Arthur Soffiati - A primeira viagem dos Sete Capitães
* Arthur Soffiati - Atualizado em 22/08/2026 10:19
 
Arthur Soffiati
Arthur Soffiati / Divulgação
Em 1627, data da carta de sesmarias conferida aos Sete Capitães por Martim
Correia de Sá, governador do Rio de Janeiro, o território do futuro norte fluminense já
era relativamente conhecido. Sabia-se que ele fazia parte da Capitania de São Tomé,
devolvida à Coroa Ibérica em 1619. Sabia-se que era habitada pelo “temível” povo
indígena goitacá. Sabia-se, desde o século XVI, da existência do rio Macaé. Também
era conhecido o rio Iguaçu, talvez mais naquele tempo do que hoje. As sesmarias
foram delimitadas, junto à costa, exatamente entre os rios Macaé e Iguaçu. Para o
interior, até as serras.
Seis dos Capitães viviam no Rio de Janeiro. Miguel Vaz de Riscado morava em
Cabo Frio. De lá, partiu uma expedição de 17 pessoas com alguns filhos agregados
em direção às sesmarias no dia 2 de dezembro de 1632. Eles chegaram a Macaé no
dia 11 do mesmo mês. Já existia, na foz do rio, um povoado de mamelucos que vivia
da pesca, principalmente. Os Capitães encontraram muitos bagres, indício de que o
nome de rio dos Bagres, o primeiro nome do rio Macaé, fazia sentido.
No dia 12, a caravana partiu de Macaé numa sumaca (embarcação de tipo
holandês) em direção à barra do rio Iguaçu. Os ventos não permitiram o desembarque,
tendo o intérprete da língua indígena caído no mar e se salvado. A sumaca retornou a
Macaé. Nova tentativa de alcançar as sesmarias foi feita por terra. O grupo saiu de
Macaé no dia 19/12. Os capitães levavam aguardente e miçangas para os indígenas.
Com os capitães, estavam Miguel e Valério da Cursunga, dois índios aculturados e
batizados.
A caminhada pela praia foi difícil. Com cargas às costas, as pessoas “não
podiam bem caminhar em razão dos areais.” O grupo encontrou matas de restinga,
campinas e áreas alagadiças.No dia 21/12/1632, ocorreu o primeiro encontro dos
capitães com os indígenas. Todos foram bem recebidos por eles, que lhes ofereceram
pousada e alimento. Os capitães ficaram pasmos com a diversidade e tamanho dos
peixes. Mesmo assim, os estrangeiros continuaram com o dedo no gatilho, temendo
um ataque dos indígenas.
Foi então que os estranhos conheceram a Grande Lagoa, batizada por eles de
Lagoa Feia. Em Macaé, os habitantes já sabiam da existência dela, assim como
contatos esporádicos eram feitos com os indígenas. No diz 23/12/1632, os capitães
deixaram a aldeia indígena. Segundo suas contas, os nativos não passavam de 52
integrantes entre homens e mulheres. O maioral, nome que os portugueses e seus
descendentes davam a quem consideravam o chefe indígena, acompanhou a
caravana até o cabo de São Tomé. Lá, encontraram outra aldeia com cerca de 160
integrantes e degredados vivendo entre eles. Todos foram recebidos pacificamente, ao
contrário do que se afirmava sobre o goitacá.
Os capitães vieram preparados para um confronto armado, mas um encontro
pacífico lhes interessava mais. Eles participaram de guerras contra povos nativos e
estrangeiros. Agora, queriam paz para desenvolver seus interesses econômicos: “Os
nossos corações se abrasavam de alegria por ver que tínhamos alcançado tão rica
prosperidade para as nossas criações de cavalar e vacum, que tanto carecíamos para
o fim dos nossos engenhos; as nossas vistas não alcançavam o fim das campinas
continuadas.”
A aldeia indígena do cabo de São Tomé era formada por choupanas grandes
em cima de uns montinhos. Esta informação descredencia aquela – infundada – de
que os goitacá viviam em casinholas no topo de troncos fincados em lagoas. Até
mesmo Alberto Ribeiro Lamego acreditou nessa informação. Os montinhos podiam ser
de areia ou sambaquis, feitos com carapaças de moluscos e crustáceos.
Os 11 degredados explicaram que não eram criminosos de morte ou de roubo,
mas de outros crimes, que não foram explicitados. Na margem direita do Rio Grande
(Paraíba do Sul), comentou-se que as campinas eram melhores por não serem
arenosas, como perto do mar. Os capitães, melhor do que nós, perceberam a
diferença entre restinga e planície aluvial.
Reconhecidas as suas terras, os capitães retornaram a Macaé no dia
31/12/1632. No caminho, batizaram a lagoa de Carapebus, em alusão às muitas aves
desse nome, que não nos são conhecidas.
Era o dia 1 de janeiro de 1633 quando chegaram a Macaé. De lá, retornaram a
Cabo Frio navegando em sumaca. Passaram um dia com o capitão Riscado e
retornaram ao Rio de Janeiro. Essa viagem teve por fim apenas tomar posse das
sesmarias e efetuar um breve reconhecimento do terreno.
Cumpre repetir: os Sete Capitães e Martim Correia de Sá existiram. A carta de
sesmarias, os rios Macaé e Iguaçu, a lagoa Feia, o cabo de São Tomé, o rio Paraíba
do Sul, a planície fluviomarinha existem, apesar de muito modificadas.



*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.

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