Ovo de avestruz, Corcova de dromedário
Mariana Luiza 22/01/2017 01:21 - Atualizado em 19/12/2017 18:36
Apareceu-lhe um nódulo nas costas. Um pequeno caroço do tamanho da ponta de um dedo mindinho, localizado na altura da escápula esquerda. Junto do nódulo, uma insuportável dor de cabeça que irradiava do caroço, subindo pelo pescoço, se alojando intermitentemente sob a sobrancelha de mesmo lado. Correu para a massoterapeuta. Não adiantou. A cada sessão, o nódulo se mostrava mais comparecente, afrontando a massagista com sua presença e dureza marcante tal como um diamante. Resolveu então procurar uma chinesa, que segundo alguns amigos e o Google, era expert em tratar das mazelas de corpos alheios. Na primeira sessão de shiatsu, a chinesa apelidou o nódulo de caroço de azeitona. Tal sua dureza, tal seu tamanho. No final do conjunto de dez sessões, cada uma com quase duas horas de muita dor e compressões, o caroço se desmantelava sob próprio fruto, tal sua maciez, tal seu tamanho. Mas não desaparecia. Parecia que aquela azeitona, ora caroço, ora fruto desencaroçado chegara para ficar. Para fazer parte daquela vida, tomar conta daquele ser e dar sentido a um corpo que pouco doía até então. Tal como uma azeitona sem caroço, um corpo sem dor, é um corpo sem sentido. É um corpo sem sentimento. Mas o padecimento crônico faz tão, ou mais mal do que a escassez. O corpo se torna vítima da dor. Incapaz de vivenciar qualquer outra coisa além daquela tortura. Se antes ela não chorava por motivo algum, agora só chora pela escápula dormente. Recorreu à terapia para investigar o princípio de tudo. O nódulo chegou num dia atípico, um frio quase glacial de um setembro. A dona do corpo passava férias numa casa de praia em Arraial do Cabo, e acordou com uma dor nas costas irradiando para o pescoço. Tratou com pomadas para torcicolo e procurou um médico no final da semana. O primeiro diagnóstico: um distensão muscular devido ao frio excessivo foi tratado com antiinflamatórios. Diante da ineficácia do tratamento. Recomendou-se pomadas, comprimidos, compressas quentes e ao longo dos meses, a dona do corpo foi mudando de médicos, de técnicas de massagens, de remédios e superstições. O caroço já fazia tão parte dela, que acostumada à dor, ela já não se lembrava da vida sem tal moléstia. Já chegava junho e a azeitona faria aniversário em três meses. A esta altura, a dona do corpo já havia percorrido quase todas especialidades médicas possíveis em todo o Rio de Janeiro. Ortopedistas, neurologistas, fisiatras, clínicos gerais e psiquiatras. A nova massoterapeuta, tentou pedras quentes, cristais, manta térmica, ventosas de sucção e até choques elétricos. Os tratamentos eram apenas paliativos, amansando o caroço para os dias seguintes. O nódulo já estava bem crescido, sendo apelidado pela tal como ovo de codorna. O fisiatra o chamava de ovo de avestruz e a terapeuta dizia que o sofrimento físico se tratava de um processo psicanalítico. A dor fantasma na escápula era oriunda de uma asa podada. Cujo corpo de mente fértil e louco para voar, se via preso numa massa de carne e osso estática demais, pesada demais por carregar nos ombros todas as preocupações mundanas. Apelidou o nódulo de asa encruada. A dona do corpo saiu da sessão refletindo sobre a última vez que voara bem alto sem o medo de estabacar no chão. Sobre quando começou a podar, por si só, as próprias asas, os próprios sonhos. Sem resposta fácil, abandonou a ideia de asa encruada preferindo apelidar a dor de ovo de avestruz. É provável que este tenha sido o apelido mais coerente para o calombo nas costas, uma vez que fora dado pela dona do corpo que o carregava. Avestruzes são aves com Asas descabidas. Incapazes de voar por causa das asas pequenas e do peso de seu próprio corpo, a ave se conforta em justificar a falta de vôo por sua habilidade de alcançar até 60km por hora numa disparada. Gosta de tirar vantagem com os demais portadores de penas justificando ter pernas compridas e saradas e um aparelho digestivo capaz de ingerir até pedra. Definitivamente este era a ave adequada. Incapaz de voar para alcançar os sonhos e habilidoso a engolir qualquer sapo ou pedra. A terapeuta alertou a dona do corpo que engolir sapos e pedras está mais para um distúrbio psicológico do que para uma habilidade. Mas a paciente não pensava assim. E acreditou nas vantagens de correr ao invés de voar. E na característica de enfiar a cabeça na terra quando lhe faltasse coragem para vida. Abandonou os tratamentos e adotou de vez o nódulo nas costas. Depois que colocou nome apropriou-se do calombo como um animal de estimação e seguiu os dias corcunda, carregando seus medos e preocupações numa corcova que só crescia. De pássaro de asas podadas, a dona do corpo, se transformou lentamente num droMEDÁrio cercado de água. Cercado de poças, de poços e de aves que voavam. Uma tristeza só.

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