Edmundo Siqueira: A universidade e o ônibus que não passa
Mário Sérgio Junior - Atualizado em 09/05/2026 08:38
Edmundo Siqueira
Edmundo Siqueira / Foto: Reprodução
Por Edmundo Siqueira*
A universidade e o ônibus que não passaNas últimas eleições municipais em Campos a Folha ouviu diversas pessoas, ligadas a diferentes áreas, sobre o que a cidade precisava fazer naquele presente e quais caminhos deveria seguir nos próximos anos. E um dos caminhos mais falados e mais concordes, entre todos, foi a aproximação do poder público e da sociedade campista com as universidades.
Campos talvez esteja entre as cidades brasileiras que mais produzem inteligência e menos sabem o que fazer com ela. Há professores, pesquisadores, estudantes, laboratórios, seminários, artigos, bancas, congressos e tantas outras iniciativas que produzem conhecimento, essencialmente, mas que pouco dialogam com a realidade local.
Isso tudo num parque invejável de escolas técnicas, institutos de educação, universidades públicas e privadas. Há, numa palavra, pensamento. O problema é que, quando se olha para a rua, para o transporte, para o Centro, para o patrimônio histórico, para a economia e para a cultura, a impressão é de que pensamento e realidade ainda estão distantes.
Campos tem uma vocação educacional antiga. Não é de hoje que a cidade se oferece como polo regional de formação para todas as cidades vizinhas. Isso gera — ou deveria gerar — não apenas divisas econômicas como dinamismo de pensamento. Forma–se um movimento de pessoas que possuem, em geral, olhar crítico e movimentam não apenas a economia, mas o pensamento da cidade.
Por aqui abrigamos instituições que, em qualquer projeto sério de desenvolvimento, seriam tratadas como motores estratégicos. A Uenf, a UFF, o IFF, o Uniflu, IseCensa, Ucam e outros campi que oferecem cursos de saúde, direito, engenharia, serviço social, tecnologia, humanas, gestão, licenciaturas. Cada uma dessas instituições produz algo que não aparece imediatamente, mas, se aproveitado, muito de desenvolvimento sustentável.
Só que conhecimento, sozinho, não governa a cidade. É preciso criar formas de escuta, para isso se transformar em planejamento, política pública e continuidade de ações — aqui algo que se percebe pouco em Campos. Para tanto, não pode estar limitado às mesas-redondas e a fotografia institucional do político com o reitor. É preciso encostar no chão. E isso não depende apenas da sociedade e do poder público, depende também de autocrítica dos “doutores encastelados”, depende que haja disposição em sair de bolhas e olhar para a cidade.
Não basta Campos ter pesquisadores estudando mobilidade se o cidadão continua sofrendo com um transporte público deficitário, e os próprios universitários tenham dificuldades em chegar às aulas. Gente pensando patrimônio se o passado continua apodrecendo atrás de tapumes e escoras (quando existem). Não basta ter diagnósticos sobre saúde pública se o usuário ainda atravessa a cidade atrás de atendimento. E ainda uma questão de fundo mais preocupante: uma juventude qualificada em que o destino mais provável é prestar concurso para fora, trabalhar remotamente ou simplesmente ir embora.
Uma das tragédias discretas das cidades médias brasileiras é essa: elas educam seus filhos para que eles descubram, com mais clareza, os limites da própria cidade. Esse “filho” entra numa universidade em Campos, passa quatro ou cinco anos estudando, aprende a interpretar a realidade, amplia repertório, conhece autores, técnicas teorias e depois olha em volta e percebe que a cidade que ajudou a formá-lo não preparou um lugar para ele.
Não se trata de defender que todo mundo fique. Seria provinciano, e até injusto. O problema é quando essa partida deixa de ser escolha e passa a ser método de sobrevivência. A cidade que deveria reter o conhecimento, ou parte dele, se transforma apenas em etapa, nunca em destino.
Campos poderia fazer outra escolha. Poderia tratar suas instituições de ensino não como ilhas, mas como o verdadeiro caminho de um projeto de cidade, algo visto lá atrás nos painéis que a Folha fez. Isso seria possível com uma política permanente de integração entre universidade, poder público, empresas, escolas, cultura e inovação. Esse caminho certamente passaria por trazer os TCCs, dissertações e pesquisas aplicadas em uma espécie de “banco de soluções” para problemas reais, chamar seus pesquisadores não apenas para compor mesa em solenidade, mas para desenhar políticas públicas.
Não se trata de achar culpados
É claro que isso já acontece em alguma medida, e basta uma pesquisa rápida em ferramentas de busca acadêmica para perceber que há muitos trabalhos que olham para Campos, oferecem diagnósticos e soluções para os problemas, ou pelo menos caminhos.
Mas o ponto é que isso dialoga pouco com a sociedade como um todo, e olhando para a estrutura educacional que Campos possui, na prática, essa relação poderia render muito mais benefícios para todos os lados envolvidos.
Imagine uma cidade em que os estudos sobre mobilidade ajudassem a reorganizar linhas, horários e trajetos. Ou que pesquisas sobre patrimônio orientassem restaurações, roteiros históricos e educação patrimonial nas escolas. Ou ainda que alunos de tecnologia desenvolvessem soluções para transparência pública, turismo, cultura e serviços urbanos. É preciso criar em Campos caminhos para que essas imaginações sejam possíveis.
Isso não é fantasia, passa por uma administração com menos improviso e mais humildade. Humildade, aliás, talvez seja a palavra. Para os dois lados. Porque uma cidade que tem universidades precisa aprender a ouvi-las. E a universidade, por sua vez, também precisa descer de seus próprios muros e pedestais. Não há virtude em produzir conhecimento que não conversa com a cidade ao redor.
Transformar a educação em projeto de futuro passa por não apenas formar mão de obra, expressão pobre demais para a complexidade humana, mas em formar cidadãos, pesquisadores, empreendedores, técnicos, gestores e lideranças capazes de reinventar a vida local.
Talvez o futuro de Campos não esteja apenas em uma grande obra, em uma nova avenida, em um programa de governo ou em mais promessas de campanha. Talvez esteja dentro das salas de aula, dos laboratórios, das bibliotecas e dos trabalhos acadêmicos que a cidade costuma aplaudir nas cerimônias, mas raramente incorpora às suas decisões.
Campos tem história, instituições, juventude e problemas suficientes para ocupar gerações de pesquisadores. Falta transformar essa inteligência dispersa em um pacto de cidade. Enquanto isso não acontecer, continuaremos diante de uma contradição melancólica: uma cidade capaz de ensinar tanta gente a pensar, mas ainda incapaz de pensar seriamente o próprio futuro.
*Servidor federal, jornalista e blogueiro do Folha1
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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