Dora Paula Paes
21/03/2026 08:07 - Atualizado em 21/03/2026 08:07
Rodrigo Silveira
Um imóvel precisando de reforma como muitos do centro da cidade de Campos, com tinta azul descascando, duas portas de ferro, vizinho do Colégio Estadual Nilo Peçanha, na rua Lacerda Sobrinho, essa pode ser a referência. O estabelecimento sem nome, em questão, é conhecido como “Sebo”, e tem no seu interior 40 mil livros catalogados, espremidos por todos os lados. No entanto, seu proprietário também diz que esse número já beira os 200 mil, desde que parou de registrá-los; uma coleção formada entre trocas, compras e doações, há 52 anos.
O guardião de tantos títulos, de uma infinidade de saberes, é Salvador Teixeira Pinto, de 79 anos.
Sem espaço, até para ficar do lado de dentro da loja escura, com várias prateleiras até o teto já deteriorado pelo tempo, e tomadas de livros, Salvador se empolga ao falar do tradicional “sebo”, o primeiro de Campos, quase um patrimônio não tombado. Ele puxa o seu banquinho, com visão para a rua, e, dessa forma, conta a história que não está em nenhum daqueles livros ali dentro: a sua.
- Deixei de cadastrar os títulos. Até há um tempo meu neto trabalhava comigo. Já tive funcionário, mas depois, com a minha idade, eu fiquei falando, vou ficar devagar. Ficar brincando, me distraindo aqui - disse Salvador, que vivendo entre tantos títulos, ainda lê, mas prefere os livros que falam de saúde, de ciência. “Eu gosto de me distrair. Acho superinteressante”, ressalta ele.
Salvador revela que do “Sebo” criou e formou os quatro filhos, que cita as profissões com muito orgulho: tem professor da Universidade Federal, em Seropédica, sargento da Polícia Militar, concursado na área da saúde e comerciante de livros em Macaé. Ele não deixa de citar o papel, neste processo de educação, a ex-mulher, que é proprietária de uma tradicional livraria (sebo), também na área central de Campos e, que, juntos trabalharam na formação acadêmica dos filhos.
Quando questionado como é vender livros, alguns semi-novos, outros nem tanto, em tempo de muita tecnologia, fazendo muro com um colégio, qual é o tipo de público que atraí, ele diz que quem mais procura são professoras.
“Os alunos são poucos. Quando aparecem estão procurando por gibis. Essa geração lê muito pouco. O celular realmente atrapalha a formação de bons leitores. O pessoal fica muito no joguinho. Essas coisas todas atrapalham um pouco. Mas, a vida continua. Ainda tenho muitos leitores que compram livros. Às vezes vem alguém procurar um livro e compra oito livros, seis livros”, conta.
Rodrigo Silveira
Segundo ele, quando alguém vem com o nome de algum livro procurando, sem cerimônia, já avisa logo que não sabe se tem o tal título.
“Eu sugiro que a pessoa dê uma olhada e a pessoa acaba saíndo com muitos outros livros que acha durante a procura. Tenho meus fregueses, têm àqueles que compram para estante virtual, esses levam bastante e as senhorinhas que buscam pelos romances”. É dessa forma que Salvador mantém seu comércio e sua distração, depois da natação que ele tanto prioriza pela saúde.
A entrevista se torna uma conversa. Ele não para de repetir, durante o bate-papo, “são muitos livros, é livro que não acaba mais”, alocados nos 40 metros quadrados da loja, no prédio próprio, que Salvador também reside.
Em todo esse tempo de comércio, Salvador lembra que já esteve na mídia, principalmente. quando a leitura tinha um peso diferente na vida das pessoas.
Ele fala com orgulho da primeira entrevista que concedeu; essa foi ao jornalista Osório Peixoto - falecido em 2006, também escritor, ele passou por vários jornais locais e na capital. Salvador, porém, não lembra para qual jornal foi entrevistado pela celebridade literária de Campos.
Se em meio a tantos e tantos livros, existe algum especial, e que ele considera o mais raro (o que, de acordo com ele, é o mais caro). O título é “Conheça seu Fusca”, com o preço de R$ 200.
“Ele está meio perdido aí dentro, mas ele está aí”, disse rindo. “Ele é bem procurado, mas as pessoas não compram porque ele é caro”, completa.
Dora Paes
E nesse bate-papo, sobre livros, história de vida, caro e querido leitor, que até quem vos escreve, acabou se prendendo em um deles que surgiu no seu campo de visão. Dessa forma, colocou o comerciante que existe dentro de Salvador para jogo e resgatou com sucesso do “Sebo” o título que chamou sua atenção. Um livro de capa grossa, bem surrada, batizado de “O Globo de todas as Copas”, de 30 a 78, com imagem de Pelé colorida correndo para dentro de uma página em preto e branco na capa.