Arthur Soffiati - Indígenas do norte fluminense no século XVIII
No século XVIII, o Norte e o Noroeste Fluminense não existiam com esses nomes. Havia uma grande unidade administrativa denominada Distrito dos Campos Goitacás, parte da Capitania do Rio de Janeiro. Além do famoso manuscrito de 1785 sobre o Distrito, Manoel Martins do Couto Reis deixou outros manuscritos sobre o atual norte-noroeste fluminense: “Memória acerca dos meios de facilitar e ampliar a civilização dos indígenas que habitam as margens do rio Paraíba do Sul e seus confluentes: do expediente mais racional para tratar o estabelecimento de uma navegação pelo mesmo rio e do modo mais próprio de arranjar serrarias, corte e fabrico de madeiras a coberto das invasões indígenas” (1799); “Carta dirigida ao Marquês de Aguiar acerca da necessidade de se estabelecerem cartas geográficas bem calculadas em todas as Capitanias do Brasil em que se indiquem individualmente as suas partes centrais” (20/04/1814); e “Breve notícia dos índios que habitam nos Campos dos Goytacazes” (s/d). Os dois primeiros integram o acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O terceiro tem o carimbo da Biblioteca Central da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Deve ter pertencido a Lamego, que vendeu sua coleção para a USP em 1935.
Mas nenhum documento é tão ilustrativo quanto a “Descrição sobre os Campos”, de 1785, na qual ele dedica considerável parte à questão dos povos indígenas do Distrito. Primeiramente, traça um quadro etnogeográfico, identificando e localizando os povos extintos e os ainda existentes. Sua visão dos goitacás, àquela altura já desaparecidos, também está impregnada de fantasias: “Eram estes índios dotados de uma condição feroz e inclinados a mais brutal crueldade, de tal sorte que, caindo qualquer indivíduo de diferente nação nas mãos da sua barbaridade, o dilaceravam logo para uso dos seus manjares.”
Visitou os índios saruçus, que viviam entre os rios São João e Macabu, já debilitados e contando com baixo contingente demográfico. Localizou os coroados entre a margem direita do rio Paraíba do Sul, a serra da Frexeira e o rio Pomba, explicando que esta denominação, de origem portuguesa, deveria referir-se aos índios guarulhos. Os puris ocupavam a área que se estendia do sertão do rio Muriaé ao sertão do rio Pomba: “índios assaz corpulentos, audazes, destemidos, vigilantes e de máximas muito atraiçoadas, inclinados a toda desumanidade, dando a morte a qualquer vivente que encontram seja ou não irracional, ainda que os não ofendam.” Por fim, os guanhuns, que habitavam a região entre o rio Imbé, o rio Paraíba do Sul e a lagoa de Cima e que, sob pressão dos coroados, acabaram por se retirar para lugar ignorado.
Deixa-nos informações sobre as línguas faladas pelos povos indígenas, totalmente diferentes da língua tupi; sobre as técnicas de construção das habitações e a maneira de ocupar seus interiores; sobre a agricultura, os alimentos e as bebidas de que se valiam; sobre indumentárias e adornos; sobre religião, leis e governo; sobre as trocas, a guerra e os rituais de sepultamento.
Com respeito ao adultério entre os indígenas, ele escreve: “Algumas pessoas de crédito afirmam ser o adultério rigorosamente punido e outras também com larga experiência de tratarem com esta gente uma rústica amizade, testemunham o contrário: qual das opiniões é mais segura, eu não decido”.
Ele admira os jesuítas, mas não lhes poupa críticas em explorar os indígenas: “Estes padres tão versados em ardis, com manha inexplicável, reduziram muitos índios e os aldeavam depois de instruídos mal na doutrina cristã: nada mais faziam a benefício que se utilizarem dos serviços em que os empregavam, tratando-os como seus escravos (...) Quem tem completo conhecimento do espírito jesuítico, muito bem sabe que tinham por um princípio e ponto de política ocultarem àquela gente tudo que era ciência e artes mais sublimes a fim de que com maiores noções não viessem a aspirar uma vida mais honrosa e civilizada; porque em tal caso decairia a sujeição e se acabaria o império que dominavam”.
Para aqueles que acusavam os indígenas de preguiçosos, Couto Reis mostrará as grandes glebas de terra doadas a sesmeiros sem nenhum cultivo ou criação pastoril. Para os que imputam ambição aos indígenas, ele apontará os brancos como os grandes professores na arte da cupidez. Mais tarde, o militar se mostra mais duro e pragmático no trato com os nativos. Nas “Memórias de 1799”, aconselha que as expedições para a exploração da bacia do Paraíba do Sul deveriam se acautelar dos possíveis insultos dos gentios, se bem que, por experiência pessoal, a ele lhe parecesse pequeno o perigo de ataques. No seu entendimento, os índios são os seres mais infelizes, incultos e ignorantes do mundo, merecendo sentimentos de docilidade, brandura e humanidade por parte dos colonos, que devem buscar a sua amizade e respeitar as suas mulheres, com as dádivas sempre precedendo a persuasão. E que dádivas são estas? Machadinhas, facas, canivetes, tesouras, anzóis, agulhas grossas, tecidos coloridos e de riscos grossos, miçangas, espelhos e, sobretudo, aguardente, a mais apreciada de todas por eles.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.