Com a entrada em vigor da lei 10.826/03, conhecida como Estatuto do Desarmamento, o impacto no comércio de armas de fogo foi imediato. Se de 1997 a 2003 eram vendidas anualmente cerca de 17.000 armas de fogo para pessoas físicas, esse número despencou para cerca de 3000 em 2004. Isso também se refletiu no número de estabelecimentos comerciais que comercializavam armas, caindo de 2400 lojas em 2000 para 280 em 2010. Mas o impacto poderia ter sido ainda maior, pois em seu artigo 35 era prevista a proibição da comercialização de armas de fogo em todo o território nacional, porém em referendo realizado em 2005 essa medida foi rechaçada pela população.
Além de restringir a compra de armas estabelecendo requisitos como idade mínima, ocupação lícita e comprovação de capacidades técnicas e psicológicas, a legislação previu uma anistia para que as pessoas legalizassem armas sem prever qualquer punição, uma medida vista como importante para um controle maior sobre a circulação de armas na sociedade. Junto com essa anistia, foi lançada uma campanha voluntária de entrega de armas na qual qualquer pessoa poderia entregar uma arma de fogo recebendo uma indenização do governa federal. A campanha foi considerara um sucesso e segundo o Ministério da Justiça, cerca de 600.000 armas foram entregues e posteriormente destruídas.
Segundo estudo da UNESCO, essa diminuição na quantidade de armas em circulação teve um efeito imediato nas taxas de homicídios por armas de fogo. Até a entrada em vigor da lei, as taxas de homicídio subiam ao ritmo de 7% ao ano e em 2005 houve uma redução de 8% no número de homicídios por armas. Porém essa queda foi pontual, pois logo depois as taxas voltaram a subir, mas em taxas menores. Segundo esse mesmo estudo, essa redução teve o efeito de salvar 160.000 vidas que teriam sido tiradas se o ritmo de crescimento tivesse sido mantido.
Ao mesmo tempo que os homicídios voltavam a subir, o número de aquisições de armas seguia o mesmo caminho. Se em 2004 foram autorizadas 3000 aquisições de armas, esse número chegou a 34.000 em 2017. E mesmo com o crescimento de mais de 1.000% no número de armas vendidas para pessoas físicas, muitos defendiam que a lei 10.826/03 impedia que as pessoas adquirissem suas armas, e esse discurso foi ganhando cada vez mais adeptos.