanto o digital, mas na qual eu acredito muito. Inclusive, sou colecionador de vinil. Quando a gente voltou com esse projeto, foi algo que uniu o útil ao agradável.
 
Possibilidades da cultura hip-hop
— O rap é uma das expressões dentro de uma cultura muito maior. É comprovado que o hip-hop é a cultura mais influente e relevante no Ocidente, com (mais de) 50 anos de história. Quando a gente faz um paralelo, o método de criação hoje em dia é totalmente influenciado pelo hip-hop. O rap é uma música eletrônica que vem do lance Do It Yourself, tem muito do punk. Como falei anteriormente, o brasileiro é muito inventivo e, através da facilidade de acesso a softwares de produção musical e à internet, consegue colocar suas ideias de uma maneira mais prática, e isso chega ao público de uma forma muito mais rápida. Então, a cultura hip-hop é muito influente, hoje em dia, no mercado como um todo. Há muitas pessoas que vêm desse local do rap, como é o meu próprio caso, pois vim das rodas de rima do Centro do Rio. Eu morava na Lapa, sou soteropolitano, já morei na Baixada (Fluminense), já morei em um monte de lugar. Então, esse local das possibilidades de criação da cultura hip-hop influencia não só a parte de criação, mas também o bussines, a parte dos negócios. Muitas pessoas vieram dessa cultura da rua e hoje em dia estão nas gravadoras, ajudando a criar essa conexão.
Os gêneros que a gente chama de urbanos são muito relevantes em termos de mercado; têm uma fatia relevante de market share. Então, existe esse movimento de que pessoas oriundas dessa cultura estejam nas gravadoras e agregadoras, servindo muitas vezes até como tradutoras. Quando a gente fala de hip-hop, a cultura pesa, não é só um negócio. O rap é um gênero musical muito atrelado à cultura, não é só a música. Ele conta histórias. O Marcão da Baixada é um ótimo exemplo disso, porque usa o nome da própria área (em que reside) no nome. Isso dá legitimidade para ele falar de certas coisas, o que é muito importante para você chegar numa mesa de negociação e falar a mesma língua de um artista que vem da periferia. Você não está ali não só representando a marca, mas sendo um intermediário entre dois mundos. Eu acredito muito nisso e que isso se expanda. A parte do negócio é muito importante, porque é isso que gera um festival, gera receita para uma cidade, uma cadeira na secretaria de Cultura, um edital, uma rede muito maior do que só o show, a música e o artista. O negócio e a cultura andam lado a lado quando se fala de rap, funk e outras culturas que a gente pode chamar de urbanas. Acredito nisso como um todo, mas acho que o hip-hop é uma ótima espinha dorsal de como pensar em negócio e cultura de forma bem ligadas. Há um mercado muito maior a ser expandido no Brasil.


Influências da cultura hip-hop em outros gêneros

— Eu olho com a mentalidade hip-hop para tudo: seja arrocha, pagode, rock... O arrocha, por exemplo, tem uma batida eletrônica, que você faz em casa, na interface, e lança. Hoje em dia, é um gênero em ascensão. Quando eu vejo um produtor do arrocha, eu consigo ver um DJ e um MC também. Os Barões da Pisadinha são um bom exemplo. A pisadinha é um subgênero de forró, e eles são artistas da Sony. Basicamente, são um produtor e um cantor, com uma base eletrônica. É muito do que vem do hip-hop. Sem ter uma base do hip-hop fazendo isso há 50 anos, eu não sei se a gente teria Os Barões da Pisadinha hoje em dia. Por mais que não haja ligação direta, quando você analisa, você vê: é uma forma de produção dentro de um sistema precarizado, através das ferramentas possíveis, e que chega a locais inesperados, dentro de uma estrutura que muitas vezes não dá acesso a pessoas que vêm da periferia, como é o caso dos caras também. Então, eu vejo como o arrocha, a pisadinha, o pagodão baiano, vêm muito dessa estrutura. São músicas de periferia. É como a gente consegue fazer muito com pouco, e isso é muito da cultura do brasileiro também, assim como do negro norte-americano da periferia. É a diáspora africana, onde ela foi fincando o pé e fazendo seus frutos até hoje. A música da diáspora é muito prolixa, potente, e eu vejo o hip-hop como uma cultura presente em diversas expressões artísticas que não necessariamente estão ligadas ao rap.

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