Espécies acumulam parasitas e toxinas (Fotos: Rodrigo Silveira)
Espécies acumulam parasitas e toxinas (Fotos: Rodrigo Silveira)
Espécies acumulam parasitas e toxinas (Fotos: Rodrigo Silveira)
A presença de peixes das espécies tilápia e bagre africano no canal Campos-Macaé, a Beira-Valão, chamou a atenção de quem passou pelo local nas últimas semanas. Há até pessoas interessadas em pescá-los para consumo e a prática tem sido comum na altura da rodoviária Roberto Silveira. No entanto, especialistas alertam que os animais capturados no valão trazem riscos à saúde e não devem ser consumidos nem mesmo após fervura ou processo de fritura.
Os riscos em consumir pescados de locais como a Beira-Valão são alertados pelo nutricionista Leonardo Gama. Segundo ele, os animais acumulam microorganismos nocivos aos humanos que não são eliminados através do aquecimento.
“Peixes acumulam em seus tecidos parasitas e toxinas presentes na água, que não são eliminados pelo aquecimento. Há o risco de infecções intestinais graves, como as causadas pelas bactérias Escherichia coli e Salmonella. Além da contaminação por metais pesados como mercúrio e chumbo, muito tóxicos aos humanos. A população acredita que 'ferveu, limpou'. E não é assim na realidade”, disse Leonardo.
As espécies encontradas no canal são invasoras e sobrevivem no local devido às suas características e à falta de predadores. É o que explica José Armando Barreto, presidente da Associação de Produtores Rurais de São Martinho (Aprusam) e ambientalista.
“É a dominância de duas espécies exóticas invasoras, a tilápia e o bagre africano. O canal Campos-Macaé, que em seu trecho inicial já interligou ecossistemas do Rio Paraíba do Sul e da Lagoa Feia, está interrompido e hoje no trecho urbano está eutrofizado, com alta carga orgânica e química. As espécies que serão mencionadas são extremamente rústicas, sobrevivem com pouco oxigênio e sem predadores naturais, elas ocuparam o espaço que era das nossas espécies nativas”, disse.
As tilápias e bagres africanos são oriundos da aquicultura e chegam ao canal após escapar de tanques de criação
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Foto: Rodrigo Silveira
Para José Armando, é necessário que sejam observadas as carências de saneamento básico no trecho e o volume de resíduos despejados na rede pluvial do entorno do canal, além da criação de um programa de monitoramento da ictiofauna da bacia do Paraíba do Sul e da Lagoa Feia, para entender até que ponto as espécies presentes no canal urbano estão em risco.
Ele desenvolve o programa “Coleta Limpa”, em parceria com uma empresa privada, que faz a coleta e destinação dos resíduos de pescado gerados nas bancas do Mercado Municipal. O material se acumulava gerando um chorume que chegava ao canal pela rede de esgoto e atualmente é aproveitado para elaboração de farinha e óleo de peixe.
De acordo com o presidente da Aprusam, as tilápias e bagres africanos são oriundos da aquicultura e chegam até o canal Campos-Macaé após escapar de tanques de criação durante as cheias ou pelo manejo inadequado. O consumo deste pescado não é recomendado sem uma análise laboratorial completa.
“Tilápia e bagre africano são peixes detritívoros, comem no lodo, onde se concentra tudo que é contaminante: coliformes fecais, salmonella, metais pesados, produtos químicos domésticos e resíduos de agrotóxicos despejados na bacia. Elas sobrevivem à poluição, mas acumulam essa poluição no tecido. O risco não é só uma dor de barriga: É contaminação crônica, é bioacumulação de veneno”, falou José Armando.