Profissionais de Educação Física, Carlos Farfan e Manuella Paravidine formam uma dupla das melhores na arte de ensinar a corporeidade e promover a inclusão através das atividades circenses.
Vida Ativa: Carlos Você praticamente nasceu no Crico, vem de uma familia circense. Com que idade você começou atuar no picadeiro? Viajava com o circo? Como era essa dinâmica?
Carlos Farfan: Eu pertenço a 6ª geração circense,nasci em 1983 e nessa época meus pais trabalhavam no Circo de Roma, logo já estava inserido nesse mundo.Meu pai era domador( nesse período animais eram permitidos) e também motorista responsável pela mudança. Minha mãe era do bailado(número tradicional de dança que abria o espetáculo de circos de porte grande),também responsável por uma das vendas ( é o comércio que existe no interior do circo durante os espetáculos ,como: batata frita,pipoca,algodão doce,brinquedinhos,refrigerante,etc.);esta venda é um acordo feito entre o proprietário do circo e os artistas (alguns ganham comissão pela venda,outros a venda integral).
Antigamente,o circo contratava famílias e cada componente apresentava um número,tinha seu salário semanal e uma venda garantida. Comecei a trabalhar com 4 anos como palhaço e "domadorzinho".
Como estávamos num circo grande,as mudanças ocorriam a cada 2 meses( dependendo do movimento ).
Tínhamos um Moto Home(quarto,cozinha,banheiro,sala),ele ficava instalado ao redor do circo juntamente com o das outras famílias,mantínhamos um círculo de amizade com as pessoas que trabalhavam nele,frequentava a escola da cidade( a lei 6.533/78 garante a inscrição nas escolas públicas;esta lei foi modificada e "melhorada") e a cada cidade mudava de escola,fazendo sempre novos amigos(apesar de ter sido uma criança bem tímida).A amizade ficava ali,porque não havia internet,celular...e,os grandes circos mudavam cerca de 500km de distância de uma cidade para outra,o que dificultava manter a amizade.
Vida Ativa: como foi identificado na sua carreira profissional o encontro com a linguagem circense?
Manuela: Sempre fui apaixonada por esportes,pratiquei natação,vôlei,dança,Tae-kwon-do...Quando finalizei o ensino médio não havia faculdade de ed.física em Campos e como eu era muito jovem fiquei com medo de ir para outra cidade,como nunca tive dúvida que queria ser professora,fiz letras_português/inglês_ (porque amo inglês),quando acabei a faculdade,veio para Campos o curso de ed.física e imediatamente iniciei e foi fantástico.
Sou professora há 24 anos(comecei com aulas de inglês em cursinho),sempre com um olhar muito observador,ao longo desses anos vejo o comportamento dos alunos em diversas faixas etárias e há inúmeros fatores que os"bloqueiam",como: falta de vivência motora,dificuldade de integração com os colegas,medo de tentar, concentração...experimentar,agressividade,rebeldia,dificuldade de .Tudo isso em sala de aula irá interferir diretamente no dia a dia.
Ao conhecer Carlos tive a chance de primeiro observar como as atividades eram propostas e realizadas e posteriormente trabalhar com atividade circense,foi mágico pois fica claro como as atividades propostas são realizadas com fluidez.
Durante as aulas não há competição,há cooperação,não há o famoso "não consigo" e sim o "vamos lá...você consegue",independentemente da idade,do sexo,de classe social, de alguma deficiência...todos conseguem;claro,cada um ao seu tempo.
Na E. E. Nilo ,Carlos trabalhou lá no projeto Mais Educação ,desenvolvendo atividades circenses com os alunos, a demanda foi imensa e super bem aceita . Toda aquelas problemáticas citadas acima, foram amenizadas , alguns alunos realmente transformados , com rendimentos maravilhosos em diversas disciplinas. Portanto, possibilitar uma atividade que fará os alunos evoluírem no esporte e esses resultados refletirem positivamente em suas vidas, tornando-os mais seguros,respeitosos e dedicados não tem preço.
Vida Ativa: A cultura dos grandes circos sempre foi de espetáculos teatrais, artísticos o que mudou nesse conceito na era cibernética?
Carlos Farfan: As mudanças que ocorreram não foram em relação a troca de números,mas sim, uma roupagem diferente(música,iluminação,efeitos sonoros)Um exemplo claro é o Circo de Solei ( fundado em 1984 ) que usa como base todos os números clássicos, como trapézio,lira,paradas,acrobacias,contorcionismo,malabares,palhaço,entre
outros... agregando o teatro, a música e a dança. Ele ganhou
popularidade mundial anos depois,nesse meio tempo foi proibido os animais nos circos ,com esta proibição,o Circo de Solei ganhou uma visibilidade maior por não usar animais em seus espetáculos.
No início foi muito difícil,não só para os proprietários do circo,como também para o público porque eles iam em busca das atrações com animais.Com essa mudança os circos tiveram como obrigação(uma questão de sobrevivência),adaptar-se as novas tendências .
Outro elemento complicador é a internet,porque antigamente quando o circo chegava numa cidade,todos queriam ir.... hoje a variedade de diversão dificulta esse acesso.
Vida Ativa :O sedentarismo é considerado pela OMS como pandemia. Na sua opinião Campos comporta uma escola circense , como proposta para contribuir com a economia criativa e difundi a prática de atividade física?
Carlos Farfan
Sim.
Campos é a maior cidade do interior do Rio de Janeiro e certamente não só comporta,mas também necessita de uma escola de circo
por se tratar de uma arte com um leque imenso de atividades físicas e culturais que abrange todo o tipo de público (crianças,adolescentes,adultos,idosos,portadores de necessidades especiais...),sendo uma atividade de inclusão,já que na arte circense se trabalha : acrobacia de solo,acrobacia aérea,equilíbrio,malabarismo,comicidade( palhaço ),expressão corporal...Dentre dessas atividades,a pessoa sempre se identificará com pelo menos uma delas.
Vale ressaltar que em Campos dos Goytacazes há lugar que oferece aulas de atividade circense_ CENSA (há 7 anos) ,ambos têm como objetivo ensinar a arte circense não como uma formação profissional e sim,agregar valores ,trabalhar o lado físico e a inclusão social.Já a escola de circo além dos objetivos mencionados,também formar profissionais circenses.
Vida Ativa :Você considera a arte circense um forte instrumento de educação corporal?
Manuela: Sim,devido ao avanço da tecnologia e da violência as pessoas,principalmente as crianças tendem a passar mais tempo na frente do computador como forma de "passatempo"perdendo a oportunidade de vivenciar as brincadeiras corporais e as atividades circenses oferecem todas as atividades corporais de uma forma lúdica,resgatando brincadeiras essencias para o desenvolvimento cognitivo.