Apesar do crescimento do número de armas vendidas ano após ano, desde a entrada em vigor do estatuto do desarmamento, a indústria de armas leves do país continuava a defender a revogação da legislação e o restabelecimento da liberdade no comércio desses equipamentos. O principal foco de atuação para o contra-ataque foi um poderoso lobby no Congresso Nacional através do poderio econômico de uma indústria que tinha o monopólio do mercado interno.
O Brasil é um dos poucos países que além de sofrerem pela difusão da violência por armas de fogo possui uma próspera indústria armamentista. Foi um fenômeno do século XX, quando imigrantes europeus nas regiões sudeste e sul fundaram as primeiras fábricas de armas do país nas décadas de 20 e 30. Com o passar dos anos, fábricas como Boito, Rossi e Taurus foram sendo adquiridas e incorporadas até formarem o que atualmente é o monopólio da CBC – Companhia Brasileira de Cartuchos. Apesar da existência da Imbel, uma estatal controlada pelo exército, o mercado de armas e munições é controlado pela CBC que absorveu as concorrentes.
Além de controlar o mercado interno, chama atenção a participação da indústria armamentista brasileira no mercado externo. Segundo dados da ONG Small Arms Survey, sediada na Suíça, o Brasil é o terceiro maior exportador de armas leves do mundo, ficando atrás somente dos EUA e da Itália. Com quatro plantas industrias no país e outras nos EUA e na república Tcheca, a CBC se tornou um grande “player” no mercado internacional de armas leves.
E foi através do uso de seu poderio econômico que a indústria decidiu combater o que considerava o maior entrave a um crescimento ainda maior de suas vendas, o estatuto do desarmamento. Com o financiamento de campanhas eleitorais de vários candidatos criou um poderoso lobby que se notabilizou pela defesa da liberação do comércio de armas e diminuição do controle estatal. Segundo dados obtidos junto ao TSE em 2014, 18 deputados federais eleitos receberam doações da CBC, sendo que 11 deles também receberam doações na campanha de 2010. Com deputados de diversos partidos como PSDB, PT, DEM, PSB e PDT, ficou claro que para a indústria não importavam as diferenças ideológicas. O objetivo principal era a defesa de seus interesses, e isso foi seguido à risca.