Artistas sofrem com impossibilidade de trabalhar durante a quarentena em Campos
Matheus Berriel 24/03/2020 13:48 - Atualizado em 24/03/2020 15:55
Álvaro Manhães, Marcelo Benjá e Will Prado
Álvaro Manhães, Marcelo Benjá e Will Prado / Reprodução-Facebook
Fechando bares e restaurantes, a pandemia do novo coronavírus acertou um golpe em cheio em quem precisa destes espaços funcionando para trabalhar. Profissionais da música que atuam na noite em Campos têm passado por momentos de incerteza, sem perspectiva do que está por vir.
Presença constante em eventos na cidade, o cantor, compositor e instrumentista Marcelo Benjamin foi um dos que teve a rotina totalmente alterada. Este era o período em que ele estaria completando sua agenda de shows deste mês e definindo os do próximo, geralmente marcados para acontecerem de quinta-feira a domingo.
— É surreal. Parece que a gente está vivendo um filme, porque nunca teve algo parecido no Brasil (em nossa geração), algo que nos afetasse tanto, mexesse com a rotina de todo mundo desse jeito. E a quarentena, mais do que recomendação, é uma necessidade, uma urgência — disse Marcelo Benjá, como é conhecido no meio artístico. — Tenho amigos músicos, especialmente os que são só instrumentistas e dependem de outros para estarem no mercado, para quem o cenário está desesperador. O que mais afeta é não ter uma perspectiva de que vai acabar tal dia, que a vida volta ao normal tal dia. A gente não tem nada. A palavra é essa: desesperador, porque os boletos não param de chegar, e, se a gente não trabalha, não tem dinheiro. Não trabalha, não vive, não come, nada. É bem difícil — lamentou.
Marcelo costuma fazer shows de voz e violão com repertório vasto, bem como apresentar especiais de Tim Maia, Jorge Ben Jor, Seu Jorge e nomes da música nordestina, entre outros. Sem poder cantar e tocar na noite, já avalia a possibilidade de fazer transmissões ao vivo pela internet, embarcando na onda que tem sido impulsionada inclusive por cantores renomados, atualmente participando de festivais virtuais.
— Os artistas da cidade estão começando a conversar. Na semana passada, alguns amigos criaram um grupo para conversar sobre o que pode ser feito. Até grandes artistas estão investindo em fazer transmissões ao vivo, as lives, e eu conheço alguns amigos que estão tentando arrecadar algum dinheiro com isso, passando um chapéu virtual. Eu devo fazer isso nessa próxima semana, para tentar conseguir alguma coisa e também com o intuito de conscientizar as pessoas sobre a nossa situação, porque estamos totalmente desamparados — pontuou Marcelo.
Atuando com música em Campos há mais de uma década, o paulistano William Prado se preocupa com os reflexos da pandemia no segundo semestre, período em que o grupo que idealizou há sete anos, o Xote Carioca, costuma ser mais acionado pelos contratantes devido às festividades juninas, julinas e agostinas. Nos últimos anos, as apresentações durante o verão cresceram devido a adaptações no forró tocado. Só em 2019 foram 82 shows em municípios do Rio de Janeiro e do Espírito Santo.
— Esse ano, fizemos um investimento de gente grande no Xote Carioca, tendo em vista que aumentaríamos em pelo menos 40% o número de shows em comparação ao ano passado. Devido ao coronavírus, já estamos nos reinventando, reorganizando e tentando entender o novo cenário que nos é apresentado no momento. Acreditamos na melhora, mas temos ciência de que teremos 70% a menos de shows em relação a 2019 — comentou Will Sanfoneiro.
Instrumentista e professor, Álvaro Manhães é músico profissional desde 1989, embora não viva apenas de suas apresentações. Ele não nega a preocupação com os reflexos no cenário cultural e em outras áreas da economia brasileira. Em contrapartida, acredita que o momento seja oportuno para que os artistas busquem valorização, não apenas financeira.
— Este é um momento em que está todo mundo sem saber o tempo exato de duração. É um hiato sem plateia, sem público presente. Mas, acredito que não perdurará. É o tempo mesmo de acomodação de uma realidade, de uma busca por controle dessa pandemia. Mas, acredito que terá um reflexo econômico muito forte. Não só nos artistas, como em todas as pessoas. Caberá, sim, algumas reinvenções. As pessoas vão ter que saber se colocar profissionalmente. E acho que é uma oportunidade, também, de se valorizar o trabalho do músico, porque todo mundo sente falta — afirmou.
Para Álvaro, deve haver mudança na percepção do público em relação ao trabalho dos artistas, mas a iniciativa deve partir destes:
— Essa valorização é muito mais do que grana. Valorização é você realmente perceber a qualidade do profissional no som que faz, como algo que você apreende. Quando se escuta uma música, ela vai para dentro do seu sistema cognitivo, de memória, emocional, sensitivo... São vários os campos em que a arte atua, e principalmente a música, que é a mais sedutora das artes. Então, o artista precisa saber e valorizar isso. Começa por ele. Se o artista não se valorizar no que está fazendo, quem vai? Esse hiato pela Covid-19 vai abrir uma condição de haver uma melhor qualidade no tempo das pessoas.

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