Arthur Soffiati - Imprensa liceísta
*Arthur Soffiati - Atualizado em 10/01/2026 10:19
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Merenice Merhej, em sua dissertação de mestrado, mostrou uma face de Mário de Andrade pouco conhecida. Seu trabalho acadêmico foi publicado em livro com o título de “Mário de Andrade e a voz da infância” (Curitiba: Appris, 2022). Trata-se de um trabalho acadêmico bem típico dos tempos atuais. Pelo menos descobri que, além dos Parques e da Biblioteca Infantis, Mário estimulou o jornalzinho “A voz da infância”, redigido por crianças e destinado a crianças. Ela escreve que “... na primeira década do século XX, jornais eram um meio de comunicação muito presente na vida da população.” Em suas pesquisas, ela encontrou jornais redigidos em árabe e hebraico produzidos pelas respectivas comunidades. Devem existir periódicos em outras línguas em São Paulo e Rio de Janeiro.

Mais que isso: a imprensa escrita foi importante entre a segunda metade do século XIX e 2000. Os meios virtuais de comunicação estão condenando a imprensa escrita à morte progressiva. A leitura do livro me reportou à vida jornalística do Liceu de Humanidades de Campos. Encontrei um artigo de Barbosa Guerra, publicado em “O Liceu” de 22 de novembro de 1955.

No artigo intitulado “Jornais do Liceu”, Barbosa Guerra arrola 47 títulos entre 1887 e 1955. Eram periódicos com curta vida que permitiam aos estudantes um exercício de pensamento, posicionamento e redação. O Liceu tinha uma vida que não existe mais. Apontemos os títulos: “O Lábaro (1887), “O Diaphano” (1887), “O Tentamen” (1887), “A Revolução” (1889), “O Dia” (1890), “O Republicano” (1896), “O Futuro”, “O Beijo” (1897), “O Porvir” (1897), “A Pátria” (1897), “O Iracema” (1897), “O Rebate” (1898), “O Metralha” (1899), “A Estrea” (1901), “O Ideal” (1902), “O Merito” (1904), “Florilegio da Mocidade” (1908), “Sirius” (1909), “O Ideal” (1913), “O Lábaro” (1917), “O Parnaso” (1921), “O Exemplo” (1922), “O Parnaso” (1925), “O Estudante” (1925), “O Lábaro” (1925), “A Phenix” (1927), “A Mocidade” (1929), “A Rede” (1931), “Mascote” (1931), “O Estudante”, “O Detetive” (1933), “Jornal do Lyceu” (1935), “Complementar” (1937), “O Ginasio” (1941), “O Liceista” (1942), “O Estudante” (1942), “O Detetive” (1943), “O Porvir” (1944), “O Ateneu” (1947), “O Grito” (1950), “A Verdade” (1950), “O Arauto Estudantil” (1952) e “Cultura Goitacá” (1952).

Barbosa Guerra informa no artigo manter vários dos jornais mencionados no Museu Silva Arcos, de sua propriedade. Ao organizar o Arquivo Histórico do Liceu para o centenário do colégio (1980), dei continuidade à lista de Barbosa Guerra com os poucos jornais que encontrei no monte de documentos, que foram organizados. Menciono os que encontrei: “O Liceu” (1955), “Novos Horizontes (1959), “O Liceu” (1963), “Mosaico” (1963), “O Liceu” (1965), “O Liceista” (1967), “Mini-Jornal” (1969), “Correio Estudantil” (1969), “Jornália” (1969), “Tele-Tipo” (1972), “Mensagem Liceísta”, “Mass-Media” (1974), “O Brado” (1978), “Liceu em Foco” (1979), “O Carvalho” (1980) e “Sem Grilo” (1980).

Ao todo, listei 63 títulos. Se não as coleções completas, exemplares de vários títulos foram catalogados por mim no Arquivo Histórico. De “O Ideal”, o Arquivo recebeu a coleção completa das mãos do Dr. Oswaldo Cardoso de Mello. Vários nomes que figuram como redatores irão se destacar posteriormente como intelectuais, professores e escritores. Cito alguns nomes: Flamínio Caldas, Leovigildo Leal, Godofredo Tinoco, Álvaro Barcelos, Plinio Bacellar da Silva, Aldano Barros, Nilton Manhães, Barbosa Guerra, Roberto Wilson Fernandes, Carlos Cardoso Tinoco, Manoel Luiz Martins Neto, Francisco Saturnino da Silva Pinto, Vilma Tâmega, Sidney Pascoutto, Fernando Leite Fernandes, Fernando Luís, Lenise Peralva e Neivaldo Paes Soares. A presença feminina é marcante na imprensa liceísta.

A organização e a direção do Arquivo Histórico do Liceu representaram para mim um dos melhores momentos da minha vida de professor. Ministrei um curso de história contemporânea cujos recursos arrecadados reverteram em benefício do Arquivo. Ganhei uma pequenina sala cheia de moveis velhos e papeis para descarte. Organizei tudo. Coloquei os documentos encontrados em ordem cronológica para uma posterior organização mais detalhada. Editei quatro números do Boletim do Arquivo Histórico do Liceu de Humanidades de Campos. O periódico mereceu a atenção do Arquivo Histórico Nacional e da Biblioteca do Congresso Norte-Americano. Alguns alunos com pendores artísticos desenharam as capas do Boletim. Vários autores escreveram artigos para ele.

Mas voltei à sala de aula. A direção do Arquivo passou a outras mãos. Aos poucos, tudo foi se perdendo. O Arquivo mereceu trabalhos acadêmicos. Creio que hoje nada mais resta. Anos atrás propus que os documentos salvos fossem destinados ao Arquivo Público de Campos. Hoje, o Arquivo do Liceu é apenas um retrato na parede, mas como dói!
*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras. 

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