Se a praia fosse de Quixote...
Mariana Luiza 06/11/2017 14:53 - Atualizado em 18/12/2017 18:16
Praia do Sancho
Praia do Sancho
Era uma travessia, a nado, de ponta a ponta da praia do Sancho. A chance derradeira de provar às cinco amigas que eu não era tão covarde quanto parecia naqueles quatro dias em que viajávamos juntas pelo arquipélago de Noronha. Já havia fracassado no mergulho com cilindro e sofrido um ataque de histeria ao topar com uma saparia no banheiro do hotel. As cinco amigas se diferenciavam de mim em algumas coisas cruciais para a viagem: nadavam como atletas e gostavam de batráquios. A mais mística delas, colecionava porcelanas sapais que beirando a perfeição, faltavam só coaxar na estante da sala. O guia, que nos acompanhava no passeio à praia, prometeu um mergulho com os golfinhos, que segundo seus cálculos, cruzariam a baía dentro de uma hora. Era esse o tempo que eu tinha para vencer o meu medo de mar, e acompanhar as meninas na travessia marítima. Ao sinal do guia, as cinco destemidas, correram para a rebentação. Eu hesitei no primeiro momento. Ofereci-me a tomar conta de nossas carteiras e roupas que ficariam sozinhas na areia, mas não tive muita persuasão, uma vez que a praia estava deserta, seu acesso era difícil e a luz do dia começava a cair. Provavelmente não apareceria mais ninguém para se banhar ou simplesmente pegar nossas coisas.
A areia era um lugar seguro, tanto para as carteiras, quanto para mim. As meninas, além quebra mar, insistiam e eu, com os pés enterrados na areia movediça, pensava que agora não me restaria outra alternativa a encarar o mar aberto. O guia percebendo o tamanho do meu medo e o quanto ele poderia atrapalhar o passeio do grupo, se ofereceu a me acompanhar, segurando a minha mão, durante toda a travessia. Aceitei de prontidão, afinal eu tinha um pequeno e pesado problema e dividi-lo, facilitaria por demais no cumprimento da minha incumbência. Ninguém na praia tinha percebido, mas eu carregava nas costas toda a gordura de Sancho Pança, que, aliás, não era pouca. Sancho tinha uma missão: Precisava levar umas encomendas para Dom Quixote, do outro lado da praia, e quando me viu relutante na areia, pediu para ajudá-lo. O guia me dizia para ficar esperta. Não podíamos dar bobeira com as ondas cada vez mais altas. Era preciso esperar o recuo do mar, mergulhar bem fundo, prender a respiração e avançar assim que a onda gigante passasse por nós. Foram duas ondas. O Sancho até que colaborou no primeiro mergulho porque ele ainda conseguia ficar de pé. Mas no segundo, aquele homenzinho pesado pulou das minhas costas e nadou de volta pra areia. Eu soltei a mão do guia e fui em direção à areia, como fazem os amigos leais. Não sei se o guia conhecia Sancho Pança, nem muito menos Dom Quixote, mas seguindo os passos de um fiel escudeiro, ele nadou de volta a areia e juntou-se a nós. As meninas já estavam em alto mar acenando com ansiedade. Foi quando o guia me olhou nos olhos, repetiu as orientações e perguntou se poderíamos tentar novamente. “Claro que sim!”. Respondi sem hesitar e lá fomos nós mar adentro. Passada a rebentação, alcançamos as meninas e começamos a trajetória. Todos juntos. O guia de mãos dadas, e Sancho Pança se equilibrando nas minhas costas. Ele não podia se molhar porque carregava uma bolsa cheia de roupas, comidas e remédios de Quixote, o que o deixava ainda mais pesado. Por um instante, me esqueci onde estava e nadei com a felicidade daqueles que estão prestes a cumprir a mais importante e honrada de todas as tarefas. Debaixo de mim, tubarões lixa nadavam a uma curta distância, mas eu não me incomodei. A alegria em acompanhar Pança a uma missão dada por Quixote era maior do que qualquer boca dentada de um tubarão. O guia me olhava a toda hora fazendo um sinal de "ok" com os dedos. Eu estava confiante, e percebendo minha calma, o guia soltou minha mão. Na hora não me importei. Afinal tinha a companhia de Pança. Eu usava uma máscara e um snorkel, só olhava para baixo e nadava muito forte. E assim prossegui por alguns minutos. Num momento da trajetória, levantei a cabeça para fora d’água e percebi que as meninas se afastavam vertiginosamente a cada braçada e que o guia já tinha desaparecido no horizonte. “Calma, está tudo sob controle!” Eu pensava em não pensar. Mas como é difícil a proeza de esvair da cabeça o peso do pensamento. Sancho se equilibrando em minhas costas também incomodava um pouco. Ele estava bem acima do peso para sua pouca estatura e ainda por cima, carregava consigo as comidas, os remédios e as roupas de Quixote. Ah, e claro, o mais pesado de tudo: sua adarga de ferro maciço. Eu ainda não tinha me dado conta de quanto pesava aquele escudo, que não podia tocar o mar a fim de evitar o sal corrosivo. E ao contabilizar o peso que carregava nos ombros gritei: “SOCORRO!!!!” Somente minha amiga Natália ouviu nosso apelo e nadou em nossa direção. Eu disse a ela que precisava voltar pra areia. Ela nadou depressa até alcançar o guia que veio nos salvar. Era o fim da missão de Pança. As meninas continuaram na água e o guia me deu novas instruções para passar a rebentação sem levar um caldo. As ondas estavam bem mais altas do que quando entramos no mar. Sancho se agarrou nas minhas costas com firmeza. Esperamos alguns minutos por uma onda mais fraca. Mergulhamos fundo, e nadamos depressa até a beira d’água. O guia voltou para trazer as minhas amigas. Era o fim da missão delas também. Não tinha mais Dom Quixote, nem mergulho com os golfinhos. E como fazem os bons amigos, ninguém tocou mais nesse assunto até o fim da viagem. Sancho Pança tinha os pés no chão e a realidade na cabeça. Por isso, ele pesava feito chumbo. Carregá-lo nas costas foi uma impossível tentativa de esquecer o meu medo de mar e nadar com os golfinhos. O bom disso tudo é que assim como Pança, eu tenho fiéis escudeiras. Amigas com a leveza dos sonhos de Quixote, que apesar de conseguirem nadar, não se importaram com o peso da minha realidade. Quem sabe noutra praia, com outro nome.

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