Estudante da rede municipal com paralisia cerebral entra na universidade pública
21/07/2021 10:43 - Atualizado em 21/07/2021 10:59
Estudante Paola Rangel de Brito
Estudante Paola Rangel de Brito / Divulgação
Paola Rangel de Brito, 21 anos, tem uma história de muitas dificuldades, lutas, superações e vitórias. Ela nasceu em São João da Barra com diagnóstico de paralisia cerebral e foi transferida para o Hospital dos Plantadores de Cana, em Campos, onde ficou internada por dois meses entre a vida e a morte. Precisou de atendimentos de equipe multiprofissional para sobreviver: cardiologista, fonoaudiólogo, psicólogo, neurologista e fisioterapeuta. Mas ela e sua mãe, Luciana, não desistiram em nenhum momento. Paola cursou todo o ensino fundamental na rede municipal de Campos e, este ano, ingressou na universidade pública, após ter sido aprovada para o curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF-Campos).
Sua mãe conta que a luta pela vida sempre foi muito intensa e relata o orgulho que tem da filha. “Eu não podia trabalhar, tinha de ficar com ela, que ficou sete anos sem andar e sem falar. A interação com a sociedade era bem difícil. O ser especial e a mãe da criança especial têm de lutar muito para chegar em algum lugar”, disse Luciana.
— Tudo foi muito difícil. A Paola estudou na Creche Irmã Dulce, na Escola Municipal Sebastiana Machado e, depois, na Escola Municipal Leopoldino Maria, onde foi atendida com muito amor, com muito carinho, na sala de recursos pela professora Bete, a qual foi imprescindível para a evolução de Paola, porque ela sempre foi muito inteligente, mas faltava o espaço dela. O que ela conseguiu na sala de recursos, com objetos, com o computador com teclado em colmeia e quadro ábaco para provas de Matemática foi incrível. A professora Bete foi tudo para a Paola — comentou.
Segundo Luciana, as profissionais da sala de recursos usavam lápis de carpinteiro, confetes e miçangas de fazer bijuteria para ajudar na contagem. Ela também frequentou o Colégio Estadual Desembargador Álvaro Ferreira Pinto, onde foi honrada como oradora da turma no final do ano, na formatura do Ensino Médio.
— A Paola fez o Enem, foi muito bem classificada. Eu fiz a inscrição dela no Sisu, onde ela foi contemplada na única vaga de Psicologia para pessoa com deficiência no período integral na UFF-Campos. Ela já está matriculada. Iniciou o ano letivo no dia 14 de junho. Se Deus quiser, ela vai dar sequência. Tudo isto foi devido ao grande interesse dela, com as limitações dela. Mas ela é uma pessoa comprometida, especial. A sala de recursos teve um papel primordial, foi um incentivo, a partir dos objetos, a partir da atenção, do amparo na parte familiar, da vontade de vencer. É importante ter alguém que ajude, isto vem como auxílio às famílias, junto destas pessoas de suporte, apoio, professores capacitados. É inacreditável o que as pessoas são capazes de fazer, progredir. Paola é incentivo para muitas pessoas. Não é fácil. É tudo muito difícil. Assim como este período da faculdade vai ser muito difícil para ela também. Mas não tem luta sem vitória. Hoje eu também sou uma vitoriosa. Voltei a trabalhar e faço faculdade — destacou Luciana.
Para a mãe, a sociedade deveria dar mais valor à inclusão. “A sala de recursos é essencial para o aluno deficiente. A professora Bete, que trabalhava na sala de recursos da Escola Municipal Leopoldino Maria, me ajudava, orientava, tirava xerox. Na aula de Matemática tinha material próprio, o quadro ábaco, tampinhas de garrafa pet, macarrão colorido. A sala recursos é uma parceria do professor com a mãe e o aluno deficiente. Porque a dificuldade para o aluno deficiente não é só na sala de aula. A dificuldade para o aluno deficiente começa no portão da escola”, comentou.
O segredo, segundo Paola é não parar nas dificuldades que a estrada da vida apresenta. “São muitas as dificuldades. Mas a gente dá uma grande respirada e prossegue. Meu grande objetivo para fazer faculdade de Psicologia foi a dificuldade que eu fui encontrando na minha caminhada. Quero ajudar as pessoas que passaram, passam e vão passar pelas mesmas dificuldades ou mais dificuldades que eu tive. Passei também para Assistente Social, mas preferi Psicologia que combina mais com o meu cotidiano. Comecei a escrever com lápis de carpinteiro. Vou terminar a faculdade e vou assinar meu diploma com caneta, vou ser uma psicóloga e vou ser uma vencedora”, assegurou.
Paola garantiu que ainda pretende escrever um livro de autoajuda, a fim de dar suporte aos professores das salas de recurso. “A minha irmã Pollyana sempre foi o meu tudo. Minha irmã me levava para a escola de manhã, me dava almoço, dava banho, preparava meu material para ir à escola. Minha irmã foi auxiliar da minha professora Bete. Pollyana me ajudou muito, assim como a Fátima, que hoje é diretora da Escola Municipal Leopoldino Maria. Tenho o maior orgulho de ter estudado em escola pública. Só quem estuda em escola pública sabe as dificuldades, não só dos alunos, mas dos professores também”, afirmou Paola.
A professora Elisabete Ribeiro Dias Miranda, que acompanhou e ajudou no desenvolvimento da Paola, afirmou que, ainda nos tempos atuais, a sociedade discrimina as crianças com necessidades especiais. “Elas ainda não são tão bem aceitas. Mas hoje as crianças com necessidades especiais são inseridas nas escolas por meio das salas de recursos. O grande diferencial de Paola é que é uma menina inteligente e interessadíssima. A família caminha junto com a escola, está atenta às necessidades. Eu também sempre estive em contato com a família ajudando. O médico deu um parecer para que as provas delas fossem orais. Todos nós temos nossas dificuldades, cada um aprende no seu tempo. Mas com muito amor, muita paciência, com a Paola participando dos projetos da escola, receptiva, fomos caminhando, fomos vencendo e a Paola foi desenvolvendo, crescendo e chegou onde está agora, chegou à universidade, que é uma nova etapa da vida dela. Foi fundamental a determinação dela e da mãe, que é uma guerreira. São vencedoras”, destacou.
Responsável pelo setor de Educação Inclusiva da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct), Beatriz Siqueira, fala do caso com alegria e entusiasmo. “Paola tem uma limitação motora, tem encefalopatia não progressiva da infância, antigo paralisado cerebral. Ela tem uma hemiparesia, limitação motora em um dos braços e da perna. Ela estudou em escolas da rede municipal por todo ensino fundamental, sendo atendida nas salas de recursos, com um suporte pedagógico especializado de modo a possibilitar o seu desenvolvimento acadêmico. Depois foi para a escola estadual fazer o ensino médio, mas a professora Elisabete, da sala de recursos, permaneceu dando um suporte pedagógico e esse auxílio garantiu mais esse caso de sucesso, que muito nos orgulha. Desejamos muito sucesso e mais vitórias à Paola e sua família”, disse.
Fonte: Prefeitura de Campos

ÚLTIMAS NOTÍCIAS