Arthur Soffiati - A Restinga de Paraíba do Sul na literatura
* Arthur Soffiati - Atualizado em 21/03/2026 08:15
Cabe novamente esclarecer que a restinga de Paraíba do Sul é aquela formada pela associação do rio Paraíba do Sul com o mar. Ela é uma das restingas do estado do Rio de Janeiro, do Brasil e do mundo. Talvez seja a maior restinga do Brasil ou uma das maiores. Ela é a parte externa da parte aluvial da grande planície norte-fluminense. Para o olho educado, é fácil distinguir a parte aluvial da restinga. O substrato da planície aluvial é argiloso enquanto que o da restinga é arenoso.
Normalmente, o leigo e o estudioso consideram as duas partes apenas como planície. Não estão errados. Contudo, um olhar mais aguçado identificará a parte de argila e a parte de areia. Foi o que fez Alberto Ribeiro Lamego nos seus livros “O homem e o brejo” e “O homem e a restinga”. Para ele, as diferenças são evidentes. O brejo estimula o “homem” a trabalhar para construir uma civilização enquanto que a restinga leva à inação.
Nos autores que escreveram livros de ficção ou de memórias, a planície é a mesma em todas as partes. No romance “Mercedes”, de Amélia Gomes de Azevedo, publicado em 1894, Barra do Furado aparece rapidamente como um pequeno lugar que poderia estar situado em qualquer parte da planície. Ela nunca pôs os pés na localidade. A trama de “Olha para o céu, Frederico”, primeiro romance de José Cândido de Carvalho, foi ambientada na parte aluvial de planície, mas autor e leitor não atentam para tal detalhe. O que importa para ambos é o enredo, não o palco. O leitor atento ao ambiente perceberá que as personagens do romance pisam o brejo argiloso.
Em “O coronel e o lobisomem”, segundo romance de José Cândido de Carvalho, o palco é a baixada do norte fluminense, mas o autor não distingue barro de areia. Na maior parte do livro, a trama se desenrola no brejo. Em poucos momentos, o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, personagem central, toma banhos medicinais no mar. Ele está no âmbito da restinga. Nossa cultura extremamente humanista não se importa com a paisagem, mas apenas com as pessoas. Ainda não foi feito um estudo sobre a geografia dos dois romances citados.
O autor que mais valoriza a paisagem é o memorialista Thiers Martins Moreira. Em “O menino e o palacete”, ele se comove com a ambiente natural que vislumbra da sua casa, hoje o abandonado Hotel Amazonas. Descreve muito bem os ventos, as chuvas, a montanha ao fundo da planície, o som dos sinos. Mas, não era possível ver a restinga a partir de Campos. Em “Os seres”, ele se concentra nos hóspedes do hotel, geralmente pessoas rudes que vinham da parte montanhosa da região e até mesmo da restinga. Mas é mínima a descrição das paisagens.
O mais forte dos romances quanto à descrição do ambiente é “Mangue”, de Osório Peixoto Silva. Ele é ambientado na ilha do Peçanha, na foz do rio Paraíba do Sul. Estando a ilha num estuário intertropical, era de se esperar a existência de um manguezal, ecossistema muito forte que não pode passar despercebido. O manguezal pode ocorrer em substrato de pedra, de argila e de areia. A ilha do Pessanha está na restinga. Seu solo é arenoso e recoberto de argila, mas esse detalhe não aparece no romance de Osório.
Em “Retalhos da infância”, pequeno livro de memórias de Sergio Cid ambientado em Barra do Furado, seu autor fala do ambiente embrejado, das plantas nativas, dos cursos d’água, das pessoas e muito pouco da vila de Barra do Furado. Ele não lembra do terreno arenoso que pisava naquela faixa de vinte oito quilômetros ligando a restinga de Paraíba do Sul à restinga de Jurubatiba. Não era necessário conhecer a idade geológica de ambas. Bastava apenas mencionar a natureza do terreno ou o terreno da natureza.
Os pequenos e despretensiosos livros “O pitoresco do Foro e da baixada campista” e “Contos da baixada campista” caracterizam bem os moradores da grande baixada, mas não distinguem lama de areia. Seu autor, Gil Wagner Quintanilha, transita entre Goitacazes, Mussurepe, Santo Amaro, Mulaco e Marrecas, mas não percebe que esta última se ergueu sobre a areia da restinga e as outras sobre o barro da planície aluvial.
De todos os literatos, o que se deu conta da restinga foi Iberê de Sousa Cardoso em “Brejo grande: contos regionais do Norte-fluminense”. O chão de areia aparece em vários dos seus contos, com as lagoas, os vegetais e os animais nativos, com a paisagem de restinga enfim. Mas ele está em Quissamã, pisando a restinga de Jurubatiba.
De todos os autores, Alberto Ribeiro Lamego segue parcialmente os passos de Euclides da Cunha e de Gastão Cruls em seu primeiro livro: “A planície do solar e da senzela”. No livro de memórias “Atafona: vento nordeste”, seu autor, Hélvio Santafé, reúne lembranças de uma praia famosa na restinga. Ela deveria aparecer mais do que aparece.


*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras

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