Arthur Soffiati - Horror na literatura brasileira
*Arthur Soffiati - Atualizado em 07/02/2026 09:16
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Júlio França e Oscar Nestarez lançaram o segundo volume de “Tênebra” em 2025 (São Paulo: Fósforo). Os dois autores descobriram que o horror atravessou o oceano Atlântico e se alojou na América. Ambos os autores andam atrás dele na literatura brasileira. Escritores conhecidos e esquecidos estão em ambas antologias ou coletâneas.
Lendo os dois livros, não fica claro, para mim, o critério de seleção. O que significa horror? Os autores esclarecem que “... elementos do gótico, do horror, do grotesco e afins foram extensivamente empregados em nossa ficção. Estamos convencidos de que reavaliar o papel desempenhado por essas tradições obscuras pode lançar luz sobre aspectos ainda pouco explorados pelos estudos literários brasileiros.”
Eles aludem ainda a poéticas negativas. O sentido de horror fica mais claro quando ambos recorrem ao gótico, para o romantismo brasileiro, e ao expressionismo, para o modernismo. “A compreensão do expressionismo como uma arte sombria é bem disseminada nos estudos de cinema, sendo farta a bibliografia que associa as ideias do movimento aos primeiros filmes de horror.”
Mas o conceito ou noção de “horror” ainda parece confusa ou muito aberta. A própria ideia de “gótico” deixa dúvidas. Nem toda arte que recorre ao clima noturno do gótico é assustadora. Nem toda arte pautada pelo expressionismo atemoriza. É certo que tanto o gótico quanto o expressionismo se prestam a uma literatura, a uma pintura, a um filme assustadores. A noção de horror é muito ampla. A de terror já está mais definida. Pelo menos nos termos em que a coloco: a presença do sobrenatural e do medo. Assim, uma novela como “Noite na taverna”, de Álvares de Azevedo, entra na classificação de “horror”. Embora não esteja presente o sobrenatural, o romantismo extremo do autor reúne, numa taverna, pessoas que competem sobre suas atrocidades. Ele se movimenta no clima gótico do romantismo.
O segundo volume de “Tênebra” reúne textos escritos e publicados entre 1900 e 1949. Um terceiro deve estar a caminho. Além da seleção, está havendo um trabalho de arqueologia em arquivos por uma equipe porque apenas duas pessoas não conseguiriam localizar autores que viveram pouco tempo como literatos. Que morreram com sua morte física. Que viveram à margem dos escritores “importantes” da literatura brasileira. Mas, recorrendo a Mário de Andrade (que, pelo critério dos autores, está no segundo volume da coletânea com um conto que nunca me pareceu assustador), a grande arte só é grande porque comparada com a pequena arte. Sabe-se que um escritor é importante porque ele se destaca entre os modestos. Assim, toda a literatura conta.
Enfim, as noções de terror, ficção cientifica assustadora e distopia se confundem tanto para o leigo quanto para o estudioso. No primeiro volume de “Tênebra” (São Paulo: Fósforo, 2022), encontrei narrativas que se valem do elemento sobrenatural para assustar. Entre elas, os contos “Missa do galo” (1839), de Maciel da Costa; “A feiticeira” (1849), de Antônio Joaquim da Rosa, “Festim no cemitério” (1864), de Cícero Pontes, “Senhor das caças” (1871) de Juvenal Galeno, “Jupira” (1884), de Bernardo Guimarães e “O acauã” (1893), de Inglês de Souza.
No segundo volume, o assustador está no sonho, como “Pelo espaço”, de Amélia Bevilácqua (1900). Na “Crônica das árvores do Passeio Público” (1906), Carmem Dolores protesta pelas mutilações de árvores do Passeio Público, que, para os autores da coletânea, soa como precursor do movimento ambientalista. Na verdade, o romantismo tem um pé no amor à natureza. Não é nada de novo. Dolores é uma romântica tardia. “Vampiro”, de Coelho Neto, resvala no terror, mas se afasta dele porque a presença da alma do marido falecido no corpo do filho é pura imaginação da mãe viúva. Mesmo assim, a história bem podia sustentar um filme de terror.
“O carro da Semana Santa”, de João do Rio, é forte. Seria um conto de terror se o passageiro da carruagem fosse um fantasma. Mesmo assim, o contraste entre o ambiente da Semana Santa e o misterioso passageiro da luxúria impressiona. É um dos melhores relatos do livro. Em “O negrinho do pastoreio” (1912), de João Simões Lopes Neto, o sobrenatural perde força no interior da lenda. “Pelo Caiapó Velho” (1917), Hugo de Carvalho Ramos fala de história de fantasmas. Porém, fantasmas reais estão ausentes. “A cruz-das-malvas” (1934) introduz o sobrenatural. É o único relato em todo o livro com elemento sobrenatural objetivo. Em “Contas brabas” (1938), Gastão Cruls mostra ser um grande escritor. Hoje, o esquecimento relativo de sua obra não lhe faz jus.
Creio que a literatura brasileira contém narrativas pessimistas, dolorosas, melancólicas, mas não tanto sobrenaturais. Senti falta de Graciliano Ramos. Aguardemos o terceiro volume de “Tênebra”.

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